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(A) :: "Elena sabe", o romance mistério de Claudia Piñeiro que reflete sobre controlo do corpo pela doença e a religião

"Elena sabe", o romance mistério de Claudia Piñeiro que reflete sobre controlo do corpo pela doença e a religião

A obra nomeada ao Booker Internacional da argentina, que, sob a capa de policial, critica as restrições à autonomia feminina, o dogma religioso e a burocracia, chega hoje às livrarias portuguesas.

Agência Lusa
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António Moura dos Santos
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Publicada originalmente em 2007, esta história sobre uma mãe em busca da verdade sobre a morte da filha foi traduzida e publicada em inglês em 2021, tendo integrado a lista dos finalistas do Prémio Booker Internacional no ano seguinte.

A sua versão em língua portuguesa, traduzida por Rita Custódio e Àlex Tarradellas, é publicada hoje pela Presença, que dá assim a conhecer uma autora multipremiada, que já foi apelidada de “Hitchcock do rio Prata”, e que tem editado em Portugal os livros Uma pequena sorte (em 2018, pela Dom Quixote), Tua (em 2012, Quetzal) e As Viúvas das Quintas-Feiras (em 2008, Quidnovi)

Claudia Piñeiro, conhecida pelo seu ativismo e engajamento político e social em assuntos como a legalização do aborto na Argentina e o movimento #NiUnaMenos, contra o feminicídio, é uma autora de destaque na literatura policial, que simultaneamente reflete sobre preocupações do mundo atual.

Elena sabe é disso exemplo, apresentando-se como um mistério, mas abordando no seu enredo temas como as relações mãe-filha, o absurdo da burocracia, o fardo dos cuidados familiares, as imposições da religião sobre as mulheres e o direito da mulher à autonomia e às decisões sobre o seu corpo, numa sociedade conservadora e católica, como destacou o jornal The New York Times.

A protagonista é Elena, uma mulher de 63 anos que sofre de Parkinson e que embarca numa dolorosa viagem para Buenos Aires, em busca de respostas sobre a morte da filha Rita, que lhe parece suspeita.

Trata-se de “um romance que desafia convenções sociais e nos obriga a refletir sobre temas como a maternidade, a culpa e o papel da mulher na sociedade”, sintetiza a editora.

Depois de Rita ser encontrada morta na torre do sino da igreja que frequentava, a investigação sobre o caso é rapidamente encerrada e a polícia conclui que foi suicídio.

Elena é a única que não desiste de esclarecer o crime, mas é também quem tem menos condições para o fazer, uma vez que a doença lhe impõe muitas limitações.

Uma difícil viagem pelos subúrbios da cidade, uma antiga dívida de gratidão e uma conversa reveladora compõem uma trama em que os segredos das personagens são desvendados a par das facetas ocultas do autoritarismo e da hipocrisia social.

A estrutura do livro está dividida em três partes — “A manhã (segundo comprimido)”, “Meio-dia (terceiro comprimido)” e “A tarde (quarto comprimido)” —, seguindo a rotina de medicação de Elena, fundamental para que esta consiga manter algum controlo sobre o corpo.

Claudia Piñeiro liga assim, na mesma história, dois níveis de controlo sobre o corpo: o de Elena, pela doença, Parkinson, e o de Rita, pela religião e pelas normas sociais.

A narrativa, com ‘flashbacks’ e várias linhas temporais, intercala a busca de Elena por uma mulher que pode ajudá-la a resolver o mistério, com cenas do seu passado conturbado com a filha.

Segundo a crítica, a obra de Claudia Piñeiro evoca a jornada de Odisseu (Ulisses, na designação latina) no regresso a casa, devido às dificuldades de Elena em atravessar a cidade de Buenos Aires por causa da doença, bem como a obra Ulisses, de James Joyce, por se passar num único dia e numa só cidade — duas referências com a mesma raiz no clássico grego atribuído a Homero, Odisseia.

A imprensa internacional destacou ainda que este é um dos romances da autora argentina que oferece uma visão mais completa de suas preocupações e compromissos.

O desfecho da narrativa mostra que “nunca” é uma palavra que não se aplica à espécie humana e que muitas ações que parecem impossíveis podem ocorrer perante determinadas situações, como diz uma personagem à protagonista.

Através da teimosia e das limitações de Elena, Claudia Piñeiro mostra a insensatez que advém de convicções equivocadas, bem como a dor de existir num mundo onde forças que escapam ao nosso controlo controlam, com demasiada frequência, os nossos corpos.

Como resumiu o júri do Prémio Booker Internacional, Elena sabe é “uma história original que entrelaça ação policial, narração íntima de moralidade e busca por liberdade individual”.

Claudia Piñeiro nasceu em Buenos Aires, em 1960. É escritora, dramaturga, guionista de televisão, colaboradora de diversos meios de comunicação, e uma das escritoras argentinas mais traduzidas.

Ganhou vários prémios nacionais e internacionais pelo seu trabalho literário, teatral e jornalístico, nomeadamente o Prémio de Jornalismo Pléyade, o Prémio Clarín de Romance, o Prémio LiBeraturpreis, o Prémio Sor Juana Inés de la Cruz e o Prémio Rosalía de Castro do PEN (Clube de Poetas, Ensaístas e Narradores da Galiza), entre outros.

Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema, um deles este Elena sabe, em 2023, pela plataforma Netflix. As suas peças de teatro são representadas de forma contínua.