O livro começa a pés juntos, com uma epidemia de linchamentos. Ao investigá-la, Judite Furriel identifica um padrão de violência. Em vários casos, o mesmo molde. De início, o boato; logo a seguir, a crença e a vontade de justiça. Justiça, claro, é violência, levada a cabo por mãos próprias. A partir daqui, o leitor vê a vingança e a crueldade mascaradas de bonomia, assim como a satisfação pela violência mascarada de justiça.
Assim, o romance enfrenta uma sociedade polarizada e emotiva, cujos cidadãos aparecem como juízes em tempo real. Neste cenário, a violência é justificada pela ideia de validade moral, ou superioridade moral, o que significa que é justificada por quem, partindo de uma visão polarizada, se põe de um lado a querer vencer e romper o outro. Com isto, Rui Zink apanha os ares dos tempos: há gente tão apetrechada de razão que acha que pode linchar os outros, e que isto ainda lhe configura o epíteto de herói, ou salvador. Espécie de Robin dos Bosques moderno. Os actos, sendo pretensamente heróicos, baseiam-se apenas numa sensação, emotiva e justiceira: zero dúvidas, só certezas. A própria violência, convém acrescentar, é potenciada pela desinformação, que por sua vez cavalga na inteligência artificial, sobretudo pela necessidade de se agir na hora, o que implica que se abdique da calma a que a distância obriga.
Difícil será, por tudo isto, ler o livro sem se fazer a ponte com o quotidiano, já que o romance bebe de um fenómeno que tem sido transversal entre os quadrantes políticos, e que passa por uma visão dicotómica da realidade, que, mais do que ser esquerda vs. direita, passou a ser certo vs. errado. Sem surpresa, todos os quadrantes, por diferentes que sejam, acreditam pertencer ao primeiro, o que justifica fúrias e afastamentos de quem crêem pertencer aos segundos. Em certas partes, ao cristalizar uma certa sensação moderna, e uma certa forma de estar e de agir, parece que Zink consegue converter caixas de comentários online em romance. Portanto, a experiência de leitura parte do reconhecimento da ficção, ao mesmo tempo que do espelhamento da realidade, uma vez que o leitor reconhece certas tendências comportamentais.

Ora, o livro, partindo dos linchamentos, que funcionam como gancho funcional para o resto da leitura, já que o leitor é logo agarrado pela ideia animal dos crimes e pelo discurso directo, acaba por expandir-se para outros assuntos, que aparecem de forma orgânica e bem limada. Saímos da cabeça de Judite Furriel e do tom desbragado e ritmado da oralidade do primeiro linchador, e damos com uma paixão entre dois imigrantes ou com o folhetim de um grupo de fascistas que querem salvar a pátria. À medida que o romance avança, o que parecia um enredo sobre um crime desagua numa espécie de parábola – meio ficção científica, meio cogitação do mundo. E, ao ver tudo preto no branco, com a boa dose de manipulação que os bons escritores sabem meter dentro da prosa, o leitor dá por si de caras com os fenómenos sociais da própria vida coetânea.
O livro é amplo, não há grandes manias na prosa, o que não lhe reduz a complexidade. Pelo contrário. E sobretudo Zink não tem medo de ir aos temas complexos, tendo ainda a sorte, ou o engenho, de ter graça. Nunca tenta ser o menino bem comportado da língua portuguesa. Pelo contrário, faz das frases o que quer, torce-as no registo da oralidade, e nesse momento deixa-as respirar. Quando as personagens falam, ninguém ouve a voz de um intelectual que quer escrever coisas bonitas, e a verdadeira beleza desta prosa reside aí. Além disso, misturando discurso directo com cogitação sobre o discurso alheio, o leitor passa a ter acesso ao que é dito e à forma como outras personagens interpretam o que fica por dizer.
Zink coopta para este romance a volatilidade da contemporaneidade e põe lá elementos que têm condicionado a vida pública, como a inteligência artificial. Mas, claro, o que mais pesa é mesmo este fenómeno social colectivo, em que quase tudo o que é voz pública pensa a preto e branco: em vez de dúvidas, os próprios agentes políticos vivem de certezas, o que não raras vezes fragiliza os próprios projectos ou os próprios argumentos. Também a velocidade do livro, no caso a forma imediata com que as personagens se lançam a linchamentos, responde a e reflecte a contemporaneidade, cuja velocidade estonteante das notícias, da informação e, sobretudo, da desinformação tem provocado um efeito de reacção imediata, que faz com que, volta e meia, o país inteiro – quase, vá – viaje em chavões.
Lido o livro, fica a impressão de que a velocidade e as certezas são mais mecanismos de ameaças e desestabilização do que formas de justiça. E, sobretudo, vê-se um autor que sabe casar elementos, dando a quem lê um universo abrangente e uma leitura dinâmica.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.