Em Portugal, de acordo com o estudo realizado em 2023 pelo Observatório Género, Trabalho e Poder, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), as mulheres representam 28,39% do total de profissionais nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM), e cerca de 22,22% na área das Tecnologia de Informação (TIC). Estes números demonstram que o desafio não está apenas no acesso à formação, mas sobretudo na permanência, progressão e reconhecimento das mulheres nestas áreas.
No mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, é fazer notar a importância em afirmar com toda a clareza: não existe qualquer diferença de capacidade entre géneros no que toca a competência, talento e a aptidão para o conhecimento. Aquilo que existe são perceções enraizadas, expectativas sociais e, muitas vezes, ausência de referências femininas visíveis que permitam às jovens projetarem-se nestas carreiras.
Durante a minha experiência na Natixis e em projetos como a Stand4Good, tenho acompanhado de perto a evolução do setor tecnológico e a forma como se transformou profundamente nos últimos anos. Atualmente, o setor integra mais de duas centenas de profissões diferentes, com necessidades técnicas, analíticas, criativas e relacionais muito diversas. No entanto, persiste uma barreira cultural que associa tecnologia a um perfil muito específico e que continua a colocar as mulheres numa posição de exceção.
É neste contexto que, a meu ver, a mentoria feminina em CTEM assume um papel absolutamente determinante. Os programas de mentoring não servem apenas iniciativas simbólicas. São, efetivamente, instrumentos concretos de transformação. Mais do que transmitir conhecimento técnico, estas iniciativas oferecem uma visão próxima de uma carreira bem-sucedida, permitindo que as jovens reconheçam que o talento e a dedicação são valorizados independentemente do género. Fazem a diferença entre uma jovem sentir que o seu talento é válido, e entre manter o desejo em ter uma carreira em CTEM ou não. Refletindo na minha própria experiência, estou convicta de que o apoio incondicional dos meus pais foi fundamental para que pudesse seguir este caminho, sem limitações impostas por estereótipos, e que o mesmo teve um impacto decisivo no meu percurso.
Além de inspiração, a mentoria permite o desenvolvimento de competências valorizadas no setor na qual muitas mulheres destacam-se pela sua resiliência, capacidade de gestão e multitasking, sensibilidade e competência em relações interpessoais. Estas qualidades complementam o conhecimento técnico e tornam a sua contribuição única em projetos complexos, seja na interação com clientes ou na coordenação de equipas multidisciplinares. O reconhecimento valorização das seguintes competências desde cedo não apenas aumenta a confiança das jovens, como também melhora a dinâmica e os resultados das organizações.
Para as empresas, apoiar programas de mentoria não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas sim uma forma de se posicionarem como espaços que escutam e valorizam as novas gerações. O investimento no desenvolvimento dos talentos femininos irá contribuir para a criação de ambientes mais inclusivos e estimulantes, contribuindo para a difusão do princípio da meritocracia e pelas competências que demonstram.
Devemos ser capazes de assumir a responsabilidade e garantir igualdade de oportunidades. Na Natixis, essa é uma prática estruturante: não distinguimos talento com base no género, mas sim com base no contributo e no desempenho. A inclusão das mulheres em CTEM não é apenas uma questão de justiça social. É uma questão de competitividade, inovação e sustentabilidade. As empresas que promovam essa diversificação, permitem o desenvolvimento do pensamento crítico e maior partilha de perspetivas distintas, conduzindo a decisões mais robustas, reflexões mais aprofundadas e uma maior quantidade de oportunidades geradas.
A igualdade de oportunidades é um caminho que tem início muito antes da entrada no mercado de trabalho. Começa em casa, quando as famílias não limitam sonhos das crianças e incentivam, sem exceção, a curiosidade e a exploração de todas as áreas do conhecimento. Continua na escola, onde é urgente consolidar uma mudança de mentalidades que garanta que todas as escolhas não só são possíveis, como igualmente valorizadas. E ganha escala nas empresas, que têm a responsabilidade de transformar intenção em ação. Porém, a verdadeira mudança mede-se, acima de tudo, ao nível da sociedade: só quando todos assumirmos o nosso papel ativo é que conseguiremos, de forma consistente, construir um futuro verdadeiramente inclusivo.