O mar ao fundo e o sol do último dia de março. Num ano normal os bares e restaurantes da linha da Praia da Vieira já estariam cheios de turistas para aproveitar as mini-férias da Páscoa, preparados para um fim de semana prolongado. Mas há dois meses que o rumo para este cenário de verão antecipado mudou radicalmente. Agora, o primeiro bar que se vê na chegada à marginal é uma estrutura de madeira sem nada lá dentro.
Daniela e Romeu, os donos do Sun7, onde antes se podia beber um copo ao final da tarde ao som de música ao vivo, dão o projeto que tinham há menos de dois anos como praticamente perdido depois dos efeitos da tempestade Kristin lhes ter arrasado o investimento que fizeram quando regressaram a Portugal.
Antes, tinham estado dez anos emigrados em França. O desejo era voltar a casa e foi naquele negócio à beira mar que aplicaram as poupanças do tempo que passaram lá fora. “Perdemos o investimento de uma vida”, admite a dona e gerente.
Falam no local que antes servia de esplanada do bar, sem vedação e ainda com resquícios dos destroços. Ao lado estão os restantes espaços, a cozinha e a parte interior do bar, sem telhado, quase sem paredes. Agora está tudo vazio, ao contrário do que acontecia há dois meses, quando o recheio estragado ainda se encontrava no local. De eletrodomésticos a mobiliário, a passar pelo stock, tudo o que estava dentro do estabelecimento foi perda. Romeu contabiliza o prejuízo total a rondar os “200 mil euros”.




O casal começou por pedir orçamentos para a reconstrução de “estruturas mais humildes” para terem hipótese de recompor o espaço a tempo do verão, mas para isso precisavam de um empurrão. Depois de terem aplicado as poupanças a abrir o espaço, sobrou pouco e esse pouco não chega para terem uma hipótese de se reerguer.
Seguro não existe, porque dizem que nunca conseguiram que uma seguradora aceitasse uma apólice com cobertura de danos provocados por vento e chuva. Apoios do Estado? “Os bancos dizem que não é uma empresa viável em termos de números”, afirma Daniela, que lamenta os critérios para recorrer aos auxílios financeiros às empresas anunciados pelo Governo.
“Os apoios que estão disponíveis são, no fundo, créditos bancários e essas linhas de financiamento estão a ser tratadas como se fossem um crédito normal“, revela, tendo em conta o que lhe foi comunicados nas últimas semanas. “Os critérios passam muito pelas contas e se tivemos um mau ano por alguma razão já não se fica elegível”, acrescenta.
O único apoio a que recorreram foi mesmo o lay-off, para os dois funcionários que mantinham todo o ano. Durante a época alta, chegavam a ter trabalho para até dez funcionários.
O casal de ex-emigrantes que regressou a Portugal tem ouvido “não atrás de não” das instituições bancárias e o cerco aperta para tomar uma decisão final. Se não conseguirem qualquer tipo de apoio admitem que vão ter de se “resignar”, por não ter capital próprio para reerguer o negócio. “Temos de nos resignar nós e o Estado terá de se resignar a ter um fantasma como vitrine desta praia“.
“Achámos que ia haver uma mudança depois do que aconteceu no Pedrógão, mas afinal é mais do mesmo”, lamenta Daniela. “A economia local está de rastos, vai estar mais e penso que o Estado e os autarcas só se vão aperceber quando ela cair”, afirma.
As filhas de Daniela e Romeu criaram uma angariação de fundos no Go Fund Me para ajudar o negócio da Praia da Vieira. O valor que recolheram não chega sequer para pagar o desmantelamento do espaço. “A positividade infelizmente já a perdemos“, dizem, recordando a montanha russa de emoções das últimas oito semanas. Com dias de esperança primeiro. Depois chegaram aqueles em que começaram a pesquisar o preço de contentores para retirarem o material do que, para já, ainda mantém o seu bar de pé.
O primeiro dia da reconstrução: Leme corre em contrarrelógio para abrir no início da época balnear
A poucos metros, Bianca e a mãe tiram com pás e enxadas a areia acumulada na estrutura do Leme. É o bar-restaurante que se segue na linha de praia. Há dois meses, quando por lá passámos, estava completamente destruído, com o recheio danificado e exposto à chuva depois de a estrutura do edifício ceder à força dos ventos de mais de 200 km/h. Hoje não está radicalmente diferente, mas esta terça-feira foi o dia um da reconstrução.
A corrida contra o tempo começou. Hugo, o sócio-gerente do espaço, diz que foi informado pela Câmara Municipal da Marinha Grande que as concessões teriam de estar “prontas a funcionar e a ser vistoriadas a 31 de maio, duas semanas antes de 13 de junho”, sendo esta a data marcada para o início da época balnear naquela praia.
Há quatro concessões na Praia da Vieira, que além de terem autorização de exploração de um espaço de restauração e bar têm obrigações que são ao mesmo tempo despesa. Têm de garantir a vigilância da área da praia que exploram: cada uma fica responsável pela contratação de dois nadadores salvadores durante a época balnear (num custo aproximado de 11 mil euros). E têm ainda de garantir a manutenção dos pontos de lixo e que há casas de banho abertas das 10h00 da manhã às 20h00 da noite.


“Da Câmara, dizem que não querem nada ‘atamancado’ e querem tudo nas devidas condições até 13 de junho. Já perguntei ao senhor presidente, se nós ainda não estivermos a trabalhar, quem é que paga os nadadores salvadores!?”, critica a mãe de Hugo, que trabalha como cozinheira no local. Chegou mesmo a questionar a autarquia sobre a possibilidade de garantirem este ano os nadadores salvadores. A resposta, pelo menos para já, foi a de que não era uma hipótese.
O sócio-gerente do Leme diz mesmo que a Praia da Vieira é a única, ao lado das “praias da Figueira da Foz, da Nazaré e de Leiria”, em que são os concessionários e não a autarquia a acarretar com o custo dos nadadores-salvadores. “Somos nós que seguramos a praia”, diz.
Hugo conseguiu arrancar com a reconstrução, depois de aderir a uma linha de crédito do Banco de Fomento. “Pedimos 100 mil euros ao banco e vamos pagar 21 mil euros de juros”, detalha. Do seguro não recebeu dinheiro nenhum, mas poucos dias depois da intempérie lhe levar a maioria do negócio, a seguradora cancelou-lhe a apólice. Espera receber o valor do sinistro registado antes disso, até porque conta com ele para abater o empréstimo — mesmo assim, fica depois sem rede — se não conseguir acordo com uma seguradora, uma nova tempestade pode vir a significar novo prejuízo.
Tanto Hugo como os restantes exploradores das concessões de praia ouvidos pelo Observador apelam à necessidade de reforçar a legislação para que as seguradoras não possam recusar seguros contra danos provocados por vento e chuva.
O empresário vai repor vitrines de peixe e a totalidade dos eletrodomésticos — tudo o que ficou dentro da estrutura já deu como perdido há várias semanas, depois de quase tudo ter apanhado água da chuva ou com o próprio teto e vidros em cima.
O peixe, esse, vai continuar a chegar, a partir do dia em que reabrir ao público, dos barcos que Hugo explora na Nazaré. Para já, quem chega à Praia da Vieira e quiser comer ou beber com vista mar, só tem uma opção, o restaurante do lado.
“As pessoas junto ao mar são mais resilientes”. O restaurante que já abriu na linha da Praia da Vieira
A vista de quem almoça dentro do Naufrágil para a praia está baça. Os vidros parecem sujos, mas José Lucas, proprietário do único bar da linha de praia que resistiu à intempérie, o Naufrágil, faz questão de garantir que não é falta de brio na limpeza. “A pressão da areia foi tal na noite da tempestade que eles ficaram manchados e já não sai”.
Depara-se agora com um problema, no momento em que o seguro fez a vistoria ao local não tinha percebido que era mais do que sujidade. Por isso, o dano não ficou registado no sinistro e agora deve ficar à sua conta. É um dos proprietários que tinha conseguido um seguro e para já ainda o mantém.
Depois de um serviço de almoço com cerca de sete mesas para servir sobretudo peixe grelhado, José senta-se à mesa para fazer um ponto de situação desde a última vez que falámos, há dois meses. “Reabrimos há duas semanas, tentámos recuperar o mais rapidamente possível para abrir portas“, conta. Para isso teve de recuperar parte do telhado e o teto falso, avançado o dinheiro sem ter certezas de que vai receber do seguro ou dos apoios do Estado.
“É muito fácil falarem na televisão, é uma maravilha dizerem que passado três dias o dinheiro está na conta, mas este é o país das burocracias e andamos toda a vida nisto”, lamenta. Recorreu ao apoio à manutenção dos postos de trabalho dos funcionários, que agora já voltaram às suas funções habituais — na cozinha, grelha e serviço de mesa. Esse apoio sabe que foi diferido.




Para já, vê com sentido de urgência a manutenção da praia, ainda para mais com o prazo de 31 de maio a aproximar-se a passos largos. “Têm de se mexer mais”, apela, além da areia que é preciso tirar da zona junto à estrada, que neste momento galga vedações e áreas comuns. Há também muito lixo, paus, árvores e é preciso assegurar que se diminui o risco de os banhistas terem de lidar com vidros no areal — muitas janelas e materiais do recheio dos bares podem ter lá ido parar durante e depois da tempestade.
No Naufrágil falta substituir as janelas de vidro duplo que se partiram ou racharam do lado de fora e arranjar a esplanada que está sem vedação, mas José recusa voltar a fechar a casa para fazer essa parte da reconstrução.
“Vamos fazendo aos poucos, nem que se tenha de substituir um vidro em cada dia”. Cada dia conta, depois de um mês e meio de portas fechadas, e um verão antecipado que pode dar alento ao negócio que sobreviveu no meio da tempestade. José conta já com a temporada da Páscoa para começar a recuperar o fôlego, mas não tem dúvidas de onde lhe vem a força: “As pessoas junto ao mar são mais resilientes.”
Com fim de semana prolongado à porta, a Páscoa “está mais fraca” no principal hotel da praia
Parte da clientela que chega ao Naufrágil fica hospedada a poucos metros dali: no Hotel Cristal Vieira Praia. É a principal estância hoteleira a servir a Praia da Vieira de Leiria e reabriu mesmo a tempo de hospedar turistas durante o fim de semana prolongado. “A Páscoa está mais fraca que no ano passado“, admite Francisco Almeida Gomes, dono e administrador da unidade hoteleira de quatro estrelas.
Equaciona que as pessoas não olhem para a Vieira como um destino tão apetecível precisamente por causa do que lá se passou e das marcas que ainda podem ser visíveis. Dentro do edifício principal do hotel já é difícil encontrar sinais dos danos que a intempérie causou. É Francisco que tem de ir apontando: um elevador que levou com uma varanda não tem arranjo e vai ter de ser substituído e o som do berbequim durante poucos minutos também denuncia os trabalhos que ainda estão em curso.
As zonas de spa e o parque aquático integrados dentro da instância — que tem como público alvo famílias, funcionando exclusivamente em regime de all inclusive no verão — estão ainda a ser arranjadas. Os hóspedes que fizeram reserva para o fim de semana da Páscoa foram avisados de que não teriam acesso às piscinas, uma das zonas mais afetadas, mas Francisco adianta que, com o trabalho de várias empresas em contrarrelógio, poderá ter a obra finalizada esta sexta-feira, mesmo a tempo da maior taxa de ocupação que registou nos últimos tempos, já que fevereiro e março foram de encerramento.


Recorreu a empresas e fornecedores de outras zonas do país, do norte, por exemplo, já que a maioria dos negócios locais foi afetada. “Acho que o tecido empresarial vai demorar muito tempo a recuperar aqui em Leiria e há algum que não vai sequer recuperar”, lamenta, atirando parte da responsabilidade para o Estado. “Veio para a televisão e para a imprensa dizer que criou apoios, mas não estão a funcionar”, garante o empresário, e atira depois às seguradoras.
“Os administradores das empresas de seguros em Portugal gostam no verão de ir tomar um café e um gelado com os pés na praia, mas quando chega a hora de fazer seguros não querem correr riscos”, ironiza. De um modo geral, considera que as seguradoras também não estão a dar a resposta adequada à calamidade. “Deveriam ter adiantado no mínimo 20 a 25%”.
À semelhança dos relatos que o Observador recolheu na Marinha Grande e Leiria, também Francisco Almeida Gomes diz que apenas um dos instrumentos criados para apoiar as empresas afetadas pela tempestade está neste momento a funcionar. “A linha de investimento e recuperação não está a funcionar”, garante. “A única que está a funcionar é a dos apoios à tesouraria, mas com limitações”, assegura.
“Portugal é tão pequenino, seria tão fácil de gerir se não houvesse tanta burocracia e tantos entraves e, às vezes, alguma má vontade”, refere ainda, acrescentando que, depois de falar com dois diretores de agência bancárias em Leiria, concluiu que as operações que estão para despacho no Banco de Fomento estão completamente paradas. “Enquanto isto não for desbloqueado vai ser uma chatice porque as pessoas não têm capacidade“, apontando o caso do Sun7, que o deixa preocupado por Daniela e Romeu não terem capital para investir.
“É mau para o país, mas sobretudo para a região, vai criar condições de vida piores, desemprego e muitas situações complexas. Se [na região de Leiria] representamos 17% da PIB nacional, não percebo porque é que o Estado não está em cima da situação”, lamenta.