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(A) :: O que é uma morte digna?

O que é uma morte digna?

Será que a vida realmente só nos pertence a nós? O direito de dispor de si mesmo será assim tão radical?

P. João Basto
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Hoje é Sexta-Feira Santa. Para os cristãos, é dia de memória da morte de Jesus. Na semana passada, no entanto, foi a morte de uma jovem espanhola, por recurso à eutanásia, que nos interpelou. A ela e aos seus, independentemente das nossas convicções, não podemos senão dizer: que descanse em paz. Qualquer aproximação a este tema só pode começar por uma reverência profunda pelos que sofrem, incluído por aqueles que tomam decisões que, em princípio, não seriam as nossas. No entanto, este momento reabre a pergunta: o que é uma morte digna?

A dignidade não está na autossuficiência. Nenhuma vida vale mais do que outra. Nenhuma vida vale menos. A vida dos fracos vale tanto como a dos fortes. A vida dos pobres vale tanto como a dos poderosos. Neste sentido, nenhuma vida e nenhum ser humano são ilegais, mesmo vivendo numa situação de ilegalidade. A vida de um criminoso, vale tanto como a de um justo. Se assim é, será justo conceber que algo, por mais doloroso que seja, pode tornar a vida relativa? Se a vida tem um valor radical, se ela não pode estar sujeita, por exemplo, às oscilações do mercado ou da meritocracia, não será incoerente reconhecer que, em determinadas circunstâncias, essa mesma vida pode cessar?

Não somos deuses. Mas a nossa vida é sagrada, mesmo que acreditemos que ela surgiu do acaso. Por isso, os bens, o tempo ou as dívidas são alienáveis, mas a vida e a liberdade, na sua essência, não o são. O próprio John Stuart Mill, recorrendo ao exemplo de um homem imaginário que, livremente, optara pela escravatura, escreveu: “O princípio da liberdade não pode exigir que ele seja livre para não ser livre. Não é liberdade poder alienar a sua liberdade”.

Mas há outras perguntas que podem ser feitas. Se há doenças incuráveis, haverá, realmente, doenças e pessoas incuidáveis? Será que a vida realmente só nos pertence a nós? O direito de dispor de si mesmo será assim tão radical? Dizer “que a vida é minha, e faço com ela o que eu quiser” não será um grito de solidão profunda em vez de um verdadeiro exercício de liberdade? Se o direito à liberdade de expressão comporta um risco e um custo – uma espécie de ângulo morto – não terá, também, o direito à vida um custo e um risco? Se a nossa sociedade valoriza apenas a produtividade e a independência, não correremos o risco de que o direito a morrer se torne, para os mais frágeis, num silencioso dever de morrer para não serem um fardo?

Existe, neste contexto, uma perspetiva que me persegue há muito: a vida é sempre comemorável e partilhável, independentemente das circunstâncias. Um autor que exprime isso de maneira inquietantemente clara é Raymond Carver. Seja quando o nosso filho morre vítima de um atropelamento, como em A Small, Good Thing, seja quando esvaziamos a nossa casa depois da nossa mulher nos deixar, como em Why Don’t You Dance?. Uma morte digna não é, por isso, necessariamente, o fim da dor, mas o momento em que a vida, amparada pelos outros, se confirma como o nosso bem mais absoluto.

Toda a ressurreição exige uma morte. Mas nem a todas as mortes se segue uma ressurreição. Por isso, uma morte digna é aquela que possibilita a Ressurreição, ou seja, uma travessia e um encontro onde as feridas se tornam impassibilidade, claridade, subtileza e agilidade. Habituados que estamos a pensar, até no léxico religioso, a Ressurreição como a eliminação das cicatrizes, imaginamos que uma morte digna deveria seguir o mesmo paradigma. Mas a Ressurreição, como tudo o que é verdadeiro na nossa vida, não é a resposta para as nossas expectativas, mas a subversão das nossas respostas. A Ressurreição, uma morte digna por consequência, não omite nem traumas, nem chagas. Pelo contrário. Tornam essas mesmas chagas e nesses mesmos traumas, os elementos que permitem reconhecer quem somos.