Pegando em fenómenos de massas dentro da música, a televisão ou o cinema, Sophie Gilbert mostra a misoginia como fenómeno transversal. Dando um exemplo atrás de outro, pondo uma citação a seguir à outra, o leitor espanta-se com a forma como, aqui e ali, e sem grandes disfarces, as mulheres parecem ter sido eleitas inimigo público número 1. Valorizadas pelos corpos – e muitas vezes humilhadas por eles – e alvos de tanto ódio no masculino, aparecem como vítimas de uma violência sistémica que tem sido cooptada para o lucro das indústrias mencionadas. Em tanta dessa arte, aparecem como corpos, como tontas, como objectos, como público-alvo em determinado comércio, mas raramente como gente de pleno direito. Escrever sobre Girl on Girl a quente implica ter frescas as centenas de exemplos dados por Sophie Gilbert, que certamente ficarão durante muito tempo a bater como pancada.
A autora pega, convém dizer, em muitas das referências com que se cresceu nos anos 1990 e 2000. De fenómenos como Eminem – que, sob o escudo do pseudónimo de Slim Shady, se permitia fantasiar com a ideia de matar ou violar uma mulher – ou Carrie Bradshaw, que representa um pós-feminismo de um consumismo desenfreado, passando por letras sexualmente explícitas e humilhantes de grupos como os 2 Livre Crew, temos nestes fenómenos de massas um estado do mundo. E, sobretudo, temos tudo isto nos phones dos adolescentes que serão homens depois. Vários estudos contemporâneos mostram ainda que a gen-z e os millennials têm estado muito inclinados para ideias conservadoras, e os fenómenos dos incels grassam cada vez mais. Surgiram influenciadores masculinos que tentam inculcar nas cabeças dos jovens a ideia de que têm (note-se o verbo) de ter uma mulher (ou várias) que os sirva e os valide, e que nunca tenha tocado em mais ninguém. Eles, por sua vez, já devem ter rodado muito. E com isto atinge-se este nirvana: é criada a fantasia de que haverá uma minoria de homens, de que o pretenso influenciado fará parte, que poderá tocar na maioria das mulheres, e com isso conseguirá o éden – a mulher em quem nunca ninguém tocou e que ficou santamente à espera de que aparecesse este homem desejado (só nesta fantasia masculina), experiente, mais do que os outros – melhor, portanto.
Ora, tudo isto anda de braço dado. Como Gilbert refere em vários pontos do livro, há uma ideia de amor que existe somente entre homens, mesmo os heterossexuais. As mulheres aparecem como satisfação de uma orientação ou pulsão, mas não chegam a ser tratadas como gente – a merecer amor. Em fóruns de incels, os termos com que os rapazes se referem a mulheres não são apenas depreciativos: são ofensivos e degradantes. São os homens formados numa cultura sexista a preto e branco que influenciam estes novos rapazes, dentro do universo a que se convencionou chamar manosfera – a esfera dos manos. Este manos é uma forma dócil de dizermos que “bros before hoes”.

Ao mesmo tempo, a autora foca-se na forma como parte do discurso feminista dos anos 90 acabou por ser absorvido pelas mesmas estruturas que pretendia criticar. Essa ideia, aliás, acaba por dar título ao livro, e por viver na ideia de as mulheres se poderem pôr umas contra as outras, isto num cenário em que certos ideais de liberdade e autonomia, ao serem postos em prática, foram reconfigurados de uma forma individualista e mercantil, estando essa mercantilização ao serviço da ideia de objectificação. Com a popularização de um feminismo mais mediático, a narrativa do empoderamento ganhou espaço, e a ideia da escolha individual ficou no centro de tudo, inclusive a performatividade de certa feminilidade, vista como expressão de liberdade. Perante este cenário, Gilbert sugere que há aqui uma tendência para esvaziar a dimensão estrutural da desigualdade: se tudo é escolha, então nada existe fora da responsabilidade individual.
Enquanto se lê o livro, entende-se que a misoginia na cultura massificada é não apenas reflexo da sociedade mas também motor activo da sua reprodução. Com a evolução tecnológica, a capacidade de viralizar conteúdos serviu para fomentar a exposição de corpos de mulheres contra a vontade (o caso da Pamela Anderson é particularmente emblemático: não apenas vídeos seus foram roubados como, após o processo, lhe foi dito pelo próprio advogado que não havia qualquer questão legal, uma vez que ela tinha posado para a Playboy – que é como quem diz o seu corpo e qualquer acto seu passou a ser direito do público e que ela perdeu o direito ao consentimento), como serviu para massificar estereótipos. O caso de Gisèle Pelicot é também um bom exemplo, de tão horrendo: drogada e violada pelo marido ao longo de uma década, foi ainda violada por pelo menos 72 homens, e as pontes de contacto entre os violadores eram fóruns online que serviam para que se partilhasse a perfídia e o olhar degradante sobre as mulheres. Ora, Gilbert mostra que a cultura não é apenas um espelho, mas uma máquina de amplificação e de acção – não mostra o que se é, mostra o que se quer, e influencia-se, incentivando-se outros. A cultura pop não se limita ao realismo, à mera representação do mundo. Em vez disso, molda-o, normaliza comportamentos, cria expectativas e, sobretudo, educa emocionalmente, funcionando como forma mais discreta, ou pelo menos menos declarada, de influencing.
O livro de Gilbert é relevante em parte por elencar de tal forma que é impossível não ver. Durante décadas, discutiu-se o impacto da violência explícita na cultura – no cinema, nos videojogos, na televisão –, mas deu-se menos atenção à forma como a misoginia subtil, repetida e banalizada se infiltrava no quotidiano. Pegando em American Pie, um bom exemplo: a parte em que rapazes filmam uma mulher despir-se sem que ela saiba, e acabam por transmitir o vídeo para toda a escola, e um deles acaba por ir lá ter com ela. Não só não há consequências para nenhum, como a humilhação desse rapaz, que tem duas ejaculações precoces à frente da escola inteira, basta como penitência – de resto, tudo é entretenimento, e a mulher em causa é reduzida à sua condição de corpo. Quanto ao homem, a humilhação consiste apenas em não mostrar que é bom na cama. Ora, tudo isto vai mostrando, e fazendo penetrar, uma linguagem emocional inteira que ensina o que é desejável, o que é aceitável e, mais pesado ainda, o que é risível. No caso da violação da privacidade da mulher, e a larga escala, tudo é apresentado como mero ruído de fundo – e assiste-se à repetição do “boys will be boys” como se os “boys” não pudessem ter consciência e tratar as mulheres como seres – intelectuais, emocionais, sociais – ao mesmo nível.
Num livro impressionante, bem calibrado, de quem estudou e concatenou, Gilbert mostra de que forma, ao longos dos anos, muitas destas representações foram sendo absorvidas como uma espécie de ironia protectora. No caso das masculinidades contemporâneas representadas no âmbito da manosfera, percebemos que as mulheres reais nunca passam de meras representações. Mesmo na cultura, a ideia de que se fazia uma piada ou que se brincava com um arquétipo ou que os enredos não passavam de provocações artísticas funcionou como escudo para conteúdos que, fora desse enquadramento, dessa distância, seria logo reconhecido como violentos.
O caso de Eminem é evidente: bastou-lhe escudar-se noutro nome, num pseudónimo, num heterónimo, num meta-rapper, para se distanciar do conteúdo produzido. Ou seja, pôde fazê-lo e disseminá-lo ao mesmo tempo que afastar-se, quando lhe fosse conveniente, do significado e do sentido. E a ideia da ironia serviu demasiadas vezes para desactivar a crítica, deslocando a responsabilidade para quem se defende ou para quem aponta o dedo – demasiado sensível, incapaz de perceber a graça, desfasado do espírito dos tempos, demasiado lápis azul. Mas o que Gilbert sugere, e que o leitor dificilmente consegue ignorar, é que essa ironia não só nunca foi neutra como nunca foi igualmente distribuída. Demasiadas vezes – não podendo isto, por isso, ser ignorado –, as mulheres foram escolhidas como saco onde se despeja a raiva e o ressentimento.
Isto, novamente, alia-se à contemporaneidade: vemos os fóruns online pejados de rapazes que julgam que deviam ter direito ao El-dorado e que este lhes é negado pelas mulheres, que para mais passam como sendo as detentoras do poder – são elas que podem ou não oferecer-lhes sexo e, por isso, validação. Ora, nessas narrativas extremistas, a verdade é que não passa ao lado a ideia disseminada de que o sexo, quando não oferecido, pode ser roubado. A prova maior disso será Andrew Tate, o ídolo da manosfera, criminoso misógino, violador, traficante de mulheres, explorador sexual, perpetrador de prostituição forçada. Uma jóia de moço, portanto. E uma jóia de moço que ganhou fama mundial disseminando as ideias de que a culpa da violação é em parte das mulheres (por se colocarem em situações em que isso é possível), de que as mulheres são propriedade do homem, de que só delas é esperada fidelidade. E ainda demonstrou preferência sexual por adolescentes, supondo-as menos experientes.

Nisto, vê-se que a misoginia per se funciona como produto económico, indo além da mera expressão cultural. A objectificação e a apologia à submissão, ao identificarem um alvo, voltam-se para o lucro. A polémica inerente estimula-o. Nisto, as indústrias culturais, que não são meros intermediários, transformam-se em agentes activos da manutenção destes papéis, já que servem como fonte de valor. Portanto, não só a provocação vende, como a humilhação vende ainda mais.
Girl on Girl traz a cena a evidência com que a misoginia se normalizou. Ao pegar em fenómenos de massas aparentemente inócuos, mostra cenários, narrativas e personagens misóginas de forma persistente, tornando-os no que está disponível para o público, quase como pano de fundo.
Num contexto em que se fala cada vez mais sobre polarização, regressão de direitos e de uma reconfiguração das relações de género, assim como o surgimento organizado da violência verbal online, Girl on Girl oferece um enquadramento que ajuda a ligar pontos: estes últimos, ao invés de serem um fenómeno isolado, aparecem interligados com linhas de pensamento que vêm de trás, estruturadas e estruturais, que, longe de se dissiparam, se adaptaram a novas plataformas e linguagens. Ou seja, a utilização massificada da internet, com tudo o que traz (fama rápida na produção de conteúdos, anonimato no consumo), longe de romper com um padrão dominante da cultura pop, amplificou-o. Isto, aliado ao algoritmo, que parece cumprir o papel de editores, produtores, programadores, atingiu proporções esmagadoras. Se já podiam colocar-se questões éticas nos exemplos dados por Gilbert, quanto mais agora; a diferença é que o algoritmo não vive à base de ética, mas de métrica. Não só não dá para se apontar o dedo ao intermediário, como a própria tentativa já alimenta o algoritmo, coadjuvando o criador de conteúdos.
Assim, na busca de prender a atenção e gerar reacções, assiste-se, neste novo ecossistema, à produção constante de conteúdos polarizadores e emocionalmente carregados. Não espanta, por isso, que a misoginia encontre aí terreno fértil. Mesmo em Portugal, um youtuber chamado Numeiro, versão soft e low cost de Andrew Tate, já afirmou que, volta e meia, diz coisas só para provocar reacções – e provoca-as com mais eficácia precisamente quando navega no território misógino. O português segue a cartilha da manosfera internacional e cria o seu nicho, recorrendo a uma linguagem que, além de agressiva, é estrutura – ei-la a criar identidades, a definir um nós e um elas, a vender um estilo de vida, a estabelecer hierarquias. E, mais uma vez, as mulheres surgem como o outro, o obstáculo, o mistério, a identidade à parte, o estereótipo – uma imagem muito longe da complexidade de uma pessoa. Nisto, claro que a desumanização não é um efeito colateral. É necessária para que esta narrativa grasse, sendo, por isso, uma ferramenta.
E a misoginia cresce com pezinhos de lá. Tem, admita-se, uma certa capacidade de sedução por parte de quem a perpetra para o seu público-alvo: nem sempre é ódio puro (embora com Tate seja), mas como explicação. E a própria desqualificação das mulheres é apresentada como outra coisa que não mera condescendência: parece ternura por uns seres um tanto acéfalos que têm de ter quem as defenda. Portanto, os rostos da manosfera apresentam teorias e sistemas coerentes, prometendo sentido a rapazes que se sentem deslocados ou frustrados, e que recebem, por isso, uma mapa simplificado para a vida que, sendo distorcido, acaba por lhes ser sedutor.
Parece-me que são precisamente esses que deviam ter este Girl on Girl nas mãos. Basta meia dúzia de páginas para se ver que nem Tates nem sucedâneos são originais: copiam fórmulas antigas, beneficiando de uma plataforma mais rápida e mais universal. E, sobretudo, simplificam o que deve ser complexificado, ao mesmo tempo que tentam complicar coisas muito simples. Além disso, com uma prosa limpa e cheia de conteúdo, a autora conseguiu elencar tanto do grotesco que parece ainda mais grotesco por ser apresentado como normal.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.