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(A) :: Ressurreição

Ressurreição

Criamos poucas memórias e damos-nos pouco à vida. Reprimimos sentimentos, espantos, surpresas e tudo o mais que dá cor aos nossos dias enquanto nesta versão pré-ocupada vivemos a vida a preto e branco

Eduardo Sá
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Passam-se dias sobre dias e raramente trocamos uma palavras sequer sobre o que se passa connosco. Estamos sempre demasiado ocupados a todas as horas. Tão ocupados que iludimos o silêncio, que nos chama para a palavra, e o empanturramos com um ror de coisas que nos tornam pré-ocupados, que é um modo de afastarmos os outros da curiosidade que possam ter em relação ao que passa dentro nós, contribuindo para uma espécie de arresto de bens que todos temos para trocar. O que é estranho é que são poucas as vezes que nos damos ao privilégio de conversar sobre as nossas coisas, das pequeninas a tudo o mais que é importante, o que parece transformar-se numa forma de nos irmos remetendo ao esquecimento do que somos. Talvez o “já somos o esquecimento que seremos”, de Borges, queira dizer que somos mais o passado que somos já hoje que o futuro daquilo que desejamos. Ou que escolhemos morrer devagarinho sempre que renunciamos à vida que temos porque há coisas mais importantes para fazer… Como pode a vida ser tão pouco importante deste modo?…

Não devia ser assim, mas fomos educados para que o mais importante sejam todos os outros compromissos e raramente aquele que devíamos ter com a vida que temos para viver. Criamos poucas memórias e damos-nos pouco à vida. Reprimimos sentimentos, espantos e surpresas e tudo o resto que dá cor aos nossos dias, enquanto na nossa versão pré-ocupada vivemos a vida a preto e branco. E nem reparamos que os factos, que parecem interpor-se na sua importância entre nós e ela, com o tempo, se transformam em fragmentos de memória sem uma história que os ligue. O que faz com que, quando nos remetemos ao esquecimento sem recriarmos a memória todos os dias, o futuro nos espere na ficção.

Depois, quase de um dia para o outro, a luz muda, os dias tornam-se grandes e as azáleas, incansáveis, dizem-nos — com as suas cores exuberantes, os rosas, sobretudo — que a primavera acabou de regressar e amar a vida sobre todas as coisas parece ser quase o slogan com que nos deparamos, com a luz do fim da tarde e com o sol, os pássaros e os cheiros da primavera, entre a madrugada e a manhã. A ressurreição que ela nos sugere não significa que se regresse da morte e se ressuscite, ciclicamente, pela Páscoa, mas que a ressurreição, à escala do que temos cá dentro, representa cada momento em que deixamos de estar pré-ocupados e damos importância aquilo que deixa de nos empurrar para o esquecimento.

Porque é que, por pudor, as pessoas evitam conhecer-se — será essa a pergunta — quando sempre que o fazem é primavera de todas as vezes?