Todos os anos, milhares de jovens chegam à universidade pela primeira vez. Têm entre 17 e 18 anos, estão no início da idade adulta, numa fase em que ainda estão a construir quem são, os seus valores e a forma como se relacionam com o mundo. Chegam cheios de entusiasmo, mas também com medo. Para estudantes que estejam a passar por uma fase menos boa, que se sentem deslocados ou inseguros, este momento é ainda mais delicado.
É nesse momento de fragilidade que muitos entram em contacto com a praxe. Uma tradição que se apresenta como integração, espírito académico e rito de passagem. Na prática, é uma aula intensiva de como obedecer sem perguntar porquê.
Alguém lhes diz: “Olhos no chão, caloiro”. A primeira lição da universidade está dada. Não se aprende a pensar. Não se aprende a questionar. Aprende-se a olhar para os pés e a sorrir. Muitos aceitam. Cantar no meio da rua. Ser tratados por “bichos”. Pedir autorização para falar. Cumprir ordens sem sentido. Tudo em nome de uma promessa vaga chamada integração. Aceitam porque têm medo de ficar de fora. De não pertencer. Talvez devêssemos saltar antes para a realidade.
A praxe sobrevive não porque seja indispensável. Sobrevive porque ninguém quer ser o primeiro a desafiar um ritual que ensina, de forma quase artística, que pertencer significa saber qual é o seu lugar.
E talvez parte desta energia venha de outro lado.
A universidade deveria ser o lugar onde se aprende a questionar, a pensar criticamente, a desafiar injustiças. Mas muitos estudantes descobrem rapidamente que o primeiro contacto com a vida académica é um pequeno teatro de hierarquias.
Apesar de tudo, a praxe pode ter um lado positivo: quando feita com respeito e bom senso, ajuda a criar laços, aproxima estudantes e fortalece o espírito de equipa, mostrando que integração não precisa de humilhação para existir.
E vamos ser claros: a praxe genuína nunca deveria ser sobre medo, humilhação ou jogos de poder baratos. O que por vezes acontece, gritos, insultos, tarefas absurdas ou testes de resistência, não é praxe, é excesso disfarçado de tradição. São atitudes de quem confunde traje com autoridade e diversão com abuso. Misturar estes comportamentos com integração académica é uma distração perigosa.
A universidade existe para formar pessoas, não para treinar caloiros em paciência ou submissão. O verdadeiro desafio deveria ser ajudar os estudantes a encontrar o seu lugar, apoiar quem chega de fora, criar laços e dar ferramentas para enfrentar a vida real, não transformar a primeira semana numa prova de resistência social.
O tempo universitário é curto e precioso. É nele que se formam ideias, amizades e hábitos que duram para toda a vida. O treino da liberdade deve ensinar responsabilidade e respeito, não humilhação ou medo. Integrar significa criar oportunidades, não criar traumas.
Felizmente, algumas universidades perceberam que é possível integrar sem humilhar. Surgiram alternativas que substituem a submissão pelo acolhimento verdadeiro. Mentoria. Atividades culturais. Voluntariado. Desafios de equipa. Encontros informais. Tudo pensado para aproximar pessoas sem criar humilhação pública.
Na Universidade Autónoma de Lisboa existe precisamente o Acolhimento. Tal como o nome indica, é acolher quem chega. Receber estudantes deslocados. Dar-lhes espaço para conhecer pessoas. Construir amizades. Sem testes de resistência. Sem humilhação. Sem ordens para baixar os olhos. Apenas integrar.
A diferença entre os dois modelos resume-se a uma escolha: começar o ano académico com ordens para baixar os olhos ou começar com respeito, abertura e bom senso.
E talvez esteja na altura de perguntar, com toda a ironia do mundo: por quantos mais saltos será preciso passar antes de saltarmos para outra realidade e começarmos a proteger os nossos estudantes de verdade?
Dura praxis, Sed praxis.
Porque tradição não precisa de humilhação. E se ainda não percebemos isso, talvez seja hora de parar de olhar para os pés e começar a olhar para o futuro.