Aliada incontornável de Donald Trump desde que este venceu as eleição de 2016, Pam Bondi permaneceu ao lado do Presidente também quando o milionário republicano perdeu a corrida presidencial em 2020 e até mesmo no processo que o poderia impedir de voltar a concorrer à presidência norte-americana. Deixa agora a posição que assumiu em fevereiro de 2025 na administração. Donald Trump confirmou esta quinta-feira a demissão de Pam Bondi do cargo de procuradora-geral dos Estados Unidos. Numa publicação na Truth Social, o Presidente norte-americano deixa elogios à atuação de Bondi, afirmando que é “uma grande patriota” e chamando-a “amiga leal”. “Pam fez um trabalho excecional a supervisionar uma repressão massiva ao crime em todo o país, com os homicídios a cair para o nível mais baixo desde 1900”, assinalou Trump, que escreveu mesmo: “Amamos Pam”.
Contudo, os rumores do afastamento começaram a circular horas antes em órgãos de comunicação social norte-americanos como o New York Times, a CNN e a CBS. O Presidente norte-americano terá mesmo falado pessoalmente com Bondi na passada quarta-feira, a antecipar a possibilidade — uma demissão que, cita imprensa norte-americana, estará relacionada com a frustração de Trump com dois temas em particular: a atuação de Bondi no caso Epstein e os poucos adversários políticos a serem formalmente acusados.
https://observador.pt/2026/04/02/trump-demite-a-procuradora-geral-pam-bondi/
Desconfianças no caso Epstein
A forma como Pam Bondi lidou com com a divulgação dos ficheiros do caso Epstein nos últimos meses tem sido alvo de críticas tanto pela oposição como por aliados da administração Trump. Em fevereiro de 2025, a então procuradora-geral disse numa entrevista à Fox News que uma lista de clientes de Epstein estava na sua “secretária agora para ser revista”, mas meses depois, o Departamento de Justiça norte-americano afirmou que tal lista não existia. Na altura a então procuradora-geral até organizou um evento para influencers conservadores onde distribuiu alguns ficheiros. No entanto, os documentos distribuídos nesse encontro já eram conhecidos de antemão. Mais tarde, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, tentou voltar atrás, e afirmou que Bondi referia-se a toda a documentação relacionada com o caso e não a uma lista específica, recorda a CNN. A procuradora-geral também afirmou várias vezes que havia “milhares de vídeos” de Epstein “com crianças ou com pornografia infantil”, mas meses depois o diretor do FBI, Kash Patel, rejeitou a afirmação, dizendo que não havia vídeos de pessoas a cometerem crimes nas ilhas de Epstein, numa entrevista ao podcast de Joe Rogan.
Ao longo do ano, cresceu a pressão entre os deputados democratas e republicanos — incluindo membros influentes do movimento MAGA — para que os ficheiros fossem divulgados e o facto da publicação ter sido atrasada ou negada tantas vezes gerou alguma frustração. Em novembro de 2025, quando anunciou que divulgaria todos os ficheiros restantes do caso, de acordo com a decisão aprovada pelo Congresso norte-americano, fugiu às perguntas dos jornalistas sobre se as investigações a figuras democratas poderia impedir que parte dos documentos se tornasse pública. Já entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, após milhões de ficheiros ficaram disponíveis, vários documentos foram posteriormente removidos da plataforma, o que gerou dúvidas sobre se esta poderia ser uma ação para encobrir o alegado envolvimento de Donald Trump. Uma investigação da NPR divulgada em fevereiro chegou mesmo a descobrir que dezenas de páginas de uma denúncia ao agora Presidente foram ocultadas.
Em fevereiro, Bondi compareceu voluntariamente perante o Congresso para responder a questões acerca do caso, numa audiência que ficou marcada pelas várias discussões com deputados democratas. Em determinado momento, ao ser pressionada pela representante de Washington, Pramila Jaypal, para que se desculpasse com as vítimas de Epstein que assistiam à sessão, Pam Bondi recusou-se a virar e disse: “Não vou entrar no jogo sujo com essas mulheres. Estão a fazer teatro.” A antiga procuradora-geral deve regressar ao Comité de Supervisão e Reforma Governamental, dessa vez intimada, a 16 de abril, apesar do presidente do comité, o republicano James Comer, afirmar que já não vê necessidade de Bondi depor sob juramento.
Falhas em conseguir acusações a adversários políticos
De acordo com a imprensa norte-americana, Donald Trump também estaria frustrado com as poucas acusações e detenções de adversários políticos, apesar das muitas investigações criminais abertas até à data. No começo de março, um juiz federal norte-americano anulou uma ação judicial interposta pelo governo contra o presidente da Reserva Federal (Fed), Jerome Powell, a quem o Presidente Donald Trump tem feito sucessivos ataques, incluindo pessoais. “O governo não apresentou qualquer prova de que o Sr. Powell tenha cometido qualquer crime para além de desagradar ao Presidente”, escreveu o juiz na decisão.
A CBS News cita, por exemplo, as acusações contra o ex-director do FBI James Comey e a procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James (duas figuras críticas da administração Trump); ou as acusações contra o senador democrata Adam Schiff, o deputado democrata Eric Swalwell e a membro do Conselho da Reserva Federal, Lisa Cook, que Trump tentou demitir em agosto de 2025. Decorrem ainda esforços para processar a ex-assessora da Casa Branca Cassidy Hutchinson e o ex-diretor da CIA John Brennan, um caso em que Bondi esteve envolvida até ao último momento.
A investigação a Brennan analisa se o ex-diretor da CIA fez declarações falsas ao Congresso a propósito de uma avaliação dos serviços secretos sobre a interferência russa nas eleições de 2016. Os procuradores de Miami disseram aos funcionários do Departamento de Justiça que não consideram o caso sólido, mas ainda estão a trabalhar para possíveis acusações no tribunal federal de Washington, avança a CNN. Na passada quarta-feira a então procuradora-geral convocou o procurador-chefe em Miami, responsável pela investigação, para discutir o progresso do processo e a sua convicção de que a investigação estava a ser conduzida de forma lenta, diz uma fonte à estação norte-americana, uma ação que foi vista como uma tentativa de demonstrar que estava a conduzir investigações que são uma prioridade para o Presidente.