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(A) :: Rússia lançou campanha de desinformação na Argentina para atacar governo de Milei. Foram gastos quase 250 mil euros em artigos

Rússia lançou campanha de desinformação na Argentina para atacar governo de Milei. Foram gastos quase 250 mil euros em artigos

Documento dos serviços secretos russos, partilhado com consórcio internacional de jornalistas, revela o esquema, que durou vários meses. Presidente argentino diz que é apenas "a ponta do iceberg".

Tiago Caeiro
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A Rússia estará por trás de uma campanha massiva de desinformação na Argentina contra o governo de Javier Milei. Segundo uma investigação de um consórcio internacional de jornalistas, os serviços secretos russos pagaram 283 mil dólares (cerca de 250 mil euros) pela publicação de mais de 250 artigos na imprensa argentina para desacreditar o presidente Milei e o seu governo, numa altura em que Buenos Aires apoiava abertamente a Ucrânia, escreve o jornal Clarín.

A campanha de desinformação começou em abril de 2024 e durou pelo menos seis meses. Incluiu textos de opinião publicados em 23 órgãos de comunicações digitais da Argentina, como o Diario Con Vos, o El Destape, o Diario Registrado ou o Realpolitik.

O consórcio de jornalistas tentou contactar os editores dos órgãos de comunicação onde os artigos foram publicados, mas todos negaram ter participado na campanha russa de desinformação ou recebido dinheiro. Admitiram, no entanto, que os artigos em causa foram enviados por terceiros, como consultores de imprensa, agências, porta-vozes ou intermediários, que produzem conteúdo em forma de colunas de opinião ou artigos independentes. Noutros casos, muitos dos artigos nem sequer tinham autor.

O esquema de desinformação contra o governo de Milei — levado a cabo por uma organização chamada ‘A Companhia’, com ligações à Rússia — está explanado num documento dos serviços secretos russos consultado pelo jornal online sul-africano Continent e partilhado com um consórcio de jornalistas de órgãos que se dedicam ao jornalismo de investigação, e que inclui a openDemocracy (do Reino Unido), Dossier Center e iStories (da Rússia), All Eyes on Wagner e Forbidden Stories (França) e Filtraleaks (Argentina). O documento em causa tem 1.431 páginas.

Alguns dos artigos publicados incluem notícias sobre compras falsas de coleiras Cartier para os cães de Milei, ou colunas escritas por autores inexistentes, produzidos por Inteligência Artificial. É o caso do autor Manuel Godsin, que escreveu um artigo no Diario Con Vos intitulado “Universidades protestam contra os cortes orçamentais de Milei”. No entanto, este autor não existe, sendo que o nome em causa está associado à disseminação de informações pró-Rússia na América Latina.

Segundo a investigação, a campanha russa contra Milei também incluiu pagamentos a influenciadores em várias redes sociais (com as publicações a valerem entre 350 e 2.500 dólares) e ações mais tradicionais, como faixas e graffitis contra o apoio oficial da Argentina à Ucrânia.

Depois de ser tornada pública a investigação do consórcio internacional de jornalistas, a Secretaría de Inteligencia del Estado [os serviços secretos argentinos] confirmou, em comunicado, a existência da campanha de desinformação, revelando que o Tribunal Federal e o Ministério Público foram notificados do caso em outubro de 2025.

https://twitter.com/SIDE_Argentina/status/2039893446681337966?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E2039893446681337966%7Ctwgr%5Ee2c023ca2fc0caa5af05d2a6289c55cc1e1e9f00%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.clarin.com%2Fpolitica%2Frevelan-rusia-financio-campana-desprestigiar-gobierno-javier-milei_0_f4ebK616Js.html

O objetivo era disseminar informações falsas e influenciar a opinião pública argentina para beneficiar interesses geopolíticos estrangeiros. A organização tinha um histórico de envolvimento em operações de interferência internacional e procurava consolidar redes de influência em território nacional”, explicaram os serviços secretos argentinos.

Entretanto, o Presidente da Argentina já reagiu publicamente à investigação, aproveitando para criticar a imprensa, algo que fizera anteriormente em várias ocasiões. “A espionagem que veio à tona tem uma gravidade institucional raramente vista na história. Os ‘jornalistas’ e ‘meios de comunicação’ ligados a isso são apenas a PONTA DO ICEBERG de algo muito maior. Iremos até o fim”, escreveu Javier Milei na rede social X.

https://twitter.com/JMilei/status/2040121468265075176

Após a publicação da investigação, um dos primeiros órgãos de comunicação a manifestar-se foi o C5N, que terá publicado 17 artigos de desinformação contra Milei. O grupo que detém este órgão de comunicação já abriu uma investigação para apurar o que aconteceu.

Já o Infobae (outro dos órgãos visados) apontou um jornalista, Juan Piscetta, como autor dos dois artigos incluídos no documento dos serviços secretos russos.  Piscetta reagiu, negando ter recebido qualquer pagamento pelos artigos. “Nas últimas horas, foram divulgadas informações sobre uma campanha de desinformação russa na imprensa argentina. No caso do Infobae, trata-se de dois artigos que escrevi e assinei, que teriam sido produzidos em troca de pagamentos irrisórios em dólares. Isso é falso“, escreveu no X.

“Reservo-me o direito de não comentar essa investigação. Posso garantir que os artigos são fruto do meu trabalho sobre assuntos nacionais da atualidade, baseado em fontes argentinas e publicado por editores num esforço coletivo”, acrescentou o jornalista. Já Gabriel Morini, diretor do Ámbito Financiero criticou um dos jornalistas que conduziu a investigação, Santiago O’Donnell, e sugeriu que a investigação surgiu, “convenientemente” numa altura em que o governo Milei está a atravessar uma fase difícil. “Da próxima vez, ligue para não cometer tal gafe, convenientemente oportuna para o delicado momento político que o Governo Nacional atravessa. Continuaremos a fazer jornalismo de verdade, que parece ser o que mais os incomoda”, escreveu Morini no X.

https://twitter.com/gabrielmorini/status/2039859719532380458?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E2039859719532380458%7Ctwgr%5Ecb963022af000e50a497c80c502d6a5322dc427e%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.clarin.com%2Fpolitica%2Frevelan-rusia-financio-campana-desprestigiar-gobierno-javier-milei_0_f4ebK616Js.html