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(A) :: "Toda a autoridade terá de responder pela forma como exerce o poder recebido". Papa Leão XIV carregou a cruz em toda a Via Sacra

"Toda a autoridade terá de responder pela forma como exerce o poder recebido". Papa Leão XIV carregou a cruz em toda a Via Sacra

Foi a primeira Via Sacra presidida pelo Papa Leão XIV que levou a cruz em todo o percurso (o que acontece pela primeira vez desde 1994). O poder e as guerras estiveram nas reflexões.

Alexandra Machado
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“Também hoje há quem acredite ter recebido uma autoridade sem limites e pense poder usá-la e abusar dela à vontade”. Esta é uma das mensagens enviadas esta sexta-feira no percurso da Via Sacra, presidida pela primeira vez pelo Papa Leão XIV.

Logo na 1.ª estação é referido: “Toda a autoridade terá de responder perante Deus pela forma como exerce o poder recebido: o poder de julgar, mas também o poder de iniciar uma guerra ou de a terminar, o poder de educar para a violência ou para a paz, o poder de alimentar o desejo de vingança ou o de reconciliação, o poder de usar a economia para oprimir os povos ou para os libertar da miséria, o poder de espezinhar a dignidade humana ou de a proteger, o poder de promover e defender a vida ou de a rejeitar e sufocar”.

https://youtu.be/2Eqcb13efns

Num mundo mergulhado em várias guerras, a atualidade consegue ser lida no texto que acompanhou a Via Sacra nesta sexta-feira, no Coliseu de Roma, na qual o Papa Leão XIV carregou a cruz nas 14 estações que a compõe. O último Papa que o tinha feito foi João Paulo II em 1994. Os dois últimos papas — Bento XVI e Francisco — nunca carregaram a cruz pelas 14 estações (cinco no interior do anfiteatro romano e nove no exterior). Segundo o Vaticano estiveram presentes mais de 30 mil pessoas.

O texto desta Via Sacra foi escrito pelo padre franciscano Francesco Patton, com base em textos evangélicos e mensagens de São Francisco de Assis, que morreu há 800 anos.

Francesco Patton já tinha assumido, citado pela agência Ecclesia, que nas reflexões e orações deste ano ficaria evidente a inspiração “da realidade atual”, em figuras contemporâneas e nas vítimas dos atuais conflitos.

A Via Sacra é percorrida em 14 estações que assinalam o caminho percorrido por Jesus, carregando a cruz, até ao Calvário. Em cada uma das estações é dita uma reflexão. No caminho deste ano, o poder foi refletido em vários momentos, associando-o às guerras. Como refere o Vaticano, “as reflexões evocaram as guerras, os abusos de poder, a violência que humilha a dignidade humana e o sofrimento silencioso de tantas mães e famílias”.

Ao poder volta na 11.ª estação para deixar a reflexão: “Pregado na cruz como um malfeitor, mas com um título que revela a vossa realeza, ó Jesus, mostrais-nos qual é o verdadeiro poder. Não o daquele que pensa poder dispor da vida alheia ao infligir a morte, mas o daquele que realmente pode vencer a morte dando a vida e dar a vida mesmo aceitando a morte. Vós manifestais que o poder autêntico não é o de quem usa a força e a violência para se impor, mas o de quem é capaz de tomar sobre si o mal da humanidade, o nosso, o meu, e anulá-lo com a potência do amor que se manifesta no perdão”, lê-se no texto publicado pelo Vaticano.

E uma invocação especial às mulheres e mães: “Ó Maria, lançai um olhar de ternura sobre cada um de nós, mas sobretudo sobre as muitas, demasiadas mães que ainda hoje, como vós, veem os seus filhos detidos, torturados, condenados, mortos. Lançai um olhar de ternura sobre as mães que são acordadas no meio da noite por uma notícia devastadora, e sobre aquelas que velam no hospital um filho que está a morrer. E a nós, concedei um coração maternal, para compreendermos e partilharmos o sofrimento alheio, e aprendermos, também desta forma, o que significa amar” (4.ª estação).

A lembrança de Simão de Cirene (5.ª estação), que ajudou Jesus a carregar a cruz, leva a outra mensagem: “Ainda hoje, em todas as partes do mundo, muitas pessoas optam por fazer algo de bom pelos outros. Há milhares de voluntários que, em situações extremas, arriscam a vida para socorrer quem precisa de comida, de educação, de cuidados médicos, de justiça. (…) Fazei, Senhor, com que também nós aprendamos a oferecer ao nosso próximo aquele apoio que gostaríamos que nos fosse oferecido, caso nos encontrássemos na mesma situação. Ajudai-nos a ser pessoas empáticas e compassivas, não só com palavras, mas com ações e em verdade.”

“Nunca deveria haver cadáveres não devolvidos e sem sepultura”, ou “cada vez que não reconhecemos a dignidade dos outros, a nossa própria dignidade fica esbatida, e toda a vez que aprovamos ou praticamos um comportamento desumano contra qualquer pessoa, somos nós próprios que nos tornamos menos humanos” são outras mensagens que ficam desta Via Sacra. Pedindo-se “o dom das lágrimas para chorarmos os desastres das guerras, os massacres e genocídios, para chorarmos o cinismo dos tiranos e a nossa indiferença”.

O que compõe a Via Sacra

As 14 estações da Via Sacra:

  1. Jesus é condenado à morte;
  2. Jesus carrega a cruz;
  3. Jesus cai pela primeira vez;
  4. Jesus encontra a sua mãe;
  5. Jesus é ajudado por Cireneu a carregar a cruz;
  6. Verónica enxuga o rosto de Jesus;
  7.  Jesus cai pela segunda vez;
  8.  Jesus encontra as mulheres de Jerusalém;
  9.  Jesus cai pela terceira vez;
  10.  Jesus é despojado das vestes;
  11.  Jesus é pregado na cruz;
  12.  Jesus morre na cruz;
  13. Jesus é retirado da cruz;
  14.  Jesus é sepultado.