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(A) :: Do portão fechado a quem ficou sem portão para fechar. Em Leiria, uns perderam a "chafarica" e outros voltam mesmo "à estaca zero"

Do portão fechado a quem ficou sem portão para fechar. Em Leiria, uns perderam a "chafarica" e outros voltam mesmo "à estaca zero"

Três dias após a passagem da Kristin, o Observador encontrou Ricardo a tirar as máquinas do armazém arrendado que sofreu danos avultados. Dois meses depois, desistiu do negócio (pelo menos para já).

Marina Ferreira
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Inês Lacerda
photography

A vista da receção da oficina onde trabalha dá para um barracão sem telhado ou portão, completamente vazio. Ricardo diz que lhe custa “olhar para aquilo todos os dias”, já há mais de dois meses. Era nesse armazém que tinha as suas poupanças investidas, num pequeno negócio de produção de peças para carros e indústria metalomecânica. Era lá que fazia uma segunda jornada, depois de trabalhar as oito horas na oficina de carros de onde nos fala. Mas depois da tempestade perdeu a sua “chafarica”.

“Chamava-lhe uma chafarica, mas era a minha chafarica, tinha muito orgulho, tinha a empresa toda legal, com a higiene e segurança no trabalho em dia”, descreve ao Observador emocionado. Há dois meses falava-nos dentro do armazém que se perdeu, enquanto lhe retiravam as máquinas do local que ficou a céu aberto com a Kristin, e já adiantava: “Esta empresa certamente é para acabar.”

“Quando houve o primeiro caso de Covid [em 2022] em Portugal foi quando estava a gastar todo o dinheiro que tinha a comprar máquinas”, recorda agora, já em jeito de balanço da empresa. Conta como o negócio se foi aguentado, com meses melhores e outros piores. Ricardo chegou a contratar um funcionário a tempo inteiro e passava, ele próprio, quase todo o tempo livre, entre noites e feriados, a produzir.

Olhando para trás, vê simbolismo no facto de na noite da tempestade ter saído do armazém a sentir-se realizado com o trabalho que tinha acabado de fazer. Também se lembra de como achou o tempo agradável, tendo em conta a mensagem de alerta que tinha recebido por parte da Proteção Civil. Poucas horas depois recebeu um alerta do sistema de segurança e foi ver as câmaras: conseguia ver o interior do armazém onde tinha estado há poucas horas, mas também via árvores, por faltar já o telhado. Mostra a gravação ao Observador e fala do choque.

As máquinas, que no dia 31 de janeiro estavam a ser retiradas do armazém sem telhado — numa operação que lhe custou o pouco dinheiro que tinha reservado na empresa –, estão agora alinhadas à porta da oficina em que trabalha. Ricardo planeia vendê-las nas próximas semanas, uma vez que por um lado não tem espaço e por outro precisa do dinheiro.

"Chamava-lhe uma chafarica, mas era a minha chafarica, tinha muito orgulho, tinha a empresa toda legal, com a higiene e segurança no trabalho em dia"
Ricardo Santos, pequeno empresário que perdeu o negócio

Apesar da proximidade do armazém destruído, a empresa onde trabalha quase não sofreu danos e está agora a “absorver muito trabalho”, tendo em conta que muitas oficinas de reparação automóvel da zona “não sobreviveram”.

Ricardo Santos conta ao Observador que, no dia em que o entrevistámos pela primeira vez, chorou “baba e ranho”, e assim foi por alguns dias. Depois de o choque passar, e por muito que lhe tenha custado, tentou ver o lado bom. “Houve pessoas que ficaram mesmo sem casa e sem trabalho, nós pelo menos ainda tiramos daqui o nosso pão”, dá graças, enquanto recebe um cliente que acaba de chegar para pedir um orçamento para o arranjo de um carro.

Enquanto nos leva ao armazém onde nos encontrámos há dois meses, lamenta que em frente ao local ainda existam fios espalhados e pedaços de postes de telecomunicações. Já tentou resolver a questão pelas próprias mãos, mas a junta deu-lhe indicação para não recolher o material. A operadora responsável também não limpou o local, mesmo depois de vários pedidos dos moradores e empresários da rua.

De portões fechados, na Diartes o negócio vai ter de voltar à “estaca zero”

Gracinda Mota encontra-nos a conversar em frente da sua casa, onde está o emaranhado de fios e um poste a cair. Cumprimenta Ricardo, que diz ser um “rico vizinho”, e lamenta já não o ver tanto, agora que o armazém que lhe arrendava, mesmo ao lado da sua casa, está destruído.

A mulher de 87 anos tem dois barracões, os dois sofreram danos no telhado e na estrutura o que lhe vai custar cerca de 15 mil euros em reparações, cada. Para mandar arranjar um deles vai ficar “descalcinha”, apenas com a reforma “pequenina”. Mas vai avançar para a recuperação daquele que já tinha “prometido” a outro pequeno empresário que, agora, mais do que nunca, precisa dele.

Ricardo concorda que a antiga senhoria dê prioridade a esse armazém e ao colega que gere uma pequena oficina de reparação de motas, que antes operava no complexo de armazéns a poucos minutos de carro dali. Também esse pequeno empresário ficou literalmente sem espaço depois da tempestade, e tem agora de ir trabalhando na garagem de casa até ter o novo espaço pronto.

Gracinda espera ter tudo preparado até junho — foi esse o prazo que um construtor da zona lhe deu — embora saiba que “está tudo atrasado” por causa dos pedidos, que são muitos, para a reconstrução de telhados e reforço das estruturas.

Num percurso de menos de cinco minutos de carro, regressamos ao complexo de armazéns da Diartes, uma empresa de lacagem de ferro. Da última vez que ali estivemos era uma pilha de entulho e chapas que vestiam o armazém. Os portões estão fechados, a anunciar o encerramento da atividade, mas Cláudio abre-nos a porta — é o filho dos donos da empresa e também trabalha ali. Mostra-nos o espaço, agora completamente limpo e com cinco armazéns despidos, sem teto, portões ou qualquer recheio no interior.

Um deles estava arrendado ao reparador de motas que se vai mudar para o edifício de Gracinda. Era uma das quatro empresas a que a Diartes arrendava espaços que rodeavam a sua empresa principal. Saíram todos, para já, para outros locais que não sofreram danos tão avultados.

Marfelete Ferreira, dona da empresa, conta ao Observador, por telefone, que o marido sofreu um acidente de trabalho enquanto limpava o espaço. Assume as semanas muito difíceis que tem vivido. Desde logo, concorreram a todos os apoios do Estado com elegibilidade, mas ainda não chegou dinheiro nenhum. “Até ver, até os salários dos funcionários tenho de ser eu a pagar com o que ainda resta”, lamenta.

“Os seguros estão a correr mas ainda não temos nada”, diz. Para já a empresa está fechada, mas os esforços para retomar uma pequena parte da atividade já começaram. “Estamos a tentar aproveitar uma linha de lacagem”, revela ainda. E acrescenta: “Temos tentado erguer-nos e viver”.

Cláudio, o filho da empresária, mostra-nos o espaço onde vão começar de novo — o mesmo onde o pequeno empresário de motas trabalhava e que está a ser reconstruído por ser de menor dimensão. A escala do negócio, para já, reduziu e muito. “Vamos voltar à estaca zero”, assume Cláudio.

Dois meses depois, a empresa que contornou a falta de eletricidade ainda se reconstrói

Na Adelino Duarte da Mota (ADM), nas Meirinhas, em Pombal, a produção não chegou a parar por completo, apesar dos extensos danos nos edifícios da fábrica de cerâmica. O Observador visitou a empresa no dia 31 de janeiro e testemunhou em primeira mão o momento em que o arranque da produção numa das unidades acontecia, mesmo sem a eletricidade ter ainda voltado: tinham conseguido recorrer à cogeração para se alimentar energeticamente.

Cristiano Fernandes, gestor de manutenção na ADM, revela que “logo a seguir ao temporal a pressão foi muita para responder aos clientes”. “Conseguimos, logo três dias depois, colocar uma das unidades em funcionamento para fornecer um dos nosso grandes clientes e nas duas outras unidades dedicámo-nos em pleno à recuperação”, explica.

O resultado passado dois meses mostra duas unidades em pleno funcionamento e uma delas ainda a precisar de algum trabalho. Para isso, Cristiano diz que valeram as empresas externas que contrataram para recolocar painéis metálicos do edifício e muitos outros trabalhos de arranjo de danos, maioritariamente da zona de Aveiro, seguindo a lógica de que os negócios da zona teriam sido também eles afetados pela intempérie.

Em relação aos trabalhadores, tirando nos primeiros três dias, os operários nunca pararam de trabalhar. Só os administrativos chegaram a estar em teletrabalho. Houve quebra de produção, e continua a haver com o encerramento da unidade de pavimento e revestimento cerâmico, mas o dano é menor do que se poderia ter esperado depois da madrugada de 28 de janeiro.

"Se de hoje para amanhã houver outra interrupção da rede, já sabemos como fazer para ficarmos autónomos, isto foi uma aprendizagem para nós".
Hélder Pinheiro, responsável das instalações elétricas e energia na ADM

Hélder Pinheiro, responsável das instalações elétricas e energia na ADM, recolhe os louros do regresso célere à produção, depois de terem chegado a uma solução de cogeração. “Desde o dia 17 de fevereiro que foi reposta a eletricidade da rede normal – voltamos à normalidade que é estar a trabalhar com a cogeração, mas em paralelo com a rede”, explica.

E acrescenta: “Se de hoje para amanhã houver outra interrupção da rede, já sabemos como fazer para ficarmos autónomos. Foi uma aprendizagem para nós“.

O responsável do setor naquela indústria lamenta, no entanto, que a cogeração “tenha vindo a perder terreno em Portugal, face a outros países”. “Temos uma legislação que ano após ano vai começando a matar a cogeração — vendemos energia elétrica à rede com uma tarifa, mas se perdemos essa tarifa deixa de ser vantajoso trabalhar com a cogeração”, esclarece.

Fala disto, porque no sábado da semana passada foi o último dia de uma das duas centrais de cogeração da ADM. Isto porque a “legislação determina um período de vida útil das centrais de cogeração e ano após ano perdemos 1% dessa tarifa e depois chega ao ponto em que acaba mesmo a tarifa”. Trata-se de uma “penalização por utilização de combustíveis fósseis”. “A legislação devia ser revista”, apela.

“Assim estamos a queimar o gás em vez de ser na cogeração, sem aproveitamento interno”, lamenta.