“Não te esqueças da pátria. E partilha mais informação”. “Estamos à procura de camaradas que peguem fogo à loja de imigrantes negros”. As mensagens chegam através do Telegram, tanto em conversas privadas como em grupos, e são enviadas por agentes dos serviços secretos russos. Mas a Guerra Fria acabou, o KGB já não existe e a espionagem russa mudou de rosto — e de métodos. Em 2026, os espiões de Moscovo são agora pessoas comuns contratadas para uma só ação. São “agentes descartáveis”.
É através da internet que o Serviço de Segurança Federal (FSB, na sigla em russo) e a Direção do Estado-Maior das Forças Armadas (GRU, na sigla em russo) recrutam pessoas comuns na Europa, em mensagens que começam de forma “inocente” e evoluem para pedidos para que partilhem informações ou cometam atos de vandalismo, a troco de dinheiro. Face a esta realidade, as autoridades alemãs lançavam, no ano passado, um aviso: “Não responda a estas tentativas de recrutamento!”
A estratégia começou a ser implementada em 2018, depois de Sergei Skripal (antigo agente secreto russo que tinha trabalho como agente duplo para o Reino Unido) e a filha terem sido envenenados com Novichok, mas tornou-se muito mais evidente a partir de 2022, depois da invasão da Ucrânia. Os dois momentos levaram as nações ocidentais, principalmente na Europa, a expulsar centenas de diplomatas. Sem redes de recolha de informação no terreno, a Rússia desenvolveu novos métodos, exequíveis à distância.
“A mudança para um modelo de espionagem assente na gig-economy foi principalmente uma adaptação forçada e não uma escolha estratégica preferível”, aponta Charlie Edwards, analista de estratégia e segurança nacional no Instituto Internacional para Estudos Estratégicos (IISS na sigla original), ao Observador. Porém, a mudança de estratégia não tornou a espionagem russa menos eficaz na Europa.
Nos últimos quatro anos, repetiram-se casos de sabotagem e interferência — num dos casos recentes mais mediáticos, três linhas de caminho-de-ferro francesas foram danificadas no dia em que começaram os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024 — que, pela sua própria natureza, impedem a responsabilização da Rússia, apesar das suspeitas nesse sentido — e que, apontam os especialistas, podem prejudicar o apoio europeu à Ucrânia. “É um jogo a longo prazo, que não é só sobre resultados imediatos, como a disrupção da logística, é também sobre a opinião pública”, sintetiza Andrei Soldatov, jornalista russo no exílio e especialista nos serviços de segurança russos, ao Observador.
A espionagem como um “serviço” contratado a grupos economicamente vulneráveis
O alerta para “não esquecer a pátria e continuar a partilhar informação” foi enviado, em 2023, a um estudante de 21 anos de Moscovo por um agente do FSB com quem falava há mais de um ano, numa troca de mensagens agora revelada pelo Politico. O jovem foi chantageado pelo FSB para colaborar com eles depois de ter sido detido pelos agentes e pressionado, ao longo de vários meses, para se aproximar de um grupo de ativistas, o Vesna, para recolher informações sobre o seu líder. Os dois agentes com quem contactava utilizavam uma estratégia de “polícia bom, polícia mau”, em que um agente se revelava mais agressivo e o outro apaziguador e encorajador.
O caso noticiado pelo Politico é um exemplo do tipo de alvos escolhidos pelas secretas russas, que são definidos pelos especialistas como “alvos fáceis”: jovens, imigrantes, pequenos criminosos ou pessoas “economicamente vulneráveis“, como define Charlie Edwards. A este perfil, podem somar-se ainda motivações ideológicas, como uma inclinação pró-Rússia ou anti-Ucrânia. “Circunstâncias económicas precárias mais um alinhamento ideológico é basicamente o pacote ideal”, resumiu Hans Jakob Schindler, responsável do Projeto Contra Extremismo, à Euronews.

Por outro lado, a forma como este jovem foi contactado pelo FSB não foi a mais comum. Normalmente, os alvos são contactados através de mensagens colocadas em grupos, onde imigrantes procuram trabalhos pontuais ou onde se reúnem pessoas com ideologias semelhantes — como é caso do anteriormente referido pedido para “um camarada que pegue fogo”, enviado num grupo de pessoas defensoras da supremacia branca. Noutros casos, as mensagens são colocadas como ofertas de trabalhos e só depois revelado que os trabalhos são, na verdade, crimes.
Este modelo trata a espionagem não como uma carreira (como acontecia com o KGB), mas como um serviço que pode ser efetuado de forma pontual, a troco de dinheiro — integrado no conceito de uma “gig economy“, ou seja, uma economia baseada em pequenas tarefas. E as tarefas que estes “agentes” podem efetuar são muito variadas. No caso noticiado pelo Politico, o trabalho do jovem estudante era aproximar-se de opositores políticos do Kremlin e recolher informações sobre eles.
Os incêndios também são atos de sabotagem comuns e podem visar negócios de minorias ou ter uma escala maior, como uma loja do IKEA na Lituânia em 2024, ou um centro comercial na Polónia, que ficou completamente destruído. Os “agentes” podem ainda ser incumbidos de distribuir propaganda ou realizar atos de vandalismo. Todos os pagamentos são feitos através de criptomoeda, com preços que podem ir dos cinco euros (para colocar um cartaz de propaganda) aos 400 (para instalar uma câmara), segundo uma investigação do jornal The Guardian.
Contudo, Charlie Edwards elenca alguns atos de vandalismo que podem ter um efeito muito mais direto no apoio europeu ao esforço de guerra ucraniano: pegar fogo a uma empresa de armamento na Alemanha, danificar linhas de comboios na Polónia, onde circula este armamento, ou bloquear sinais de GPS que impedem a circulação de aviões. Os efeitos destas ações são semelhantes, aponta, aos dos navios da “frota fantasma” russa, utilizados para danificar oleodutos e cabos de comunicação na superfície marítima.
Um método mais económico, fácil de substituir e difícil de rastrear
A mensagem que procurava alguém disponível para provocar um incêndio numa loja foi lida por Serhiy S, um refugiado ucraniano de 49 anos, que acabou por ser detido na Polónia antes de ter cometido o crime, quando ia a caminho da Alemanha, descreveu o The Guardian. Acabou julgado em fevereiro do ano passado e foi condenado a oito anos de prisão. Da parte da Rússia, nunca houve qualquer esforço para defender Serhiy ou as dezenas de outras pessoas que, ao longo dos últimos anos, foram detidas e julgadas por acusações semelhantes.
A apatia russa tem duas explicações evidentes. Por um lado, é muito fácil substituir um “operacional” como Serhiy. “Põe-se uma pessoa na prisão e outra aparece no seu lugar. Estas pessoas são descartáveis e Moscovo não quer saber delas“, afirmou um responsável de segurança europeu ao jornal britânico. Mas a facilidade com que a Rússia consegue substituir estas pessoas não se explica apenas com as características do recrutamento online. Ao Observador, Andrei Soldatov destaca como “para este tipo de operações [de sabotagem] pessoas recrutadas de forma pontual são mais adequadas, pelo que esta opção é mais económica”.
Por outro lado, torna-se muito mais difícil responsabilizar a Rússia por ações isoladas quando a única ligação entre os detidos e os agentes secretos são mensagens no Telegram. Numa primeira instância, os ataques podem nem ser imediatamente associados à Rússia — afinal, casos de vandalismo ou sabotagem ocorrem muitas vezes fora de contextos de guerra e a associação a um conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia pode não ser imediata. Mas mesmo quando a frequência dos ataques aponta para uma guerra híbrida de Moscovo, a ação judicial é difícil.
“Uma grande vulnerabilidade [da Europa] é que os sistemas legais europeus foram desenhados para tempos de paz e muitas vezes tratam estes ataques híbridos como crimes domésticos isolados ou vandalismo, em vez de os tratarem como guerra coordenada e dirigida por um Estado”, argumenta Charlie Edwards, que ressalva ainda que cada país utiliza uma definição legal diferente de sabotagem, o que dificulta ainda mais as respostas coordenadas além fronteiras e a “utilização de ferramentas de financiamento para conta-terrorismo”.

Já Andrei Soldatov considera que as dificuldades europeias também advêm do facto de esta ser a primeira vez que a Rússia utiliza a guerra híbrida contra a Europa em larga escala, pelo que o continente foi apanhado desprevenido. “Isto não existia durante a Guerra Fria, o KGB tinha a opção de sabotagem ao seu dispor, mas nunca a utilizou na Europa”, afirma. Na comparação entre as duas estratégias, um responsável europeu ouvido pelo The Guardian é conclusivo: “É mais fácil lidar com espiões sob disfarces diplomáticos ou até [infiltrados] ilegais”.
Minar o apoio à Ucrânia, semear ansiedade e mostrar impunidade. Os objetivos de Moscovo
Em janeiro de 1963, o KGB partilhou com os seus parceiros na Checoslováquia a doutrina que define os três principais objetivos de operações de sabotagem. Num memorando do ano seguinte, a agência soviética apelava a que nenhum plano ou estratégia fosse posto no papel, por questões de segurança, mas os agentes checoslovacos não seguiram esta diretiva e mantiverem todas as anotações sobre esta doutrina, o que serviu de base à análise de Daniela Richterova, professora do Departamento de Estudos de Guerra da King’s College, em Londres.
Os três objetivos incluíam explorar e aprofundar tensões já existentes dentro da NATO, danificar a capacidade económica e financeira e minar a unidade dentro do bloco de influência norte-americano. Mais de 60 anos depois, as estratégias podem já não ser as mesmas, mas Charlie Edwards salienta objetivos muito semelhantes na ação atual da Rússia.
“A campanha de espionagem e sabotagem está desenhada para impor custos económicos, sociais e psicológicos severos à Europa, para esgotar a vontade política de apoiar a Ucrânia”, destaca o especialista. Em alguns dos exemplos já mencionados, os custos são claros: quando se pega fogo a uma fábrica, isso atrasa a produção de armamento; quando se destrói um carril, esse armamento atrasa-se a chegar à Ucrânia; quando se interfere no GPS, perturbam-se as comunicações entre Kiev e os aliados. Mas estas consequências não são visíveis no caso de um incêndio no IKEA, por exemplo.

Em todos os casos, há um outro objetivo, mais indireto: o de semear o caos na Europa. Estes incidentes “interrompem a vida quotidiana e semeiam a ansiedade pública”, pondera o analista do IISS. Este sentimento de ansiedade é alimentado pela insegurança diretamente causada pela sucessão de incidentes, mas também pelo facto de os crimes serem cometidos por uma enorme rede de “agentes”, criando uma desconfiança entre a população sobre quem pode ou não fazer parte destes grupos.
Em terceiro lugar, as ações da Rússia contra a Europa mostram ainda que, apesar das sanções e barreiras políticas à ação no continente, Moscovo continua a agir contra os 27. “A intenção não é apenas neutralizar alvos individuais, mas assinalar a Bruxelas e às capitais europeias o seu alcance e impunidade”, ressalva um relatório de análise à guerra híbrida russa, publicado esta semana pelo Center for European Policy Analysis (CEPA).
A necessidade de uma resposta unida, de ação digital e políticas de integração
O dia 24 de fevereiro de 2022 marcou um ponto de viragem para a União Europeia (UE). Com a guerra às portas do bloco pela primeira vez em mais de duas décadas, Bruxelas foi confrontada com as suas limitações e começou a apostar, de forma inédita e acelerada, na defesa e na segurança. Porém, se esta limitação revelava uma falta de preparação, a incapacidade para lidar com a guerra híbrida revela antes uma falta de experiência com esta realidade.
Tendo isto em conta, os especialistas argumentam que a Europa “ainda está a aprender” a fazer frente aos novos espiões russos, mas já foram feitos alguns progressos. Entre estes, Charlie Edwards salienta, na esfera legal, a Lei de Segurança Nacional do Reino Unido, de 2023, que endureceu as penas para uma condenação por colaboração com serviços secretos estrangeiros, aproximando-a da pena por terrorismo. E, na esfera militar, o lançamento da operação “Sentinela do Báltico”, para proteger os cabos submarinos na região.
Contudo, os especialistas destacam duas vulnerabilidades na abordagem europeia. Por um lado, a resposta continua a ser desconjuntada, fragmentada entre os 27 e os seus aliados. Tal como em muitas outras áreas de ação, uma resposta conjunta seria mais eficaz. Por outro lado, além de olhar para a esfera militar e legal, a ação europeia devia ir à raiz do problema e olhar para o processo de recrutamento. Christopher Nehring, analista do Cyberintelligence Institute, acusa, num artigo de análise, a campanha alemã do ano passado, promovida no site das autoridades e em cartazes, de ser insuficiente e “não chegar ao público alvo“.
Dando o exemplo da abordagem ucraniana, Nehring sugere que as autoridades europeias deviam criar campanhas de sensibilização diretamente nas redes sociais, em escolas e universidades, e, em geral, onde se encontram os alvos do recrutamento russo. O especialista argumenta ainda que a UE deveria agir com perfis falsos e chatbots de Inteligência Artificial para criar falsos processos de recrutamento que mantenham os agentes russos ocupados.
Kirill Shamiev, analista do European Council on Foreign Relations e responsável por um estudo sobre imigrantes russos na Europa, propõe, em declarações ao Politico, uma terceira possibilidade: a aposta na integração destes imigrantes, que são muitas vezes visados como recrutas, afastando-os da instabilidade financeira e da alienação que faz deles alvos fáceis. “Querem que [os russos] se integrem porque isso é a melhor vacina contra atividades ilegais”, aponta.