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O Irão e as birras transatlânticas

Se a Europa persistir nesta combinação de presunção moral e preguiça estratégica, acabará a dar lições de direito internacional para plateias vazias, enquanto outros defendem os seus interesses vitais

José António Rodrigues do Carmo
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O desfecho do conflito no Irão depende, em larga medida, da vontade de Trump. Da vontade declarada de manhã, da que pode ser desmentida à tarde, da vontade insinuada aos jornalistas, da que pode servir apenas para atordoar amigos e inimigos, e da vontade real que habita a mente de Trump e que todos tentam adivinhar como quem lê sinais nas borras do café.

Perceber o que lhe vai na cabeça é um esforço ingrato. Trump contradiz-se com desenvoltura, fala de forma a permitir múltiplas interpretações e parece apreciar o prazer de manter todas as opções em aberto. Apesar disso, ou até por causa disso, é óbvio que tem razões sérias para querer pôr termo aos combates. Os preços da energia sobem, o Estreito de Ormuz permanece largamente constrangido, a guerra desgasta a economia, e a opinião pública americana não aprecia campanhas longas, sobretudo quando o combustível encarece e a utilidade da empreitada, que é real, deixa de caber numa frase de comício.

Parece pois que Trump está disposto a encerrar a campanha militar contra o Irão, mesmo que Ormuz não reabra entretanto. A sua lógica é simples: uma missão destinada a garantir a reabertura da via marítima poderia prolongar a guerra para além da janela temporal que definiu para si próprio. Trump quer poder dizer que bateu no Irão, o enfraqueceu, impôs condições e saiu antes de a guerra lhe cobrar demasiado. Há aqui cálculo, instinto, política doméstica. E há também a possibilidade de ser mais uma manobra de engano, já que os sinais de retirada podem servir apenas para fazer Teerão baixar a guarda antes de um novo golpe. Com Trump, o recuo anunciado pode ser verdadeiro ou apenas o passo atrás do pugilista para ganhar balanço para outro soco. A indefinição é, para o presidente americano, uma arma.

Israel sabe isso melhor do que ninguém. E é por essa razão que, enquanto Trump mede a duração da guerra pelo relógio da política interna, Jerusalém mede-a pelo tempo necessário para reduzir ao máximo a futura capacidade de ameaça iraniana. Netanyahu disse apenas que a campanha já vai a mais de metade. É uma formulação prudente que não fecha a porta à continuação, não promete o fim, e preserva a liberdade de manobra. Entretanto vai anunciando que já destruiu grande parte dos lançadores de mísseis balísticos iranianos, boa parte dos sistemas de defesa antiaérea e praticamente todos os alvos militares críticos definidos no início da guerra, entrando agora numa “fase de conclusão” que inclui ataques a alvos económicos.

 Conclusão de quê, exactamente? Degradar o aparelho militar convencional iraniano é uma coisa. Impedir a reconstituição da ameaça é outra. E derrubar o regime, ou criar condições para o seu colapso, é outra ainda.

Durante semanas, Netanyahu insistiu na ideia de criar as condições para um levantamento do povo iraniano, mas entretanto, essa ênfase esbateu-se. Já não se fala tanto de mudança de regime, refere-se vagamente um colapso que acabará desejavelmente por acontecer.

A desconfortável verdade é que eliminar a capacidade do Irão para ameaçar Israel, os Estados árabes do Golfo e o próprio Ocidente, dificilmente será definitiva sem uma mudança profunda da natureza do regime. O regime iraniano é muito mais do que um governo autoritário com maus fígados. É uma estrutura ideológica, revolucionária, militar, expansionista e teocrática, que combina ambição nuclear, produção de mísseis, guerra por procuração, total desrespeito pelas leis internacionais, aceitação de danos cataclísmicos, e uma longa experiência em sobreviver ao castigo. Não deixará de ser ameaça porque lhe destruíram muitas coisas e eliminaram alguns líderes. Um polvo não morre por lhe cortarem dois tentáculos.

Trump, numa daquelas simplificações que lhe são tão caras como os superlativos, sugeriu que a mudança de regime já ocorreu porque a liderança iraniana foi em larga medida eliminada. Ora isto é tão verdade como dizer que uma pereira passa a ser macieira se lhe cortarmos os ramos. O regime islâmico está depenado, ferido, mais vulnerável, mas continua a ser o que é. E quando Trump considera “razoáveis” os seus interlocutores iranianos, como Mohammad Bagher Ghalibaf, homem intimamente ligado à Guarda Revolucionária, percebe-se que Washington pode satisfazer-se com a aparência de um rearranjo, mesmo que a substância do regime permaneça intacta. A menos que saiba que Ghalibaf é mesmo tão venal como se murmura.

De qualquer modo, Israel vai-se preparando para a hipótese de Trump desmontar o circo e seguir para outro palco, deixando no terreno uma República Islâmica muito enfraquecida, mas muito inflamada. E por isso vai organizando o pós-guerra. Um futuro no qual o combate poderá continuar com operações clandestinas, eliminações selectivas, sabotagem, cooperação com Estados árabes e reforço de alianças regionais. O Irão pode sair moído desta campanha, mas com recursos, vontade e petróleo para se recompor. Esta campanha militar poderá terminar sem acordo verificável, mas nesse caso a guerra marca nova ronda para daqui a uns tempos.

É neste ponto que a Europa entra em cena, nem sempre como actor adulto, port vezes como companhia de teatro amador. Convém dizer, com toda a justiça, que os EUA andaram muito mal em não coordenar devidamente a acção com os países europeus. Uma guerra desta natureza, com efeitos directos sobre energia, comércio marítimo, segurança do Mediterrâneo, estabilidade do Golfo e arquitectura geral da aliança ocidental, não é matéria para telefonemas tardios e informação a conta-gotas. A coordenação política com os aliados não era uma gentileza diplomática, mas sim um imperativo estratégico e nisso Washington falhou.

Todavia a falha americana não absolve a indigência estratégica de certos líderes europeus. Alguns governos reagiram como crianças birrentas a quem retiraram o brinquedo da superioridade moral. Em vez de compensarem a falta de coordenação com lucidez própria, preferiram a pose, a objecção procedimental, o franzir de sobrolho e a pequena vingança burocrática. Proibiram voos americanos, recusaram facilidades, levantaram obstáculos e, no essencial, comportaram-se como se estivessem a castigar Washington por não lhes ter pedido licença para defender interesses que são também, e em vários aspectos sobretudo, europeus.

O interesse europeu em neutralizar o Irão é, em muitos aspectos, maior do que o interesse americano. Os EUA podem, em última instância, recolher-se atrás do oceano, suportar melhor o choque energético e sobreviver a um Médio Oriente febril. A Europa, não. A Europa vive à distância de um míssil de Teerão e de um suspiro do Mediterrâneo, do Levante, do Suez e de Ormuz. Depende do mar, da energia importada, da estabilidade das rotas e da contenção da desordem regional. Sofre mais depressa e mais profundamente os efeitos da chantagem energética, da inflação, da pressão migratória e do terrorismo por procuração. As potências marítimas percebem isto muito bem. As burocracias continentais europeias, entorpecida em direitos adquiridos, obsessão antiamericana e conferências climáticas, tendem a esquecê-lo.

A ironia faz-se por si mesma. Ao complicarem deliberadamente a acção americana, ao não ajudarem a neutralizar o vilão no seu momento de maior vulnerabilidade, alguns governos europeus julgam proteger-se da escalada, da retaliação e da factura económica. Podem, porém, estar a produzir exactamente o contrário. Ao dificultar a logística, encurtam a margem operacional e alimentam em Washington a tentação de uma campanha breve, incompleta e politicamente apressada. E o ressentimento americano. O resultado provável não é a paz, mas uma meia solução, insuficiente para neutralizar o regime iraniano. E então a Europa ficará com o pior dos mundos: o Irão ainda vivo, Ormuz ainda vulnerável, a energia ainda cara, os proxies ainda activos e um aliado pouco disposto, do outro lado do Atlântivo. Os mesmos políticos que hoje brincam às objecções processuais, arriscam-se a descobrir amanhã que a sua prudência era apenas cobardia com verniz jurídico. Em geopolítica, como na guerra, há momentos em que não ajudar a resolver o problema é apenas uma forma particularmente estúpida de o prolongar.

Neste aspecto, a posição portuguesa destaca-se pela sensatez. Portugal autorizou o uso das Lajes pelos EUA. Fê-lo sem histeria, sem fanfarronice e sem servilismo. Agiu como país atlântico, como Estado com memória histórica e como nação que ainda compreende a gramática da geopolítica marítima. Não se tratou de bater palmas a Washington, nem de subscrever cegamente cada passo americano. Tratou-se de perceber que quem vive do mar, quem conhece o valor dos estreitos, das rotas e dos arquipélagos, não pode brincar ao neutralismo quando uma potência revolucionária ameaça uma das artérias vitais do comércio mundial e pode daqui a uns tempos juntar mísseis e ameaças. Portugal portou-se como adulto, ao contrário da Espanha, da França e outros.

No fundo, tudo se resume a uma questão simples: o Ocidente quer mesmo neutralizar o Irão, ou quer apenas condená-lo, fazer proclamações morais ee manifestar preocupação, enquanto outros pagam o preço da contenção? Porque é muito fácil descobrir as virtudes do escrúpulo quando são os outros que descem ao terreno e combatem. O problema é que, quando Ormuz fecha, quando o petróleo dispara, quando os proxies se mexem e quando a instabilidade atravessa mares e fronteiras, a factura acaba sempre por encontrar o endereço europeu. E não costuma vir escrita em linguagem inclusiva.

Se Trump parar cedo demais, Israel continuará, de uma forma ou de outra. Se o regime iraniano sobreviver, sobreviverá enfraquecido, mas não convertido à mansidão dos justos. E se a Europa persistir nesta combinação de presunção moral e preguiça estratégica, acabará a dar lições de direito internacional para plateias vazias, enquanto outros defendem os seus interesses vitais.

Há séculos que as potências marítimas sabem que os estreitos, as rotas, os portos e os mares são as vias de circulação do poder. Quem não os protege, acaba por ter de os mendigar. E quem, em nome de birras, posturas e pequenos rancores diplomáticos, hesita perante a neutralização de uma ameaça maior, em vez da paz escolhe apenas uma guerra futura, em piores condições. E aí pagará outra vez, com juros e humilhação, o preço de um paulatino deslize para a menoridade.