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Um pai alienado: quando procurar a filha se torna crime (V)

Neste texto, damos continuidade à história de Artur, um pai alienado, que temos vindo a acompanhar ao longo das últimas semanas.

Eva Delgado-Martins
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Tal como nos artigos anteriores, seguimos, passo a passo, as diferentes etapas da sua experiência. O percurso que aqui se descreve permite compreender, de forma próxima, a realidade de um pai que tenta reconstruir a relação com a filha após um afastamento prolongado. Ao longo deste caminho surgem obstáculos institucionais, conflitos familiares e um forte desgaste emocional. Pela intensidade dos acontecimentos e pela sua repetição ao longo do tempo, este testemunho revela padrões comuns a outras situações de alienação parental, onde a relação entre um pai/mãe e um filha/o se vai fragilizando progressivamente, sendo muitas vezes interrompida.

Artur descreveu que aquilo que encontrou quando tentou voltar à vida da filha, não foi um reencontro, mas uma recusa: “Quando tentei aproximar-me dela, a minha filha dizia que não queria estar comigo…”, revelando uma rutura emocional já profunda. A recusa da filha alienada não surgiu de forma isolada, mas como resultado de um afastamento que se foi construindo ao longo do tempo. Para um pai alienado, ouvir estas palavras significa perder não apenas o contacto, mas também o lugar afetivo na vida da filha. É o início de uma dor que vai muito além da ausência física.

Este sentimento perdurou e, mais tarde, mesmo tendo tido a oportunidade de  se encontrar com a própria filha, não foi capaz de tomar essa iniciativa: “Durante algum tempo, não sabíamos onde estava a minha filha. Num desses dias, eu e a Dra. Eva fomos a Peniche. Ao passarmos perto de um escritório que eu tinha na altura, vimos a Matilde a entrar na CPCJ. Foi um momento inesperado. A Dra. Eva ainda sugeriu que entrássemos, mas eu estava muito nervoso, inseguro, não me senti capaz, e acabámos por não entrar”. Neste testemunho, observa-se o impacto emocional do afastamento prolongado. Mesmo quando surgiu uma oportunidade de aproximação, o medo paralisou o Artur. A insegurança imperou e o sofrimento bloqueou a ação. O pai viu a filha, mas não conseguiu dar o passo seguinte para se aproximar dela.

Na procura de respostas, o Artur dirigiu-se a instituições que deveriam, à partida, constituir-se como espaços de apoio: “Na procura de saber onde estava a minha filha, cheguei a ir a um ATL onde me tinham dito que ela poderia estar. Quando lá fui, muito nervoso, a pessoa que me atendeu percebeu que eu era o pai, mas não me deu qualquer informação (…) A escola também não deu qualquer informação e acabou por comunicar a situação à mãe”. Este momento, revela um sentimento de exclusão profundo. O pai procurou informação básica sobre a filha e encontrou as “portas fechadas”. Não foi ouvido, não foi reconhecido, não foi incluído. Em vez de apoio, encontrou o silêncio que o afastou ainda mais.

Com a acumulação das tentativas de contacto, surgiram consequências inesperadas e graves: “Na procura da minha filha, passei por vários locais, como o ATL e a escola, tentando obter alguma informação. Isso levou a que, algum tempo depois, talvez cerca de um mês, recebesse a GNR em casa… fui acusado do crime de rapto, na forma tentada”. Este foi um dos momentos mais duros do seu percurso. Aquilo que nasceu de um gesto de pai, o de procurar a filha, transformou-se numa acusação criminal. O impacto emocional foi enorme, além da perda da relação, surgiu então o peso da suspeita na justiça.

Apesar de tudo, sucedeu um momento de reencontro: “Fomos a tribunal e o juiz decidiu que a Matilde viria passar alguns dias connosco. A mãe deixou-a à porta de casa e foi embora. Foi assim que passámos aquele Natal juntos”. Este momento trouxe alguma esperança. Mesmo que breve, o reencontro representou uma possibilidade de reconstrução. É um pequeno espaço de normalidade num percurso marcado pelo conflito e o afastamento.

Um conflito que, apesar da reaproximação, se manteve presente no dia a dia: “Eu telefonava e isso dava origem a uma queixa-crime por importunação. Cheguei a ter 17 processos-crime ao mesmo tempo, além do processo por sequestro, todos em simultâneo. Foram 17 naquela altura. Apesar disso, o processo foi avançando. Em 2015, a técnica já começava a reconhecer alguma evolução na situação”. Neste testemunho pode observar-se o efeito do peso acumulado do conflito. Cada tentativa de contacto transformou-se num risco. O pai viveu sob pressão constante, entre o desejo de estar presente e o medo das consequências legais. Ainda assim, começou a surgir uma pequena evolução, um sinal de que a relação podia, lentamente, ser reconstruída.

Num gesto profundamente simbólico, Artur tentou reconstruir um espaço para a filha: “No Natal de 2015 houve algumas alterações nas visitas, mas a mãe também acabou por não cumprir. No Ano Novo de 2016 consegui ver a minha filha, mas ela ainda não pernoitava em minha casa. A mãe dizia que a Adriana não gostava do quarto. Dizia que o quarto não era adequado, que não era como devia ser. Eu sabia exatamente como era o quarto que ela tinha quando vivíamos juntos, lembrava-me da cama, da mobília, de todos os detalhes, até porque muitas das coisas tinham sido oferecidas pelos meus pais. Então fui à mesma loja e comprei tudo de novo, igual. Pintei as paredes com a mesma cor, montei o quarto da mesma forma, recriei aquele espaço o mais fielmente possível. Quis dar-lhe o mesmo conforto, para que sentisse que também ali era o seu lugar”. Esta passagem ilustra algo muito profundo: não era apenas um quarto que estava a ser reconstruído, mas sobretudo um vínculo. Foi a tentativa de dizer à filha: “aqui também é a tua casa”, um gesto de cuidado, de memória e de pertença.

Por fim, Artur resumiu aquilo que foi vivendo ao longo de todo o processo: “E tudo foi caminhando sempre no mesmo sentido: desvalorizar a imagem do pai. Era sempre a mesma mensagem, o pai é mau, é perigoso, pode levar a filha e nunca mais a trazer. Havia uma tentativa constante de afastamento e de medo”. Este último testemunho revela o padrão contínuo de afastamento inerente a situações semelhantes de alienação. A repetição destas mensagens cria o medo, a dúvida e a distância emocional na criança alienada. E, pouco a pouco, o pai alienado deixa de ser apenas alguém ausente, passa a ser alguém de quem a criança se afasta.

O conjunto de testemunhos de Artur, um pai alienado, mostra como, em situações de alienação parental, a dor não nasce de um único momento, mas da repetição contínua de pequenas ruturas ao longo do tempo. Cada episódio aprofunda a distância, aumenta a incompreensão e intensifica o sofrimento. Ainda assim, há algo que permanece, mesmo perante obstáculos, acusações e afastamento. O desejo de ser pai., mantém-se firme, persistente e resistente, como uma ligação que, apesar de tudo, não se quebra.