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(A) :: Viva o fogo não institucional!

Viva o fogo não institucional!

O Estado, ao perseguir e regulamentar excessivamente, é co-responsável por haver 94% de área ardida em alturas especialmente desfavoráveis à gestão sensata da paisagem.

Henrique Pereira dos Santos
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Conheço o actual Secretário de Estado das Florestas há pouco mais de dez anos.

Conheci-o na altura em que estive envolvido na fundação da Montis, uma associação de conservação da natureza de que fui o primeiro presidente, com sede em Vouzela, onde Rui Ladeira era, então, Presidente de Câmara.

Sempre tivemos (e temos) relações cordiais e a Montis tem uma dívida relevante para com Rui Ladeira, pelo apoio que lhe deu no início, em especial pela disponibilização de instalações para uma sede.

Sempre tivemos divergências em relação a alguns assuntos, nomeadamente, para o que agora interessa, em relação ao uso do fogo.

Rui Ladeira é engenheiro florestal de formação, mas nunca mostrou qualquer apreço ou interesse pelo trabalho de gestão de terrenos da Montis fazia, usando o fogo como uma das principais ferramentas de trabalho.

Logo depois dos grandes fogos de Outubro de 2017, em que Vouzela foi dos concelhos mais afectados, incluindo a morte de pessoas, Rui Ladeira pediu-me, e a mais meia dúzia de pessoas, sugestões para a gestão do pós-fogo.

Lembro-me de ter sugerido que, depois de um fogo com a intensidade e extensão como a que tinha ocorrido, o que me parecia mais razoável e sustentável, era tirar partido de ter a paisagem com os caminhos, mesmo os caminhos antigos abandonados, e os muros, mesmos os muros antigos e abandonados, bem visíveis.

Esta circunstância tornava especialmente barato e fácil manter linhas de contenção de fogos com o trabalho dos sapadores, para preparar um extenso programa de fogo controlado em células definidas previamente, a executar a partir do quarto ou quinto ano pós fogo, quando a acumulação de combustível já permitisse a execução de acções de fogo controlado.

Desta forma, em vez da actual acumulação de combustível que vai alimentar grandes fogos de Verão, teríamos uma gestão do fogo em mosaico, através de fogos menos intensos, que iam consumindo os combustíveis finos, matando os grandes fogos à fome, em vez de os tentar afogar, para usar a feliz expressão de José Miguel Cardoso Pereira.

Mais tarde, já eu não era presidente da Montis, Rui Ladeira usou a sua influência para alterar uma opção de gestão num terreno gerido pela Montis, que vinha a ser preparado para um fogo controlado, disponibilizando sapadores florestais para o insano e insustentável trabalho de gestão moto-manual de combustível, como alternativa ao uso sensato e sustentável do fogo.

Não me admira, por isso, a resistência, que se vem mantendo de governos anteriores, em relação à gestão do fogo pelo fogo: mesmo quando a realidade vem impondo a defesa cada vez mais clara do uso do fogo na gestão dos incêndios, até o sector do governo que mais obrigação tinha de compreender a utilidade do fogo como instrumento de gestão e processo ecológico fundamental, acaba a desenhar programas de apoio ao uso do fogo que excluem os principais agentes úteis para essa estratégia, as pessoas e empresas que têm ou gerem terrenos.

O resultado é o esperado.

Nestes últimos dias de Março, com as condições para a realização de queimas, queimadas, fogos pastoris, fogos controlados e fogos não programados com efeitos ecológicos e de gestão de combustíveis francamente favoráveis, o fogo não institucional, como lhe chamou, e bem, Paulo Fernandes, é rei, fazendo a sociedade aquilo as instituições públicas não só não fazem com a escala necessária, como tentam combater, quer legalmente, quer usando os meios de combate aos fogos para extinguir fogos úteis e sem custos para os contribuintes.

José Miguel Cardoso Pereira fez notar que fogo que ocorre entre Novembro e Abril, usando os dados de 40 anos – 1985 a 2025 –, não distinguindo fogo controlado, queimada, fogo acidental, etc., que o satélite não permite distinguir, é apenas 6% da área ardida anual, em média.

O que estes números evidenciam, é que o Estado, por omissão ao recusar-se a apoiar sem medo o uso do fogo entre Novembro e Abril, ao perseguir e regulamentar excessivamente o uso do fogo, e ao ter uma política activa de combate aos fogos que ocorrem nesse período, mesmo quando não representam qualquer risco sério para valores económicos ou ambientais, como o recente fogo no Gerês, em 28 de Março, em que o Estado resolveu, inclusivamente, empenhar meios aéreos com um custo exorbitante, para extinguir um fogo que estava a desempenhar um papel ecológico e de prevenção de incêndios muito positivo, é co-responsável por haver 94% de área ardida em alturas especialmente desfavoráveis à gestão sensata da paisagem.

Valha-nos o fogo não institucional, frequentemente mesmo ilegal que, contra ventos, marés e preconceitos, acaba a queimar, em circunstâncias favoráveis e socialmente úteis, em média, 6% do que arde por ano, ajudando a mitigar os efeitos dos 94% que ardem na pior altura, com custos mais altos para os contribuintes e consequências sociais e ambientais mais negativas.

Talvez seja a altura de estabelecer objectivos razoáveis, realistas e sensatos que permitam, paulatinamente, ano a ano, ir transferindo fogos de Verão para o período de Novembro a Abril e, algures no futuro, inverter as percentagens, passando a queimar quando queremos, onde queremos, da forma como queremos, 94%, deixando apenas 6% para os fogos destrutivos e selvagens que continuamos a favorecer com preconceito e péssima alocação de recursos.