(c) 2023 am|dev

(A) :: "Apartamentos de cinzas de ossos". O fenómeno ligado à morte que o Governo chinês decidiu banir

"Apartamentos de cinzas de ossos". O fenómeno ligado à morte que o Governo chinês decidiu banir

Custos elevados de jazigos e preços baixos das casas levaram vários chineses a comprar apartamentos para colocar as cinzas dos familiares. Agora, o Governo ilegalizou esta prática controversa.

José Carlos Duarte
text

Prédios altos com estores fechados e onde praticamente não entra luz natural. Em apartamentos de várias cidades da China, não mora ninguém. Nem sequer servem como segunda habitação; estão praticamente vazios. Mas servem para uma função considerada inusitada até por muitos chineses: albergam os restos mortais de familiares. Os “apartamentos de cinzas de ossos” (nome pelo qual são conhecidos) transformam-se em santuários particulares com velas, oferendas e flores.

Vivendo numa sociedade governada por um comunismo ideológico — oficialmente ateu mas onde sobrevivem tradições como o feng shui e o confucionismo —, há chineses que veem nestes apartamentos uma forma de viver a sua espiritualidade e de homenagear os antepassados — algo profundamente enraizado na cultura da China. Aliás, durante este fim de semana em que os cristãos celebram a Páscoa, os chineses celebram o Festival Qingming, dedicado a prestar homenagem aos familiares que já morreram.

Antes do Festival Qingming, as autoridades da China tomaram uma decisão com profundo significado para os rituais fúnebres do país: a partir desta terça-feira, foi expressamente proibido que os chineses guardem cinzas dos familiares em apartamentos. Antes de 31 de março, é certo que as leis chinesas já estipulavam que os restos mortais só podiam ser enterrados em cemitérios ou em áreas oficialmente designadas para esse fim; contudo, havia várias zonas cinzentas na legislação que vendedores, proprietários e compradores exploravam.

Ter um apartamento transformado em columbário privado foi agora expressamente proibido, ainda que subsistam várias dúvidas sobre como a medida será, na prática, aplicada. Para lá da dimensão espiritual, a prática de ter cinzas numa casa própria expõe também os sintomas dos problemas de uma sociedade altamente urbanizada e envelhecida. Os custos de enterrar os mortos na China tornaram‑se incomportáveis, mesmo para a classe média. Manter uma gaveta ou um jazigo é caro (e a concorrência é muita), exigindo quase sempre o pagamento de uma taxa anual de manutenção, principalmente em grandes cidades como Pequim, Xangai ou Shenzhen.

A solução que muitas famílias encontraram? Arrendar um apartamento e usá‑lo exclusivamente para guardar as cinzas dos familiares. Nos subúrbios das grandes cidades chinesas, foram construídos nos últimos anos bairros inteiros de novos prédios de habitação. Muitos deles não foram vendidos e acabam vazios — a oferta superou largamente a procura, fazendo baixar vertiginosamente os preços. Em algumas dessas zonas, chegou ao ponto de ser mais barato arrendar um apartamento para guardar as cinzas do que comprar um columbário num cemitério.

As autoridades chinesas já têm há algum tempo conhecimento deste fenómeno, que sempre viram com maus olhos, ainda que só tenham agido agora. Oficialmente, o Partido Comunista quer que a habitação privada seja usada para viver e que não seja convertida em columbários privados. Há também uma dimensão ideológica: o regime de Xi Jinping quer projetar a imagem de um país moderno e civilizado, onde práticas consideradas supersticiosas — como estes “apartamentos de cinzas de ossos” — são proibidas ou passam despercebidas.

Feng Shui, o ateísmo de Mao e o confucionismo de Xi. Como evoluíram espiritualmente as práticas fúnebres na China?

Confúcio. O pensador que viveu na China no século V a.C. deixou uma marca profunda e duradoura na memória coletiva dos chineses. A tradição confucionista defende uma moralidade rigorosa que deve orientar todas as esferas da vida, das relações familiares à organização do Estado. A morte não foi esquecida: Confúcio defendia a importância de prestar homenagem aos familiares que morreram, salientando que essa prática mantinha a ordem familiar, cultivava a gratidão e reforçava o respeito e o sentido de dever para com os mais velhos.

Juntamente com a ética confucionista, a crença milenar no feng shui — centrada na escolha e disposição dos espaços e objetos para atrair prosperidade e boa sorte — continua a marcar o imaginário e as práticas de muitos chineses no século XXI. Isso inclui o lugar onde se enterram os mortos, algo extremamente importante. Idealmente, à luz do feng shui, o túmulo deve ficar num terreno protegido por colinas e próximo de um curso de água — que gera uma espécie de “ferradura” imaginária que, acreditam muitos chineses, transmite boas energias aos descendentes.

Em declarações ao Observador, Carsten Herrmann-Pillath, economista, sinólogo e professor na Max-Weber-Kolleg pertencente à Universidade alemã de Erfurt, explica o fenómeno. “Nas práticas de feng shui, a escolha dos locais [para enterrar os mortos] é pensada com grande cuidado”, diz. Colocar cinzas em apartamentos é uma solução cada vez mais usada, mesmo que espiritualmente nem se alinhe totalmente com os princípios milenares e tradicionais chineses. O especialista refere que os locais onde se enterram os corpos têm de ser “públicos”.

“Se simplesmente se depositar as cinzas numa casa sem se considerar o impacto que tem no ambiente espiritual, isso é profundamente problemático. Além disso, como os rituais são realizados à porta fechada, ninguém sabe o que realmente acontece”, afirma Carsten Herrmann-Pillath, acrescentando: “Se alguém simplesmente deixa lá as cinzas e deixa de realizar os rituais, o antepassado pode transformar-se num fantasma que assombra o local. Portanto, há muita incerteza nesta prática, mesmo no sentido tradicional”.

Que uma alma se transforme num espírito nocivo é algo que preocupa ainda muitos chineses. Isso ajuda a explicar por que razão os rituais fúnebres, o local do túmulo e a forma como se tratam as cinzas continuam a ser levados tão a sério, mesmo num país em que se tentou instituir o ateísmo desde 1949.

Nos primeiros anos da liderança de Mao-Tsé Tung e particularmente durante a Revolução Cultural, o Partido Comunista tentou eliminar o que definiu como “superstições” e promoveu a cremação (uma prática que se manteve), sobretudo nas zonas urbanas, bem como incentivou que os enterros ocorressem em cemitérios públicos, reduzindo a necessidade de escolher túmulos à luz dos princípios do feng shui.

A abertura económica da China ao Ocidente — e uma certa liberalização cultural que ocorreu principalmente na década de 90 — permitiu que as antigas crenças que o regime maoista tentou eliminar voltassem a ganhar força. O Estado deixou praticamente de ter o monopólio das práticas fúnebres e abriu espaço a novas opções, multiplicando as possibilidades para os consumidores chineses que, entretanto, também viram os seus salários aumentarem.

"Existe uma certa tensão entre os esforços de longa data do Partido Comunista para modernizar os rituais funerários e os costumes de enterro e a forte ênfase de Xi Jinping na piedade filial como um valor fundamental chinês."
Carsten Herrmann-Pillath, economista, sinólogo e professor na Max-Weber-Kolleg pertencente à Universidade alemã de Erfurt

A chegada ao poder de Xi Jinping alterou os limites dos rituais fúnebres. O atual Presidente chinês distancia-se da rigidez de Mao Tsé-Tung ao pôr o foco na piedade filial, um dos princípios da ética confucionista.”Existe uma certa tensão entre os esforços de longa data do Partido Comunista para modernizar os rituais funerários e os costumes de enterro e a forte ênfase de Xi Jinping na piedade filial como um valor fundamental chinês”, nota Carsten Herrmann-Pillath.

“Um elemento essencial da piedade filial é a realização de vários rituais adequados para os mortos. Existem muitas tendências contraditórias”, sintetiza o sinólogo alemão. Entre o feng shui e o confucionismo, as práticas fúnebres na China sofreram uma profunda transformação em poucas décadas. Para esse processo, contribuíram também as mudanças económicas, sociológicas e demográficas. É neste caldeirão de influências que surgiram os “apartamentos de cinzas de ossos”.

Jazigos caros, poucas crianças e urbanização. Os custos de enterrar os mortos na China

Em termos espirituais, os “apartamentos de cinzas de ossos” estão longe de ser a solução ideal, ainda que exista alguma margem para o justificar através desse prisma. Economicamente, por sua vez, é uma solução bastante inteligente. “Comprar um apartamento de cinzas mata dois coelhos duma cajadada só: é um investimento e facilita os rituais fúnebres”, assinala o especialista alemão ao Observador, acrescentando: “Os costumes chineses já preveem a prática de transferir os mortos passado ​​alguns anos para locais mais auspiciosos. A espiritualidade é flexível”.

"Comprar um apartamento de cinzas mata dois coelhos de uma cajadada só: é um investimento e facilita os rituais fúnebres. Os costumes chineses já preveem a prática de transferir os mortos passados ​​alguns anos para locais mais auspiciosos. A espiritualidade é flexível."
Carsten Herrmann-Pillath, economista, sinólogo e professor na Max-Weber-Kolleg pertencente à Universidade alemã de Erfurt

Na China, ter uma campa ou um columbário custa bastante dinheiro. Acresce que a população está a envelhecer — existem 300 milhões de idosos. Nas grandes cidades, os espaços são cada vez menos, sendo realizado um contrato temporário para cada jazigo, que é habitualmente renovado a cada 20 anos. Segundo informa a BBC, o preço de um jazigo em Pequim pode chegar aos 200 mil yuans (cerca de 25 mil euros), juntamente com uma taxa anual pela sua manutenção.

Os custos da própria cerimónia fúnebre também são elevados, sobretudo se a família quiser seguir todas as tradições. Em 2020, de acordo com dados divulgados pela BBC com base num estudo da seguradora britânica SunLife, um funeral na China poderia representar cerca de metade do salário anual médio de um chinês. Esse encargo financeiro torna‑se ainda mais pesado num país marcado durante décadas pela política do filho único: muitas famílias chinesas são pequenas e os custos dos jazigos e funerais são suportados por poucos descendentes.

Adicionalmente, nas últimas décadas, a China registou um aumento acentuado da urbanização. Essa pressão fez‑se sentir também no mercado fúnebre: há cada vez mais pessoas e cada vez menos espaços disponíveis nos cemitérios para enterrar os mortos ou guardar as cinzas. No final de 2025, 68% da população chinesa vivia em cidades e esse número vai aumentar nos próximos anos.

“Nas grandes cidades chinesas, os cemitérios estão cada vez mais localizados longe das zonas residenciais, o que dificulta a prática dos rituais funerários. Os jazigos estão também a tornar-se mais caros“, aponta Carsten Herrmann-Pillath, recordando que, na China, uma campa “não é uma propriedade, mas antes um serviço”.

A crise imobiliária e como isso motivou chineses a comprarem apartamentos para colocarem as cinzas

Nas últimas décadas, assistiu‑se a um aumento acentuado da construção de grandes conjuntos habitacionais nos subúrbios das principais cidades chinesas, com filas de prédios idênticos de muitos andares. Se em meados da última década muitos destes megaprojetos acabavam vendidos rapidamente, o setor imobiliário foi entretanto afetado por uma profunda crise, que se agravou com os efeitos económicos da pandemia de Covid‑19. A consequência foi um número crescente de apartamentos vazios e difíceis de colocar no mercado.

Além disso, ainda se sentem as consequências da política de filho único, que só foi oficialmente abandonada em 2015. Como consequência, há simplesmente menos jovens adultos a entrar no mercado imobiliário. As condições dos créditos para comprar casa são menos vantajosas. E a construção desenfreada também se explica pelo funcionamento do modelo de financiamento público na China: durante décadas, muitos governos regionais receberam uma fatia significativa das receitas da venda de terrenos para projetos de habitação, o que os incentivou a autorizar a construção de mais edifícios.

"Muitos apartamentos estão vazios e os agentes imobiliários ficam contentes por vendê-los, seja qual for o motivo."
Carsten Herrmann-Pillath, economista, sinólogo e professor na Max-Weber-Kolleg pertencente à Universidade alemã de Erfurt

Por causa destes fatores, o preço da habitação diminuiu significativamente. “Muitos apartamentos estão vazios e os agentes imobiliários ficam contentes por vendê-los, seja qual for o motivo”, descreve Carsten Herrmann-Pillath. Segundo a BBC, registou-se uma diminuição de 40% entre 2021 e 2025 no preço das casas. Perante esta realidade, muitas famílias chinesas compram mais um apartamento — este dedicado para receber as cinzas dos familiares.

Existe, desde logo, uma vantagem prática: num único apartamento podem concentrar‑se vários memoriais e urnas de familiares diferentes, em vez de se pagar por várias campas ou columbários dispersos em cemitérios distintos. Para famílias com poucos jovens — que se está a transformar o novo normal na China —, esta pode ser uma forma de poupar dinheiro e de otimizar recursos.

Em bairros residenciais inseridos em megaprojetos imobiliários chineses, é relativamente fácil identificar os “apartamentos de cinzas de ossos”. Para respeitar os princípios milenares do feng shui e simular o ambiente de uma campa, as janelas são seladas ou fechadas com cortinas. Não entra luz solar. No interior, estes apartamentos são decorados tal e qual como se fossem um santuário, como relata a imprensa estatal chinesa: candeeiros vermelhos, velas e retratos a preto e branco compõem os altares dedicados aos antepassados.

Os agentes imobiliários sabem que estão a vender apartamentos para servirem como altares, mas fecham os olhos — afinal de contas, a prática é proibida. Entre comunidades de vizinhos, coexistem vários sentimentos. Como recolheu a Agence France-Presse nas redes sociais da China, há comentários de chineses que não se importam de ter como vizinhos cinzas e altares: “Quero alugar um apartamento num prédio assim. Não haverá problemas com o barulho dos vizinhos.”

No mesmo sentido, em áreas altamente urbanizadas das grandes cidades, muitos chineses não conhecem sequer os seus vizinhos. O nível de anonimato é tão elevado que muitos podem viver perto de “apartamentos de cinzas de ossos” e nem sequer ter consciência disso.

Outros, ainda assim, sentem-se incomodados por viverem perto destes apartamentos. À Agence France-Presse, a antropóloga e professora na Universidade da Califórnia Irvine Wu recorda que esta solução torna “ténue a fronteira entre os espaços para os vivos e os espaços para os mortos, o que é delicado do ponto de vista administrativo e cultural”. Esta posição é a que os dirigentes chineses adotam — daí terem tomado medidas para impedir este fenómeno.

"Os apartamentos de cinzas tornam ténue a fronteira entre os espaços para os vivos e os espaços para os mortos, o que é delicado do ponto de vista administrativo e cultural."
Irvine Wu, antropóloga e professora na Universidade da Califórnia

O que motivou o Partido Comunista a agir agora?

timing da proibição dos “apartamentos de cinzas” ocorre precisamente dias antes do Festival Qingming, celebrado no primeiro fim de semana de abril e que é dedicado precisamente a prestar homenagem aos mortos.  Milhões de chineses viajam pelo país para visitar cemitérios e honrar os antepassados. Apesar de estar consciente de que este fenómeno já existe há algum tempo, o Partido Comunista Chinês pretendeu reforçar o simbolismo ao adotar esta medida nesta semana das festividades.

Embora os “apartamentos de cinza de ossos” sejam difíceis de contabilizar devido ao secretismo e obscurantismo da prática, Carsten Herrmann-Pillath acredita que o facto de o Governo da China agir revela que existe a convicção no regime de que este fenómeno “se está a espalhar rapidamente” — e que se está a tornar uma prática cada vez mais comum entre as famílias chinesas.

“Eu acho que o Governo está de certa forma preocupado com a possibilidade de perder o controlo”, salienta Carsten Herrmann-Pillath. O atual regime tem uma “atitude mista em relação à religião popular”, assinala o especialista. Por um lado, já não a proíbe totalmente, como fazia Mao Tsé‑Tung; por outro, incentiva certas práticas desde que sejam enquadradas e controladas pelo Partido, dentro daquilo que considera aceitável.

Para as práticas fúnebres, o regime de Xi Jinping tem defendido costumes que se traduzem numa espécie de ritual. “O Partido Comunista Chinês encoraja fortemente os enterros modernos, como aqueles que acontecem no mar”, refere o professor universitário alemão. “As pessoas realizam na mesma rituais em locais memoriais específicos, onde os mortos podem ser venerados, mas não estão presentes fisicamente”, enfatiza Carsten Herrmann-Pillath. Depositar cinzas no mar é uma opção que o regime privilegia.

Em termos espaciais, é uma solução inteligente, não havendo custos relacionados com cemitérios. Porém, Carsten Herrmann-Pillath lembra que isso “pode funcionar em Xangai” — que tem costa marítima —, mas “não em outros locais na China” em que não há mar. E muitos chineses preferem ficar com as cinzas dos seus antepassados.

No momento em que anunciou a proibição dos “apartamentos de cinzas”, o Governo chinês prometeu também combater a fraude e a falta de transparência no mercado fúnebre — algo que se tornou uma prática comum desde a época da liberalização económica. O regime pretende reduzir o fardo dos preços dos funerais para a classe média, assumindo que os custos se tornaram demasiado elevados.

Além da aposta na deposição de cinzas no mar e construção de memoriais nas redondezas, o Governo chinês pretende explorar alternativas como os chamados “cemitérios ecológicos”, onde são colocados os restos mortais em florestas e parques apropriados.

Mesmo na China urbana e altamente desenvolvida, os antepassados e o local do seu enterro continuam a ser temas com elevada importância espiritual. Numa população cada vez mais envelhecida e com poucos jovens, muitos chineses encontraram nos “apartamentos de cinzas de ossos” uma alternativa económica e espiritualmente coerente. O regime pôs fim a esta prática, mas ficaram várias dúvidas para o futuro. A maior talvez seja esta: como é que as autoridades vão vigiar bairros residenciais inteiros nos subúrbios de cidades com milhões de habitantes?