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Dostoiévski e a porta estreita

Dostoiévski é um dos grandes conhecedores do Homem nos seus dilemas, nas suas inquietações, no seu desespero ou esperança, na sua oscilação entre Deus e o Demónio, o Bem e o Mal.

Jaime Nogueira Pinto
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O tempo de Páscoa é um tempo marcado pelo Mistério, pelos mistérios da Fé e pela simbologia solene que encerram; um tempo em que nos confrontamos com o essencial despido de tudo, com a morte e a promessa de vida nova, com as nossas escolhas, sempre livres e possíveis, entre o Bem e o Mal, com as nossas fraquezas e pecados, com o mistério deste mundo e dos calvários deste mundo.

Como é que um Deus infinitamente bom e poderoso, que conhece e ama todos os Seus filhos, permite o Mal, ainda que em nome da Liberdade? Esse Mal que devasta a terra dos vivos, que reinou nos Gulags comunistas e nos campos de extermínio do Terceiro Reich, que se precipitou sobre Hiroshima, que mata crianças em Gaza e as trafica na EuroAmérica para pedófilos ricos e poderosos; um Mal que parece uma praga incompreensível, que às vezes toma conta de nós e do mundo, mesmo dos que somos crentes e estamos avisados contra ele. Se há, nesta Terra, mestres em tudo isto, um deles é Fiódor Dostoievski (1821-1881). Com Tolstoi, Dostoievski é um dos grandes conhecedores e problematizadores da natureza humana do século XIX; do Homem nos seus dilemas morais, nas suas inquietações essenciais, no seu desespero ou esperança, na sua tragédia ou redenção, na sua oscilação entre Deus e o Demónio, o Bem e o Mal.

Naqueles anos em que lemos com paixão, como que possuídos, fascinados pela narrativa, foi também nos enredos e nas personagens de Dostoievski, n’Os Irmãos Karamázov, no Crime e Castigo, n’Os Demónios, que achei respostas ou caminhos de resposta para dúvidas e perplexidades viscerais. As primeiras leituras são assim, leituras em que nos deixamos possuir apaixonadamente pela história, pela trama. Mas em Dostoievski há sempre uma ética subjacente à trama, na polifonia de personagens que têm vida própria, realidade, que enfrentam situações concretas, mas que também representam valores, princípios, modos de viver e de estar na vida que implicam quase sempre uma discussão e confrontação filosófica.

Os irmãos Karamázov são três, com três modos de viver e de estar na vida: Dimítri, o mais velho, vive pelos sentidos e pelas paixões e é ousado e violento; Ivan, o do meio, é racional e ateu, com uma costela cínica e voltairiana (Deus não existe, logo, tudo é permitido; mas é bom que “alguns” – os servos, os pobres – acreditem n’Ele, para que se mantenham obedientes e disciplinados); e Aliócha, o mais novo, vive em Cristo e com Cristo. Dostoievski vê em Aliócha, na sua fé e espiritualidade, a salvação da Rússia, entre o reaccionarismo do velho pai, Fiódor, no mundo da servidão e da submissão, e o racionalismo revolucionário e ateu de Ivan.

Acabou também por prever nos seus livros o mal político que viria com os bolcheviques, com Lenine e Estaline: n’Os Demónios, os “demónios” que vêm do Ocidente materialista, nihilista e ateu são representados por Píotr Verkhóvenski, um revolucionário cínico e manipulador, talvez inspirado em Nechaev, que usa o socialismo como utopia para ganhar o apoio popular e legitimar a violência; e por Kiríllov, um “nihilista metafísico”, que potencia e repete obsessivamente a ideia de Ivan Karamázov de que, se Deus não existe, tudo é permitido – acrescentando-lhe que, não existindo Deus, qualquer um pode impôr-se como deus. Alexander Soljenítsin, escrevendo em 1993, confirma este carácter profético da escrita de Dostoievski: “Muitos celebraram o século XX como um século de preclara razão, de modo algum imaginando os horrores canibalísticos que ia trazer. Só Dostoievski, parece, previu a vinda do totalitarismo”.

Contra o deus do dinheiro do capitalismo burguês – o deus do pai Karamázov – e para exorcizar a sua tirania, os bolcheviques criaram, a partir dos textos de Marx e Engels, um sistema tão materialista como o do reino do Capital; um sistema que, em nome da Justiça, do Trabalho e da dignidade do Trabalhador, construiu uma sociedade fechada, tirânica, em que uma burocracia de serventuários e funcionários fanáticos do novo poder governava em nome da Utopia, servindo novos tiranos – Estaline, Mao, Ceausescu, Pol Pot, Enver Hodja, as dinastias comunistas da Coreia do Norte, os cleptocratas do chavismo e das ditaduras comunistas africanas. É claro que no cristianismo ortodoxo de Dostoievski entra também alguma política; ou melhor, alguma geopolítica, principalmente o pan-eslavismo e a hostilidade à Europa Ocidental liberal; uma hostilidade também marcada pela aliança franco-inglesa e italiana com os turcos contra a Rússia, na guerra da Crimeia, que Dostoievski vê como uma traição ao Cristianismo e condena explicitamente no Diário de um Escritor.

Para entender o que opôs, na Rússia, os eslavófilos aos ocidentalistas são importantes os escritos de Vladimir Soloviev, Piotr Chaadáiev e Nicolai Berdiaev sobre a “ideia russa”; uma ideia filiada na “Terceira Roma” de Philoteus de Yelizanov, mas que, acima de tudo, se traduzia naquilo que um crítico resumiu como “um conceito de moral universal sob uma forma patriótica”.

Para Dostoievski e o seu “meta-realismo”, havia uma real oposição e bipolarização entre o cristianismo ortodoxo russo e o ateísmo materialista ocidental, também presente na Rússia do seu tempo.

Nos Irmãos Karamázov, Ivan, racionalista e ateu, sublinha o carácter contraditório do “sofrimento dos inocentes”, da presença do Mal num mundo governado por um Deus bom e todo-poderoso. E é ele que conta a Aliócha a Lenda do Grande Inquisidor: Cristo volta à Terra, onde os homens têm liberdade, liberdade para se salvarem, mas também para se perderem. E é por isso que o Grande Inquisidor julga e condena o filho de Deus: pelo trágico erro de dar aos homens a liberdade que leva ao sofrimento. Ficariam melhor e seriam mais felizes na correcção forçada, obediente, cega e segura. Aliósha não responde e beija o irmão. Como Cristo não responde e perdoa os seus algozes. Nesta Páscoa, que Deus nos guarde da falsa segurança, da correcção amorfa e da felicidade fácil que nos afastam da porta estreita e da única vida que vale a pena viver.

Santa Páscoa.