Assinalar os 50 anos da Constituição da República Portuguesa no domínio do desporto não deve ser apenas um exercício evocativo, mas antes um momento de reflexão estratégica sobre o modelo que construímos e, sobretudo, sobre aquele que queremos projetar para o futuro. Ao longo destas cinco décadas, Portugal consolidou um sistema que reconhece o desporto como direito fundamental e instrumento de coesão social, mas também é evidente que esse mesmo sistema revela hoje limitações estruturais que importa enfrentar com realismo, ambição e sentido de responsabilidade.
O desporto deixou de ser apenas uma dimensão social ou educativa. É hoje, de forma clara, um setor com impacto económico relevante, com capacidade de gerar valor, atrair investimento, criar emprego e projetar internacionalmente o país. Esta transformação obriga a repensar o papel do Estado: não como agente dominante ou substituto da sociedade, mas como garante de regras, criador de condições e indutor de eficiência.
No desporto profissional, essa realidade é particularmente evidente. Estamos perante uma indústria global, altamente competitiva, onde a capacidade de atrair talento, investimento e audiências depende de estabilidade regulatória, credibilidade institucional e competitividade fiscal. O papel do Estado deve centrar-se na regulação, na supervisão e na garantia da integridade das competições, assegurando transparência e responsabilidade financeira. Qualquer intervenção que distorça o funcionamento do mercado ou crie dependências artificiais tenderá a fragilizar o setor no médio prazo. Pelo contrário, um enquadramento previsível e competitivo potenciará crescimento, inovação e sustentabilidade.
Já no desporto olímpico, enquadrado pelo Comité Olímpico de Portugal, a lógica é distinta. A participação nos Jogos Olímpicos representa um investimento estratégico do país, com retorno que vai muito além das medalhas. Está em causa a afirmação internacional, a inspiração das gerações mais jovens e a criação de referências de excelência. No entanto, esse investimento deve ser cada vez mais criterioso, concentrado e orientado para resultados, evitando dispersão de recursos e promovendo uma cultura de exigência, avaliação e responsabilização.
O mesmo se aplica ao desporto paralímpico, desenvolvido sob a liderança do Comité Paralímpico de Portugal. A participação nos Jogos Paralímpicos tem demonstrado que
Portugal é capaz de competir ao mais alto nível, mesmo com recursos limitados. Mas esse sucesso não pode ocultar a necessidade de reforçar o modelo, nomeadamente ao nível da identificação de talento, das condições de treino, do apoio às carreiras dual dos atletas e da valorização mediática. A inclusão não pode ser vista como um argumento para menor exigência; pelo contrário, deve ser um fator adicional de rigor e ambição.
No caso do desporto surdolímpico, associado às Surdolimpíadas, o desafio é ainda mais estrutural. A menor visibilidade traduz-se frequentemente em menor financiamento e menor capacidade de desenvolvimento. É fundamental garantir que este segmento não permanece à margem do sistema, promovendo a sua integração, valorização e acesso a condições adequadas de preparação e competição.
Se olharmos para a base do sistema, encontramos o desporto de formação e o desporto escolar, que continuam a ser determinantes para o futuro do desporto nacional. A qualidade da formação, nos clubes e academias, condiciona diretamente a capacidade competitiva do país. Exige-se, por isso, um reforço dos padrões de qualificação técnica, da certificação e da supervisão, mas também a criação de incentivos que valorizem o investimento de longo prazo.
O Desporto Escolar, por sua vez, deveria assumir-se como o verdadeiro ponto de partida do sistema, garantindo acesso universal e promovendo hábitos de prática regular. No entanto, continua a funcionar de forma relativamente isolada, com fraca articulação com clubes e federações, o que limita o seu impacto na deteção e desenvolvimento de talento.
É precisamente neste ponto que se torna evidente uma das principais fragilidades do modelo português: a fragmentação. O desporto profissional, o desporto escolar, a formação e o alto rendimento continuam, em grande medida, a operar em lógicas paralelas, sem uma verdadeira integração estratégica. Esta ausência de continuidade nos percursos desportivos conduz a perdas de talento, ineficiências na utilização de recursos e menor capacidade competitiva.
Impõe-se, por isso, a construção de um modelo integrado, onde o percurso do atleta seja pensado de forma contínua, desde a escola até ao alto rendimento, incluindo as dimensões olímpica, paralímpica e surdolímpica. Essa integração não significa uniformização, mas sim coordenação estratégica, partilha de informação, alinhamento de objetivos e criação de mecanismos de transição eficazes entre diferentes níveis e estruturas.
Paralelamente, é fundamental reforçar a ligação entre o desporto escolar e o desporto de formação como forma de garantir uma verdadeira democratização da prática desportiva. Um sistema excessivamente dependente de estruturas privadas ou de acesso condicionado tende a gerar fenómenos de exclusão e elitização, afastando jovens com talento mas sem recursos. Ao garantir uma base alargada, acessível e articulada, será possível não só aumentar a participação, mas também assegurar que o mérito e o potencial não ficam condicionados por fatores económicos ou sociais.
Esta visão exige também uma mudança no modelo de financiamento e na política fiscal associada ao desporto. A excessiva dependência do financiamento público deve dar lugar a um modelo mais equilibrado, que incentive o investimento privado, valorize o mecenato e promova a sustentabilidade das organizações. O Estado deve continuar a investir, mas de forma mais estratégica, associando financiamento a objetivos, resultados e impacto.
Cinquenta anos depois, o desafio do desporto português não é de expansão, mas de qualificação. Qualificar políticas, qualificar investimento, qualificar gestão. Criar um sistema mais exigente, mais integrado e mais orientado para resultados.
Porque só assim será possível garantir que o desporto cumpre plenamente o seu papel: não apenas como direito consagrado na Constituição, mas como motor de desenvolvimento, inclusão e afirmação de Portugal no mundo.