Uma nova tendência tem circulado nas redes sociais: um creme vaginal de estrogénio está a ser apelidado de “preenchimento” para o rosto e outras zonas do corpo. Originalmente prescrito para aliviar sintomas como secura ou irritação vaginal — sobretudo associados à menopausa e à perda de estrogénio —, o produto está agora a ser usado de forma não convencional com a promessa de melhorar a textura da pele e dar-lhe volume. Citados pelo The Guardian, especialistas alertam, contudo, para os riscos desta prática.
@drcarolynmoyers Every woman deserves vaginal estrogen and should have it in their toolkit! Why? It keeps tissues strong, prevents UTIs, supports intimacy, AND promotes collagen. Bonus: a little under the eyes never hurts ???????? #estrogen#menopause#perimenopause#hormones#skincare♬ So I'm Addicted To This - Dubskie
Alguns médicos assumem mesmo que já receberam doentes curiosos sobre o método, que se tornou popular em vídeos no Instagram e TikTok. “Alguns relatam que a pele fica menos seca ou um pouco mais macia. Isso não é surpreendente, pois sabe-se que o estrogénio afeta a hidratação da pele. Mas uma melhoria subjetiva não equivale a segurança comprovada nem a benefícios a longo prazo”, explica Oma Agbai, professora clínica associada de dermatologia na Universidade da Califórnia.
@her.health.telemedicine ????Vaginal estrogen has been shown to improve hydration, collagen, and elasticity in the skin. Therefore, it can reduce the appearance of fine lines and wrinkles. Applying a pea-size amount to the face nightly will not increase systemic levels of estrogen! It is not FDA approved for this indication, so ask your provider if it’s right for you! This is not medical advice???? ???? #vaginalestrogen#skincaretips#skincare#skincareroutine#estrogenfacecream#menopause#perimenopause♬ original sound - Kardashian clips ????
A ideia de que o estrogénio vaginal pode beneficiar a pele da cara — já que o estrogénio natural do corpo estimula a produção de colagénio — parece lógica, e alguns estudos pequenos e de curta duração apontam resultados positivos. Na teoria, o creme poderia atuar sobre sinais de envelhecimento, mas não se sabe “como e onde aplicá-lo, nem o que iria fazer”, alerta Maral Skelsey, professora clínica de dermatologia na Universidade de Georgetown. E os riscos existem. “Efeitos secundários hormonais, tais como sensibilidade mamária ou sangramento anormal, e riscos teóricos em doenças sensíveis ao estrogénio, como o cancro da mama, do ovário ou do endométrio, especialmente em indivíduos de maior risco”, explica ainda Oma Agbai.
Embora a absorção pela corrente sanguínea seja provavelmente “mínima”, não é nula mesmo quando o creme é aplicado em pequenas áreas, como na pele do rosto. “Depende da quantidade utilizada e em que zona do corpo”, afirma Maral Skelsey. Zonas maiores, como abdómen, coxas ou nádegas, “são exatamente os casos em que é necessário ter mais cautela”, acrescenta Agbai. Até agora, o regulador norte-americano que vigia a área dos medicamentos e alimentação (a FDA, na sigla inglesa) não aprovou o uso de cremes vaginais de estrogénio em zonas do corpo que não a íntima, e a Academia Americana de Dermatologia não os autoriza para utilização como “preenchimento” facial ou tratamento para rugas e pele seca.
No mercado, existem alternativas seguras e comprovadas, desde tratamentos realizados em clínicas — como lasers, microagulhas ou injetáveis — a opções tópicas com eficácia demonstrada, lembra Agbai. Todas com “respaldo científico sólido e um perfil de segurança muito mais claro”.