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(A) :: Mulher e filha de autarca italiano sentiram-se mal depois de um almoço de Natal e morreram. Afinal, foram envenenadas

Mulher e filha de autarca italiano sentiram-se mal depois de um almoço de Natal e morreram. Afinal, foram envenenadas

Três meses após as mortes, os exames revelaram ricina — um dos venenos mais letais do mundo — nos corpos das duas vítimas. O que era tratado como negligência médica passa agora a duplo homicídio.

Sâmia Fiates
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A mulher e a filha de um autarca italiano, que até há poucos dias acreditava-se terem morrido por uma intoxicação alimentar, foram, na verdade, envenenadas, revelou o exame toxicológico concluído recentemente, três meses depois da morte. De acordo com a agência Ansa, o Ministério Público da comuna de Larino, no sul da Itália, abriu uma investigação por duplo homicídio. Com a descoberta, o caso sofre uma reviravolta: cinco médicos estavam a ser investigados por negligência, mas agora a polícia passa a procurar suspeitos de premeditar os assassinatos.

Antonella Di Jelsi, de 50 anos, e Sara Di Vita, de 15 anos, a mulher e a uma das filhas de Gianni Di Vita, de 55 anos, que foi presidente da câmara de Pietracatella, uma pequena cidade com 1600 habitantes, morreram a 26 de dezembro de 2026. Três dias antes, a família sentiu-se mal após o almoço e procurou atendimento no hospital de Campobasso, a capital da província. Os médicos identificaram sintomas similares a uma intoxicação alimentar causada pelo consumo de peixe ou cogumelos infetados e deram alta a todos os membros da família. Gianni Di Vita recuperou, mas Antonella e Sara voltaram ao hospital várias vezes entre 24 e 26 de dezembro.

De acordo com o médico intensivista Vicenzo Cuzzone, chefe do serviço no hospital de Campobasso, em declarações citadas pela BBC, primeiro registou-se uma insuficiência hepática, seguida da insuficiência múltipla dos órgãos, “numa velocidade sem precedentes“. As mortes estavam a ser tratadas pela polícia como dois casos de negligência médica e os cinco médicos que atenderam a família foram colocados sob investigação.

As autópsias realizadas a 31 de dezembro não ofereceram muitas pistas do que causou a morte das duas mulheres. Contudo, os exames toxicológicos submetidos a laboratórios na Itália e na Suíça nos últimos três meses detetaram nos corpos a presença de ricina, uma proteína presente nas sementes da mamona e uma das toxinas de origem vegetal mais letais do mundo.

Ao jornal italiano La Repubblica, o farmacologista Gianni Sava, explica que é preciso muito pouco para gerar efeitos potentes. “Para matar um homem de 70 kg, bastam 14 miligramas de ricina. É um dos venenos mais potentes que existem na natureza“, diz o especialista, que afirma ainda que é também uma substância “difícil de obter. Requer processos químicos muito perigosos e complexos. E se inalada, pode ser fatal”. O

veneno ficou famoso na cultura popular por ter sido produzido em casa pelo protagonista da série Breaking Bad, Walter White, que na história preferia este método por resultar num pó sem odor ou gosto, o que torna a sua deteção mais difícil.

Resta agora saber quem terá planeado incluir o pó tóxico no almoço de véspera de Natal da família. Gianni Di Vita é bastante conhecido na região. Foi autarca e tesoureiro regional do Partido Democrático, o bloco de centro-esquerda que atualmente se opõe à coligação de direita de Giorgia Meloni. Antonio Tomassone, o atual presidente da câmara de Pietracatella, disse, citado pelo Telegraph: “Tudo isso é muito estranho. Estamos todos oferecendo nosso apoio.”