Na passada quarta-feira, 1 de abril de 2026, Donald Trump foi entrevistado pelo Telegraph e proferiu o que muitos pensam, mas poucos dizem: a NATO é um tigre de papel. “I was never swayed by NATO. I always knew they were a paper tiger, and Putin knows that too, by the way.” Este nosso continente ficou perplexo e os líderes aliados responderam com declarações de fidelidade à Aliança. Keir Starmer chamou-lhe “the single most effective military alliance the world has ever seen.” Esta indignação é compreensível — mas também é, em grande medida, uma distração.
Porque Trump tem razão, ponto. Erra apenas — e gravemente — na solução.
Para perceber porquê, é necessário recuar mais de 70 anos, à fundação da Aliança e à Guerra Fria.
A Guerra Fria era perversa, mas produzia estabilidade estrutural. Kenneth Waltz no seu livro Theory of International Politics (1979), demonstrou que a bipolaridade simplifica o cálculo estratégico de forma decisiva — em condições de bipolaridade, a perceção de ameaça é partilhada, a identidade do adversário é inequívoca, e a coesão interna da aliança resulta mais da lógica estrutural do sistema do que da solidariedade política. Apesar de não concordar com a tese central do Realismo Estrutural, reconheço que Waltz tem razão neste ponto. A NATO não era coesa porque os seus membros se morriam de amores uns pelos outros — o claro exemplo disso é a Grécia e a Turquia — era coesa porque a URSS existia.
Com o fim da União Soviética em 1991, a NATO perdeu-se, ficou sem propósito. Em vez de se dissolver, expandiu-se para leste e procurou novas missões — dos Balcãs ao Afeganistão, do combate ao terrorismo à gestão de crises. Foi uma escolha política deliberada — que produziu exatamente o problema que nos assola hoje: uma aliança sem threat consensus, sem acordo interno sobre quem é o adversário principal. Glenn Snyder havia antecipado este dilema em 1984: numa aliança multipolar, onde os membros têm perceções de ameaça divergentes, o alliance security dilemma agrava-se, porque o risco de abandonment e o risco de entrapment tornam-se simultaneamente mais plausíveis para diferentes atores. É precisamente isso que observamos hoje — não sabemos porque lutamos.
De Helsínquia a Varsóvia, o adversário é a Rússia — uma ameaça existencial, territorial, visceral. Para Washington, é cada vez mais a China — uma competição sistémica de longo prazo pelo domínio tecnológico e pela ordem internacional. Para Lisboa e Madrid, são o terrorismo transnacional, a instabilidade do Sahel, os fluxos migratórios irregulares. São três threat perceptions genuinamente distintas, alojadas na mesma Aliança, partilhando o mesmo Artigo 5. Uma aliança que não consegue nomear o adversário não consegue dissuadir ninguém — porque a credibilidade da dissuasão assenta na convicção de que o compromisso coletivo será honrado.
A questão do burden-sharing — a obsessão de Trump (que, a meu ver, é justificado) — é, neste contexto, um sintoma, não a causa. Mancur Olson e Richard Zeckhauser demonstraram em 1966 que a defesa colectiva tem a natureza de um bem público, o que cria incentivos estruturais ao free-riding pelos membros mais pequenos — os maiores pagam inevitavelmente mais do que a sua quota proporcional. Isto não é uma anomalia moral — é uma consequência previsível da lógica dos bens públicos. Trump reage a um problema que a teoria das alianças descreveu há sessenta anos, como se fosse uma descoberta sua.
A invasão da Ucrânia em Fevereiro de 2022 deveria ter resolvido o threat consensus. É uma guerra convencional, por meios não convencionais no coração da Europa — o regresso da lógica pré-Guerra Fria que o paradigma pós-Guerra Fria prometia enterrar. Reunificou o Ocidente temporariamente. Mas as fraturas reapareceram depressa: a Hungria a bloquear sanções, o Sul Global a recusar o alinhamento com o ocidente — a expansão dos BRICS é o sinal mais evidente disso, a própria Aliança dividida sobre os limites do apoio a Kiev. A Rússia nunca subscreveu o paradigma liberal da ordem internacional pós-1991. Continuou a operar segundo a lógica da realpolitik e da esfera de influência. Como observou Raymond Aron, a paz entre grandes potências nunca é uma condição estável — é um equilíbrio permanentemente negociado sob a sombra da força: ‘La paix est impossible, la guerre est improbable.’ A partir daquele ano, a segunda parte dessa fórmula já não se sustentava, a Europa via regressar a guerra ao seu território pela primeira vez desde os Balcãs.
Agora, a guerra no Irão veio expor uma segunda fratura — mais profunda, porque é transatlântica e sem precedentes. Espanha fechou o espaço aéreo a aeronaves americanas que transitem para o Médio Oriente. Itália negou permissão de aterragem a uma aeronave americana em missão. O Secretário de Estado Marco Rubio foi incisivo: “If NATO is just about us defending Europe if they’re attacked but then denying us basing rights when we need them, that’s not a very good arrangement.” Independentemente do mérito jurídico e político do conflito iraniano — que por sinal há muito a discutir —, o facto é chocante: aliados recusaram apoio operacional aos Estados Unidos. A credibilidade do Artigo 5 não é uma propriedade automática do Tratado do Atlântico Norte. A confiança demora a construir-se, mas rui num ápice — e quando o faz, a relação transatlântica afunda-se com ela.
Carl Schmitt escrevia, em O Conceito do Político (1932), que a distinção amigo-inimigo é constitutiva da política: sem ela, não há decisão soberana, não há mobilização coletiva eficaz, e não há unidade política real. Pode-se discordar de Schmitt em muito — e há razões sólidas para o fazer. Mas neste ponto ele captura algo que as democracias liberais tendem a querer ignorar: uma comunidade política que não consegue identificar o seu adversário não consegue defender-se dele. A NATO de 2026 é, nesse sentido, uma aliança que vive da inércia institucional e da memória de uma ameaça que desapareceu — não de uma visão partilhada do presente.
Trump tem razão, portanto, quando diagnostica a fraqueza. Mas a conclusão que retira — sair, ou ameaçar sair — é precisamente o que transforma uma vulnerabilidade corrigível numa crise irreversível. Não existe alternativa à NATO. Não hoje, não amanhã. Uma autonomia estratégica europeia é um projeto em construção, sem comando unificado, sem capacidade nuclear independente (tirando a França), sem o peso dissuasor que sete décadas de comprometimento americano produziram. Kissinger alertava, em World Order (2014), que desmantelar estruturas de ordem internacional sem as substituir por algo equivalente é a forma mais eficaz de produzir caos. O problema não é conter os fortes — é que sem a estrutura que os contém, o caos preenche o vazio. Uma NATO degradada não é uma Europa mais forte — é um convite à desestabilização que tanto Moscovo como Pequim aguardam.
A NATO é imprescindível. Mas a sua imprescindibilidade não é argumento contra a reforma — é exatamente a razão pela qual a reforma é urgente. O que está em causa não é o percentual do PIB (acordado em Junho de 2025 o compromisso de 5% em defesa e segurança até 2035), não é o acesso a bases no Médio Oriente, não é sequer a questão iraniana. O que está em causa é se a Aliança consegue fazer aquilo que nenhuma instituição multilateral consegue fazer facilmente: forçar uma conversa honesta sobre quem são os adversários comuns, o que cada membro está disposto a defender, e onde estão os limites reais da solidariedade coletiva.
Essa conversa é politicamente custosa. Exige que a Europa pare de tratar a NATO como um seguro de vida que não precisa de ser renovado. Exige que Washington reconheça que uma aliança de democracias não funciona por decreto presidencial. Exige que os membros do flanco leste e os do flanco sul admitam que as suas hierarquias de ameaça são genuinamente distintas — e que isso precisa de ser negociado, não ignorado.
Mas é a única conversa que importa. E só pode acontecer dentro da Aliança — nunca fora dela. Quem abandona a mesa não reforma nada. Apenas deixa o lugar vazio para quem nunca teve intenção de se sentar.