Ao 34.º dia de guerra, Donald Trump e Masoud Pezeshkian falaram diretamente ao povo norte-americano. O primeiro através de uma declaração à nação, em que insistiu que o Irão está “dizimado”, que os objetivos do EUA estão perto de estar completados e em que ameaçou com ataques nas próximas semanas que vão levar o Irão “de volta à idade da pedra”. O segundo através de uma longa carta nas redes sociais, em que negou ver os cidadãos norte-americanos com “inimizade”, argumentou que o Irão nunca começou uma guerra e apelou a uma reflexão sobre os objetivos e as políticas da administração norte-americana.
Se a posição de Trump o tem distanciado de muitos dos seus aliados no Ocidente, a posição de Pezeshkian tê-lo-á afastado da Guarda Revolucionária, que tem bloqueado as decisões do Presidente, segundo a imprensa ligada à oposição. A Guarda Revolucionária, com a sua posição mais radical, controla agora o “conselho militar”, responsável pelas decisões diárias do país em tempo de guerra e o círculo interno do Líder Supremo, Mojtaba Khamenei.
Já Israel continua os ataques contra o Líbano e mantém a pressão sobre o Hezbollah. Com a possibilidade de Trump ditar o fim da guerra a pairar, o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita avisou que Telavive não se irá comprometer com que esta seja a “última guerra” que irá travar contra os “inimigos”. Para além dos ataques contínuos no Golfo e no Iraque, bases norte-americanas na Síria terão sido novamente alvo de ataques das milícias pró-regime iraniano no Iraque, mas o Presidente Ahmed Al-Sharaa recusa entrar na guerra sem o país ter sido diretamente visado.
Pode recordar os acontecimentos de terça-feira aqui.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo desta quarta-feira, dia 1 de abril:
No Irão
- Os ataques israelo-americanos visaram uma base de mísseis e um depósito de munições na província de Esfahan.
- O Exército israelita disse ter atingido “15 locais de produção de armas” ao longo desta quarta-feira.
- Um complexo de investigação na província de Teerão, onde eram produzidos materiais químicos fornecidos a organizações de tecnologia de ponta ligadas ao regime iraniano, foi bombardeado por Israel.
- Israel anunciou a morte de mais um comandante da Guarda Revolucionária, Mehdi Vafaei, responsável por desenvolver projetos com o Hezbollah no Líbano e com Bashar al-Assad na Síria.
- O centro de comando dos Estados Unidos (CENTCOM) relatou ter atingido 12.300 alvos desde o início da guerra e destruído mais 155 navios da Marinha iraniana.
- O Presidente norte-americano declarou que o “o novo Presidente do novo regime, muito menos radicalizado e muito mais inteligente” solicitou um cessar-fogo aos Estados Unidos, pedido que Donald Trump disse que só iria aceitar quando o Estreito de Ormuz reabrisse.
- O pedido de cessar-fogo foi desmentido pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, que classificou as declarações como “falsas e sem fundamento”.
- Na sequência das declarações de Trump, a Guarda Revolucionária declarou por sua vez que o Estreito de Ormuz permanece “de forma firme e dominante” sob controlo iraniano e que não será “aberto aos inimigos da nação pelas exibições ridículas do Presidente dos EUA”.
- O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, publicou uma longa carta nas cartas redes sociais, endereçada ao povo norte-americano, em que insta os norte-americanos a questionar as ações da administração Trump e declara que o Irão nunca começou uma guerra nem sente qualquer “inimizade” pelo povo dos Estados Unidos, da Europa, ou dos países vizinhos.
- A imprensa ligada à oposição iraniana relatou um acentuar das fricções entre a Guarda Revolucionária e Masoud Pezeshkian, com o poder militar a bloquear o acesso do Presidente ao Líder Supremo e muitas das suas decisões. Neste bloqueio político, as decisões estarão a ser tomadas por um conselho militar, composto por comandantes sénior da Guarda.
- A crise política também estará a fazer-se sentir dentro do círculo próximo do Líder Supremo Mojtaba Khamenei, composto por comandantes da Guarda Revolucionária que procuram afastar do gabinete do Líder Supremo vozes da oposição.
- As Nações Unidas avançaram que 2.345 pessoas já foram detidas por terrorismo, espionagem ou dissidência desde o início da guerra, à medida que o regime continua a alargar as operações de segurança interna.
- Mais de 115 mil instalações civis, incluindo casas, hospitais e centros de ajuda, já foram danificados pelos ataques israelo-americanos contra o Irão, relatou o Crescente Vermelho, que nota que a maior parte dos danos se verificam em Teerão.
Em Israel e no Líbano
- O Irão lançou um dos maiores ataques contra Israel desde o início da guerra, com múltiplas vagas de ataque com dez mísseis.
- Em Bnei Barak, 14 civis ficaram feridos depois de munições de fragmentação terem atingido o centro de Israel.
- O Hezbollah disse ter lançado 71 ataques contra as forças israelitas no sul do Líbano e as comunidades do norte de Israel. Dois desses ataques terão sido levados a cabo com drones FPV (first person view em inglês), mas o grupo não partilhou as imagens.
- Os Houthis também lançaram um ataque com mísseis balísticos contra o sul de Israel, declarando que o ataque foi coordenado com o Hezbollah e o Irão.
- O Exército israelita reclamou a morte de um comandante do Hezbollah, responsável pelo combate do grupo armado no terreno, no sul do país.
- Os ataques israelitas atingiram dois pontos de câmbio em Beirute com ligações ao Hezbollah.
- Uma nova unidade do Exército israelita juntou-se à ofensiva terrestre no sul do Líbano, com a responsabilidade de destruir pontos de observação e depósitos de armas.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel declarou que o país continuará “vigilante dos esquemas dos inimigos”. “Não prometemos que esta vá ser a nossa ‘última guerra‘”, avisou Gideon Sa’ar.
- Paris denunciou uma “intimidação absolutamente inaceitável” das tropas francesas de manutenção da paz no Líbano e apoiou o pedido da Indonésia à ONU para uma investigação à morte de três capacete azuis no país.
- A ofensiva israelita contra o Líbano já matou 1.318 pessoas e feriu 3.935, segundo os números mais recentes do Ministério da Saúde libanês.
No Golfo
- Pelo segundo dia consecutivo, o Irão atacou um navio civil no Estreito de Ormuz. O petroleiro AQUA 1, com bandeira do Panamá, mas de uma empresa estatal do Qatar, foi atingido com um míssil ao largo da costa qatari.
- Outros dois mísseis de cruzeiro foram intercetados pelo Qatar, relatou o Ministério da Defesa.
- No Bahrain, um edifício de uma empresa não especificada foi atingido por um ataque iraniano.
- O Ministro da Administração Interna do Bahrain deu conta da interceção de 19 drones e 4 mísseis balísticos ao longo de todo o dia.
- Os Emirados Árabes Unidos (EAU) intercetaram 35 drones e cinco mísseis balísticos.
- No Kuwait, foram intercetados três mísseis de cruzeiro e 15 drones, segundo as Forças Armadas do país.
- Já a Arábia Saudita disse ter intercetado três drones no país.
No resto do mundo
- A Força Aérea britânica relatou a interceção de pelo menos 10 drones iranianos em vários pontos do Médio Oriente, sem apresentar detalhes sobre onde foram levadas a cabo essas missões defensivas.
- Um comandante e pelo menos três combatentes das Forças de Mobilização Popular (PMF), uma das milícias iraquianas pró-Irão, foram mortos num ataque israelo-americano.
- Registaram-se novos ataques de outras milícias iraquianas contra o aeroporto de Bagdade e as instalações diplomáticas no local.
- As milícias iraquianas lançaram ainda ataques contra uma infraestrutura industrial britânica no Iraque, uma base militar na Síria e 41 ataques contra bases norte-americanas no Iraque.
- Donald Trump fez uma declaração ao país sobre a guerra no Irão. Ao longo de 19 minutos, o Presidente reiterou que o Irão está “dizimado”, que os objetivos dos EUA estão “perto de estar completos” e que a guerra terminará “em breve”. E deixou um aviso: “Vamos atingi-los de forma extremamente dura nas próximas duas a três semanas”, prometendo levar o Irão de volta para “a idade da pedra”.
- Noutras declarações, Trump voltou a criticar os aliados pelo diz ser a falta de apoio no Médio Oriente e disse aos líderes preocupados com o aumento do preço dos combustíveis: “Vão buscar o vosso próprio petróleo“.
- O Presidente sírio reforçou que a Síria não tem qualquer intenção de se juntar à guerra, exceto se for diretamente visada. “Não vamos juntar-nos se não formos sujeitos a isto e não houver uma solução diplomática”, declarou Ahmed al-Sharaa, num evento em Londres.
- A Agência Internacional de Energia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial anunciaram a criação de um grupo de coordenação para responder à crise energética e económica mundial causada pela guerra no Médio Oriente.