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(A) :: Perdeu o pai num ataque da Al Qaeda, o irmão foi raptado pelo Estado Islâmico. A história de Ayman Hussein, que levou o Iraque ao Mundial

Perdeu o pai num ataque da Al Qaeda, o irmão foi raptado pelo Estado Islâmico. A história de Ayman Hussein, que levou o Iraque ao Mundial

Avançado marcou o golo que garantiu o regresso do Iraque ao Mundial, 40 anos depois, um objetivo que definira em 2017. Aos 12 anos, Ayman Hussein perdeu o pai num ataque da Al Qaeda.

Tiago Caeiro
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No dia 11 de junho de 1986, o Iraque dava por terminada a sua primeira e única participação num Campeonato do Mundo de Futebol, com uma derrota tangencial, por 1-0, diante do anfitrião México, na fase de grupos da competição. 40 anos depois, a seleção iraquiana está de volta a um Mundial (que, quis o destino, tivesse também o México como país organizador). O apuramento foi confirmado esta terça-feira, depois da vitória no jogo decisivo, diante da Bolívia. O golo que garantiu a qualificação do Iraque foi marcado por Ayman Hussein, o novo herói nacional do país, que viu dois familiares serem alvo de ações de grupos terroristas e que, em 2017, disse que o seu principal objetivo era levar o seu país de novo a um Mundial de Futebol.

Ayman Hussein viu o pai, militar, ser assassinado durante um ataque da Al Qaeda contra elementos do exército iraquiano, em 2008.  Alguns anos mais tarde, em 2014, o irmão foi raptado por outro grupo terrorista, o Estado Islâmico, escreve o portal brasileiro UOL. Na altura, a família vivia na cidade de Kirkuk, no norte do Iraque, a zona mais afetada pelos ataques daquele grupo. As buscas pelo irmão de Ayman prosseguem mas o homem ainda continua desaparecido.

Em 2017, quando já vestia a camisola da seleção do Iraque, o avançado disse, numa entrevista a uma televisão local, que o seu principal objetivo era levar a seleção a Mundial de futebol. “O filho do Iraque, quando promete, cumpre. Quando fala, é sincero. Mil parabéns a todos os iraquianos. Esta alegria é um direito vosso pelo qual esperavam há muito”, escreveu Ayman nas redes sociais, pouco depois de ter marcado o golo decisivo, que selaria o resultado final de 2-1 sobre a Bolívia, num play-off intercontinental disputado em Monterrey, no México, a 13 mil quilómetros do Iraque.

Aos 30 anos, Ayman Hussein alinha pelo Al-Karma, atual sexto classificado da liga iraquiana. Chamado à seleção pela primeira vez em 2015, o avançado é já um dos melhores artilheiros da história da seleção do Iraque, com 32 golos em 89 internacionalizações. Sem nunca ter passado pelo futebol europeu, o avançado atuou em ligas periféricas como a do Qatar, a dos Emirados Árabes Unidos ou a de Marrocos.

https://observador.pt/2026/03/09/iraque-apela-a-fifa-para-adiar-play-off-do-mundial2026-devido-a-guerra/

Desta vez, e ao contrário do que acontecera em qualificações anteriores devido aos conflitos armados, o Iraque foi autorizado pela FIFA a disputar em casa os jogos da fase de apuramento para o Mundial dos EUA, México e Canadá, que decorreu em cinco fases. Na primeira, o Iraque venceu todos os jogos, tendo ficado em primeira lugar do grupo em que estavam também Qatar, Omã, Indonésia e Vietname.

Na segunda fase, o desempenho não foi tão positivo, levando a equipa a terminar em terceiro lugar (num grupo que tinha também seleções como a Coreia do Sul ou a Jordânia) e a ser relegado para a repescagem asiática. Aí também não conseguiram a qualificação direta (que ficou para a Arábia Saudita), o que ’empurrou’ o Iraque para uma eliminatória a duas mãos com os Emirados Árabes Unidos. A seleção, comandada pelo australiano Graham Arnold, ultrapassou o adversário, com um empate fora e uma vitória em casa por 2-1. Contudo, ainda havia mais um obstáculo a ultrapassar: a Bolívia. A seleção chegou mesmo a pedir à FIFA o adiamento do jogo devido aos constrangimentos causados pela escalada da guerra no Irão.

A partir de junho, os iraquianos terão pela frente, no grupo I do Campeonato do Mundo, um grupo de adversários de grande valia: França, Noruega e Senegal.