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(A) :: A Páscoa e a ressurreição da Igreja em França

A Páscoa e a ressurreição da Igreja em França

Hoje, nas celebrações da vigília pascal, mais de 17.000 jovens franceses serão baptizados.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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Segundo Le Figaro Magazine, de 20 de Fevereiro de 2026, “pelo quarto ano consecutivo, os pedidos de Baptismo de adolescentes e jovens adultos multiplicam-se. Mais de 17.000 jovens, iluminados pela luz de um círio, passarão a ser católicos na vigília pascal, no […]dia 4 de Abril.”

A propósito de uma tão intrigante e surpreendente novidade, ausente, por razões óbvias, dos nossos jornais, rádios e televisões, a jornalista Guyonne de Montjou começa por se referir a Quentin Deranque que, pelo mesmo motivo, é desconhecido no nosso país. Trata-se de um jovem católico, de 23 anos, que, no passado 14 de Fevereiro, foi brutalmente assassinado por um grupo de terroristas de extrema-esquerda, a Jeune Garde, que o encurralou e linchou em Lyon. Claro que, sendo cristão e conservador, foi logo considerado, numa tentativa de desculpar os seus assassinos e de legitimar o crime, fascista e neonazi, epítetos que o Le Figaro Magazine, que pratica um jornalismo de qualidade, não lhe atribui. Um atentado decerto muito semelhante ao perpetrado na última Marcha pela Vida, em Lisboa, em que também um activista da extrema-esquerda tentou incendiar pessoas inocentes, nomeadamente crianças, por alegado ódio à vida e à liberdade de expressão.

O assassinato de Quentin Deranque recorda as violentas perseguições contra os cristãos, sofridas não apenas nos primórdios do Cristianismo – a Igreja só foi tolerada pelo império romano em 313, graças ao édito de Milão, depois de três séculos de perseguições e milhares de mártires –, mas também por ocasião das revoluções francesa e russa, bem como dos regimes nazis e comunistas, islâmicos radicais e laicistas.

Quentin era, se se permite a expressão, um cristão-novo, como tantos milhares de jovens franceses que, mesmo nascidos em famílias tradicionalmente cristãs, só tardiamente se converteram. Com efeito, este jovem estudante da Faculdade de Matemática tinha-se recentemente convertido ao catolicismo e, desde então, frequentava assiduamente a igreja de Saint-Georges, em Lyon.

“Habituado a rezar na mesma comunidade em que o fazia [Deranque,] aquele jovem que foi linchado até à morte, outro jovem tenta descrevê-lo: ‘Eu recordo o Quentin como uma pessoa feliz, que tinha necessidade de partilhar a sua fé’ recente, depois de se ter ‘convertido ao catolicismo e ter transmitido a fé ao seu pai’.” Um processo que parece ser o contraciclo do movimento de Maio de 68: os filhos e netos dos que então se afastaram do Cristianismo são os que agora encontram, na Igreja católica, o sentido profundo da sua existência e liberdade.

Guyonne de Montjou questiona a razão pela qual tantos jovens franceses, como Deranque, não obstante uma educação laica, procuram a Igreja católica: “com 23 anos, Quentin foi seduzido pela liturgia tradicional, atraído pelo odor do incenso, a penumbra da igreja, o seu silêncio, as vozes do coro paroquial de que era membro, ou a pregação de um padre? Ou tudo isto, ao mesmo tempo?”. O Padre Paul Legavre, jesuíta, não se fica por estas circunstâncias, certamente relevantes, mas acidentais, e arrisca uma explicação mais profunda e consistente: “é preciso notar que, no imenso deserto da vida espiritual da nossa época, há quem constate nos seus colegas de trabalho, nos seus amigos cristãos, vivências que não conhecem. Isso, que começa por os intrigar, leva-os a não estarem tão centrados em si próprios e fazerem um esforço por compreender esse fenómeno. Deus não deixa nunca de trabalhar e de nos surpreender. É magnífico!”

A opinião do Padre Antoine Laviale, um jovem presbítero de 33 anos que não desdenha o uso habitual do traje clerical e que trabalha numa paróquia de Toulouse muito frequentada por liceais e universitários, corrobora a tese do referido religioso: é a falta de um sentido profundo para a vida e a correspondente desorientação que leva os jovens actuais a procurarem a Igreja. “Muitos – confessa – asseguram-me que foi aqui, na nossa igreja, que encontraram, pela primeira vez, a possibilidade de estabelecerem relações verdadeiras, de autêntica amizade, calorosas e desinteressadas, que eles nunca tinham tido nas suas vidas.” Na sua paróquia, 200 adultos estão em preparação para a recepção dos sacramentos da iniciação cristã – Baptismo, Confirmação e Eucaristia –, que lhes serão administrados hoje à noite, na Vigília Pascal, a mais importante celebração do ano litúrgico.

“Por que razão um empresário de discotecas, um empregado de um banco, um professor, um ‘influencer’, ou um jogador profissional de futebol decidem converter-se ao Cristianismo, por vezes na sua versão mais rigorosa e tradicional?” À questão, formulada por Guyonne de Montjou, responde Guillaume Cuchet, professor da Universidade da Sorbonne: “Muitas vezes é por ocasião de uma circunstância ocasional, a morte de uma pessoa próxima, ou de um baptismo, que um não-crente se interroga sobre o sentido da vida e da morte e percebe que não lhe satisfazem as respostas do mundo sem Deus”. Há, portanto, uma procura de autenticidade, uma fuga à superficialidade de uma existência fútil.

Não se pense, contudo, que basta ter um mero desejo de ser cristão, ou a simples vontade de pertencer a uma comunidade de crentes. Tal como acontecia nos primeiros séculos do Cristianismo, também agora a Igreja propõe um caminho de formação de um ou dois anos aos candidatos ao Baptismo – o catecumenado – não apenas para que possam conhecer a fé que devem professar, mas também para que, progressivamente, aprendam a viver de acordo com a moral cristã. Esta aprendizagem é também um caminho de esclarecimento e uma prova à consistência do seu propósito de conversão: só os que perseveram neste caminho de formação e vivência gradual do Cristianismo são admitidos na Igreja. Neste sentido, o discernimento da vocação cristã é feito por essa dupla via: a da formação catequética e a da vivência cristã, comunitária e individual.

Apesar dos que reclamam uma modernização da doutrina da Igreja, os que, de livre vontade, pedem o Baptismo não têm dificuldade em aceitar as exigências da fé católica. Segundo Charles Mercier, Professor de História Contemporânea na Universidade de Bordéus, “os jovens, ao mesmo tempo que manifestam capacidade de traduzir em formas contemporâneas a mensagem cristã, expressam também um gosto especial pela liturgia e uma ortodoxia doutrinal bastante firme.”

Graças a Deus, abundam as conversões de jovens adultos para a fé cristã nas instituições da Igreja que apostam na relação pessoal com Cristo, verdadeiro Deus e homem verdadeiro, através de uma intensa vida espiritual, uma liturgia cuidada e uma doutrina teológica ortodoxa. E a novidade de uma tal novidade é que não é novidade nenhuma.