(c) 2023 am|dev

(A) :: "Vemos um lindo nascer da Lua e vamos ter com ela". Artemis II descolou sem problemas e dá início a uma nova era de exploração espacial

"Vemos um lindo nascer da Lua e vamos ter com ela". Artemis II descolou sem problemas e dá início a uma nova era de exploração espacial

Quatro astronautas partiram esta quarta-feira a caminho da Lua. Dois problemas técnicos ameaçaram lançamento, mas o foguetão SLS e a cápsula Orion descolaram e começaram a "grande viagem" de 10 dias.

Martim Andrade
text

E assim começou oficialmente a próxima grande viagem da humanidade. Esta quarta-feira, dia 1 de abril, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, os astronautas da missão Artemis II, partiram com destino à Lua e começaram um percurso que não é feito há mais de 50 anos. Vão ser, aliás, os humanos que viajaram mais longe da Terra, e aqueles que vão passar mais perto da superfície lunar desde a Apollo 17, em 1972.

A descolagem aconteceu 10 minutos após a abertura da janela de lançamento pelas 23h35 em Lisboa, 16h35 no Kennedy Space Center, em Cape Canaveral, na Flórida, onde milhares de pessoas se juntaram para assistir à segunda descolagem daquele que é “um dos foguetões mais poderosos de sempre”. Foi a bordo da cápsula Orion e à boleia do Space Launch System (SLS) que estes quatro astronautas iniciaram a missão de dez dias em torno da Lua, que abre as portas de uma nova era de exploração espacial — e que vai culminar na construção de uma base lunar.

“Vemos um lindo nascer da Lua e vamos ter com ela”, afirmou o comandante Reid Wiseman, poucos minutos após terem levantado voo. Esta não será a tripulação norte-americana que vai alunar. Essa responsabilidade vai recair sobre a equipa de astronautas que será escolhida a dedo para compor a missão Artemis IV, que será lançada na primeira metade de 2028. Ainda assim, esta missão vai ditar o sucesso — e, talvez, o futuro — do programa espacial dos Estados Unidos da América.

Como definiu o administrador da NASA alguns instantes antes do lançamento, a Artemis II é apenas o “ato de abertura”. Mas será também o primeiro voo tripulado a bordo do SLS e da cápsula Orion, com os quatro astronautas a ir “para mais longe no Espaço do que qualquer ser humano já foi”. Como tal, este “voo teste” vai servir para determinar se os sistemas estão aptos para missões mais ambiciosas — como será o caso da caminhada lunar prevista para daqui a dois anos. Mas, até lá, Wiseman, Glover, Koch e Hansen vão estar os próximos dez dias a trocar a órbita terrestre pela lunar até eventualmente voltarem à Terra na próxima semana.

“Pela humanidade”, NASA teve de resolver problemas de última hora antes do lançamento

Não podia ser um momento histórico sem o nervosismo provocado por um par de problemas técnicos que, por instantes, colocaram toda a missão em causa. Faltava cerca de uma hora e meia para abrir a janela de lançamento, quando o centro de controlo de missão da NASA detetou o primeiro entrave. Um problema de comunicação entre a estação terrestre e o Sistema de Terminação de Voo (Flight Termination System, em inglês) chegou a fazer os especialistas admitirem um adiamento do lançamento.

Trata-se de um sistema de segurança que prevê a destruição automática do foguetão caso este mude de direção subitamente ou represente uma ameaça de segurança de forma descontrolada. Num cenário normal, este sistema utiliza explosivos que são armados minutos antes do lançamento — medida de proteção para as pessoas no terreno, sendo controlado remotamente. Durante 20 minutos, não se soube se o lançamento iria ocorrer como previsto. Mas a atualização vinda do centro de controlo chegou. E foram boas notícias.

A luz verde regressou ao painel dos responsáveis pela supervisão da segurança durante e após a descolagem, depois de a equipa de engenheiros ter identificado o problema, que foi resolvido “com equipamento que foi utilizado originalmente para comunicar com o Space Shuttle”. E, assim, a menos de uma hora do momento esperado por milhões de pessoas, o caminho até ao lançamento voltou ao previsto. Porém, tal como este episódio, não tiveram de esperar muito tempo até descobrirem uma nova situação que obrigou toda a atenção dos responsáveis.

Desta vez foi o sistema incorporado na cápsula para abortar o lançamento (LAS, Launch Abort System) — uma segunda camada de segurança, com os próprios motores, caso seja necessário ejetar a tripulação do foguetão. Estavam em causa as temperaturas registadas por uma das baterias deste sistema. Na transmissão ao vivo do lançamento, a NASA garantiu que o problema, naquela altura, não colocou o lançamento em risco. De facto, esta questão só viria a ser verificada, de acordo com o protocolo de lançamento, nos últimos dez minutos antes da descolagem. Contudo, se houvesse algum problema nessa altura, a operação histórica teria de ser adiada. Felizmente para a NASA, os engenheiros conseguiram detetar a origem deste obstáculo e resolvê-lo com alguma margem antes do período delineado.

Assim, com o foguetão e a nave livre de ameaças detetadas em Terra, o protocolo de lançamento dita que é necessário receber a mensagem “It’s a Go” de todos os postos de controlo envolvidos na missão. Desde o Johnson Space Center, em Houston, onde se acompanha o voo, até aos diferentes centros no Kennedy Space Center que se responsabilizam pelas várias componentes do engenho que iria transportar os quatro astronautas até à Lua. Não basta uma confirmação, no entanto. A diretora de voo, Charlie Blackwell-Thompson, precisava de receber a luz verde três vezes de cada um destes responsáveis.

E assim foi. O relógio de lançamento esteve parado durante alguns minutos, a aguardar as confirmações, mas começou a contagem final, os últimos 10 minutos até à descolagem, depois de receber o parecer tanto do administrador da NASA, como da tripulação. “Vamos, pelas nossas famílias”, declarou o piloto Victor Glover. “Vamos, pelos nossos colegas de equipa”, afirmou a especialista de missão Christina Koch. Vamos, pela humanidade”, completou Jeremy Hansen”.

Depois da luz verde vinda do cockpit da Orion — a última que precisava — Charlie Blackwell-Thompson transmitiu uma mensagem personalizada à tripulação que vai seguir rumo à Lua: “Reid, Victor, Christina e Jeremy, nesta missão histórica, levam convosco o coração desta equipa Artemis, o espírito ousado do povo americano e dos nossos parceiros em todo o mundo, bem como as esperanças e os sonhos de uma nova geração. Boa sorte, boa viagem, Artemis II. Vamos lá”. E, na sequência da contagem decrescente “Three, two, one. Liftoff“, lá seguiram os quatro astronautas rumo à Lua.

“Depois de uma breve interrupção de 54 anos, a NASA está de volta”

A descolagem aconteceu cerca de 10 minutos após o esperado, mas todas as operações decorreram exatamente como havia sido planeado meses antes. Desde a separação dos propulsores até à mudança para a órbita terrestre alta tudo aconteceu sem qualquer problema. À exceção de uma breve interrupção da comunicação entre a Orion e o centro de controlo em Houston, em que os astronautas conseguiam ouvir os especialistas em Terra, mas os responsáveis não tinham acesso às respostas da tripulação — passados alguns minutos também se resolveu.

Troubleshooting, ou seja, resolução de problemas em português, será talvez o termo mais repetido durante estes primeiros dois dias de viagem. Pequenos problemas são “esperados”, como referiu Lori Glaze, administradora adjunta do Departamento de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da NASA, na conferência de imprensa após o lançamento. E é por isso que este é um voo de teste, para testar todo o tipo de sistemas e de falhas que eventualmente possam acontecer, para depois fazer-se o troubleshooting e arranjar uma solução para garantir que não se voltam a repetir nos próximos voos daqueles aparelhos.

Norm Knight, o responsável pelo departamento de Operações de Voo da agência espacial norte-americana, explicou que nestes dois dias, “a tripulação não vai ter vontade de comer”, pelo elevado ritmo de trabalho, mas também pela transição de um ambiente com gravidade, para aquele em que estão agora, de microgravidade. “O dia de subida é muito duro, tanto fisiologicamente, como em termos de carga de trabalho”, confessou o diretor. No entanto, se surgir um apetite nestes primeiros instantes, garante que a equipa tem “snacks” à sua disposição.

“Os astronautas estão bem, em segurança e muito animados”, revelou Jared Isaacman, o administrador da NASA que, apesar de admitir que existem desafios relacionados com a inauguração da cápsula com uma tripulação, diz que “já passaram por isto antes” e “conhecem bem os desafios”. “Depois de uma breve interrupção de 54 anos, a NASA está de volta”, declarou o administrador.

Testar equipamentos, tirar fotografias e descansar pouco. Como serão os 10 dias de missão?

Os dois primeiros dias são, efetivamente, os mais movimentados. Nestes primeiros instantes, a tripulação está focada em testar os sistemas como o dispensador de água potável e a sanita — que também já envolveu muito troubleshooting para começar a funcionar em condições. Enquanto o piloto e comandante começam a ganhar controlo da Orion que, após a separação do módulo superior do foguetão SLS, fica ao comando do astronauta Victor Glover. Os especialistas de missão preparam a cápsula para a transformar num espaço de trabalho — e de coabitação — para estas quatro pessoas que lá vão morar durante os próximos 10 dias.

O primeiro sono só chegará após cerca de oito horas e meia de viagem. Será curto, tendo de acordar quatro horas depois, para poder reajustar a trajetória da nave de modo a estar na localização correta para a “injeção translunar”, a ativação dos motores europeus da cápsula para começar a rota para a Lua no segundo dia. Também vão aproveitar para testar o sistema de comunicação de emergência no ponto mais afastado da órbita terrestre, antes de voltar a dormir durante outras quatro horas e meia e terminar o primeiro dia oficial de voo.

Para começar o segundo dia de viagem, o comandante e o piloto vão testar o dispositivo “flywheel” — o “ginásio” a bordo da Orion para garantir que os quatro astronautas não regressam à Terra com os músculos atrofiados. Será durante esta manhã que vão fazer os últimos preparativos para a aceleração até à Lua que também os irá colocar na rota desejada para voltar à Terra uma semana depois. Após a injeção, o dia será “mais leve”, com espaço para a tripulação se adaptar ao ambiente espacial e, também, participar numa chamada por vídeo com a equipa em Terra.

A partir daqui, os dias passam a ser menos intensos (dentro do possível, claro, não esquecendo que vão a caminho da Lua). No terceiro dia, vão estar atentos para qualquer correção de trajetória que seja necessária, mas também testar os equipamentos médicos a bordo — e um ensaio para a observação científica que vão fazer uns dias mais tarde. O quarto dia terá os mesmos objetivos, mas com cerca de 20 minutos dedicados para captar imagens de corpos celestes a partir das janelas da Orion.

A chegada à zona de influência da Lua será no quinto dia de viagem, numa altura em que a força da gravidade lunar será mais forte que a da Terra. O dia está reservado para testes dos fatos espaciais com que entraram no foguetão, que estão desenhados para garantir a sua proteção num caso de emergência. Vão testar a pressurização dos fatos, o processo de alimentação com o uniforme vestido e várias outras funcionalidades. Como mencionado, o sexto dia de viagem será o grande momento de observação lunar. Vão passar a cerca de 6.500 quilómetros da superfície lunar e, neste instante, vão perder comunicações com a Terra.

O sétimo dia de viagem vai assinalar a saída da zona de influência da Lua, mas também terão um dia livre, com oportunidades para descansarem antes da longa viagem de regresso até à Terra. O dia seguinte terá como foco determinadas demonstrações da cápsula Orion. A primeira serão as suas capacidades de proteção de eventos de elevada radiação, mas também as capacidades de pilotagem manual. O nono dia será o último dia completo no Espaço, onde terão oportunidade de estudar o protocolo de reentrada na atmosfera terrestre e o momento de splashdown.

No décimo e último dia de missão, a tripulação tem um objetivo único: chegar a casa em segurança. Isto envolve corrigir a trajetória, regressar à configuração inicial da Orion, vestir os fatos espaciais e preparar-se para o regresso à Terra numa aterragem no Oceano Pacífico.