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Musical passa em revista 100 anos do Teatro Variedades e da vida de Lisboa

"Variedades (como uma ópera bufa erótica e satírica)" passa em revista a história do teatro Variedades e, através dele, da vida de Lisboa. Musical estreia a 8 Julho e fica em cena até 16 de agosto.

Agência Lusa
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O musical “Variedades (como uma ópera bufa erótica e satírica)”, a estrear-se em julho, celebra o centenário do teatro Variedades, em Lisboa, e pretende ser “um modo novo de fazer um musical”, disse à Lusa um dos seus autores.

“Variedades (como uma ópera bufa erótica e satírica)”, que passa em revista a história deste teatro do Parque Mayer e, através dele, da vida de Lisboa e do país, surgiu de uma proposta apresentada há cerca de três anos por Pedro Penin, diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, que apresentava na altura a sua programação no Teatro Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa.

A proposta foi feita a Fernando Heitor, Flávio Gil e ao compositor João Paulo Soares, concretizando-se este ano, quando o teatro completa 100 anos, depois de o atual diretor do Variedades, Joaquim René, ter revalidado o convite.

Os três autores trabalham juntos há vários anos, disse à agência Lusa Fernando Heitor, realçando “a cumplicidade muito, muito grande” que partilham. O mais recente projeto que criaram foi “Voltar a Casa”, levado à cena no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, para celebrar os 50 anos do Teatro Experimental do Funchal.

Os três já têm “muito conhecimento do assunto”, disse Fernando Heitor à Lusa, reconhecendo que ganharam tempo “para estudar muito mais”, desde a apresentação da proposta por Penin até à concretização do projeto, este ano.

Trata-se de uma equipa com experiência, reforçou Fernando Heitor, que fez a dramaturgia do musical “Passa Por Mim no Rossio” (1991), cuja direção musical e composição estiveram a cargo de João Paulo Soares. Quanto a Flávio Gil, por seu lado, “faz há anos revista no Teatro Maria Vitória”, na capital.

A história do Teatro Variedades “confunde-se” com a do espectáculo em Portugal, tendo aberto portas num ano de grandes movimentações políticas.

Em 1926, Portugal conheceu três presidentes e os militares desceram de Braga até Lisboa e levaram a cabo um golpe de Estado que instaurou a ditadura militar, abrindo portas a que, em 1933, se estabelecesse a ditadura do Estado Novo, com uma nova Constituição e um apertado mecanismo da Censura que afetou a atividade artística e teatral.

O Variedades testemunhou diferentes estéticas musicais e artísticas, que se refletiram nas revistas à portuguesa e nas comédias levadas à cena.

Politicamente, disse Fernando Heitor, o teatro assistiu ao Estado Novo, à II Guerra Mundial (1939-1945), ao “Marcelismo”, o período em que Marcelo Caetano liderou o Governo, e ao 25 de Abril de 1974.

“Ao falarmos do Variedades, falamos muito de Lisboa, dos alfacinhas e de Portugal”, disse.

Sobre o espectáculo, com cerca de duas horas, os autores criaram “dez personagens muito alfacinhas, da época da inauguração do teatro”, disse Heitor, referindo “que se dizia, de uma forma muito depreciativa, que o Parque Mayer tinha uma fauna muito especial, onde conviviam artistas, prostitutas, ladrões; era um mundo à parte, com os restaurantes abertos até altas horas da noite, com tertúlias, toda uma população que se dava bem”.

As dez personagens escolhidas são uma varina, um marujo, um ardina, um vendedor de coplas, um cauteleiro, uma menina da barraca de tiros, uma viúva rica, uma escritora, uma costureira e o dono de um restaurante “que ao longo dos anos vão desaparecendo, e que começaram a ir ao parque porque encontravam um certo aconchego”.

As personagens “têm a particularidade de serem todas órfãs, que se vão conhecendo e se tornam amigos; assistiram a todas as estreias do Variedades, ao longo de 100 anos, alguns morreram, mas, mesmo depois de mortos, continuam a ir às estreias do Variedades”, disse Fernando Heitor à Lusa.

“São eles que vão contando a história e reproduzem alguns números [cenas], canções”, relata. E alerta: “Atenção! Nunca vão fazer de Beatriz Costa ou de Laura Alves, são sempre as personagens que fazem de, ou entoam as canções”.

Fernando Heitor disse “não saber ainda bem como será o final” do espectáculo. Mas adiantou que o título escolhido — “Variedades (como uma ópera bufa erótica e satírica)” — “é quase irónico”, porque “nem é uma revista, um musical americano ou uma opereta”. É “ópera bufa porque se parodiam todos os géneros e se misturam”, argumentou.

“O que pretendemos é que não seja uma cópia de revista [à portuguesa]; é tentar criar um modo novo de musical”, afirmou, acrescentando: “Vamos tentar que as coreografias contrariem as coreografias da revista e que seja mais moderno — se é que moderno quer dizer alguma coisa….”.

O responsável pelas coreografias é “o jovem Guilherme Leal” que trabalhou com a companhia do Teatro Praga e, recentemente, fez parte da equipa que apresentou o espectáculo de tributo a Carlos Paredes, no Centro Cultural de Belém.

Os diferentes contextos políticos “são claros, não se esmiuçando”, explicou Heitor, referindo que a situação de 1926 é evocada através de uma canção e o 25 de Abril, por exemplo, através de um número de revista à portuguesa, que foi protagonizado por Dora Leal: “A vendedora de jornais” que apregoava “Olha o Avante já saiu da gaiola!”, referindo-se ao jornal do Partido Comunista Português que antes da Revolução dos Cravos circulava clandestinamente.

Para protagonizar este musical — “pois todos são protagonistas”, escolheram-se “atores que cantassem e dançassem”. E são eles Bernardo Souto, Bruno Madeira, Carlos Malvarez, Cátia Garcia, Flávio Gil, Maria João Luís, Miguel Raposo, Sandra Rosado, Teresa Zenaida e Wanda Stuart.

“Variedades (como uma ópera bufa erótica e satírica)” estreia-se no próximo dia 8 de julho, no Variedades, onde fica em cena até 16 de agosto.