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(A) :: "O basquetebol deu-me a possibilidade de não passar fome." Carlos Barroca, das chamadas de Marcelo de madrugada aos dez anos na Ásia

"O basquetebol deu-me a possibilidade de não passar fome." Carlos Barroca, das chamadas de Marcelo de madrugada aos dez anos na Ásia

Jogador e treinador, foi a voz do basquetebol durante 25 anos, passou uma década na Ásia com a NBA e está de volta a Portugal para se candidatar à Federação. Entrevista de vida a Carlos Barroca.

Mariana Fernandes
text
Diogo Ventura
photography

Mimi, me, hana. Orelhas, olhos, nariz em japonês. Em conjunto, as palavras não significam nada. Para Carlos Barroca, tornaram-se uma maneira simples de controlar as multidões de crianças e jovens que encontrou ao longo dos últimos dez anos um pouco por toda a Ásia. “É como magia”, explica, preparado para repetir o truque apenas para mostrar que resulta mesmo.

No centro de uma roda com dezenas de jovens jogadoras e jogadores de basquetebol, conquista o silêncio e a atenção com um jogo banal: mimi, uma palma, me, duas palmas, hana, três palmas. Três repetições e não existem conversas paralelas. No centro do Complexo Desportivo Municipal do Casal Vistoso, em Lisboa, estabelece a autoridade através de três básicas palavras em japonês.

Aos 67 anos, Carlos Barroca está de regresso a Portugal como candidato à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol. Concorre contra João Carvalho, até aqui secretário-geral de Manuel Fernandes, que terminou o terceiro e último mandato. As eleições estão marcadas para o próximo dia 25 de abril e Carlos Barroca, em pleno período de campanha, ainda tem tempo para continuar as funções como diretor técnico da NBA Basketball School – projeto que junta jovens e crianças de todo o mundo numa cidade de 50 países diferentes durante três dias e que, na última semana, esteve em Lisboa.

Foi ele, que, na verdade, lançou a NBA Basketball School. Depois de ser campeão nacional de basquetebol como jogador e treinador, de ter passado mais de 25 anos como comentador na RTP e na Sport TV e de ter sido coordenador nacional do Desporto Escolar, foi convidado para vice-presidente de operações da NBA Ásia e passou uma década a levar a bola a países que não a conheciam. No fim, superou as expectativas e despediu-se do cargo com novos 50 milhões de praticantes entre Índia, Japão, Vietname, Singapura, Indonésia, Hong Kong e muitos outros países. Ao ponto de, em pleno Casal Vistoso, ter reencontrado Valentino – um jovem vietnamita, agora a viver na Finlândia, que começou a jogar basquetebol através de uma das ações lideradas por Carlos Barroca no país asiático e que passou os últimos dias em Lisboa.

Em entrevista ao Observador, o agora candidato à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol recordou os tempos em Moçambique em que copiava por Carlos Lisboa, colega de carteira, e os primeiros anos em Santarém em que o dinheiro nem sempre chegava para almoçar e jantar todos os dias. Lembrou o convite que o levou à televisão, os telefonemas de Marcelo Rebelo de Sousa durante as transmissões de madrugada e o casamento no México que culminou com a ida para a NBA. E garante que não tem um jogador preferido – são todos, “desde que se portem bem”.

A primeira pergunta é quase óbvia: aos 67 anos, depois de uma carreira tão rica e tão distinta, porquê voltar a Portugal como candidato a presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol?
Voltar a Portugal está sempre na cabeça de quem é português. Porque sou português, porque fui um atleta internacional, fui treinador de seleções, representei Portugal na Comissão Europeia, como responsável do Desporto Escolar, do Ministério da Educação. Ser português é ser português no mundo e o mundo hoje é um mundo cada vez mais perto. E também porque sempre foi a minha decisão, sempre que viajava para fora de Portugal tinha metido na cabeça que tudo o que sei só interessa se for para devolver e para partilhar com outros. E ainda hoje tenho essa noção. Voltei porque o projeto da Ásia estava acabado, com os objetivos excedidos. O objetivo era chegar aos 40 milhões de miúdos e chegámos aos 50 milhões de miúdos. Dá-me um enorme prazer ter conseguido pôr a bola na mão de 50 milhões de crianças e mais de 300 mil professores e ensinar a ensinar basquetebol. Tenho filhos e netos e achei que estava na altura de estar mais perto deles, tenho gozado muito pouco nos últimos anos, na última década. Devolver ao basquetebol aquilo que aprendi, porque acho que é uma forma de estar na vida que tem a ver comigo. Olho para o espelho e tenho gostado da pessoa que está lá, portanto, se sei, aprendi e tenho qualidades, competências, que serviram para ser vice-presidente da NBA, certamente servem para servir o basquetebol português.

Essa palavra, o servir, é mesmo essa a ideia? Ou seja, utilizar tudo aquilo que aprendeu ao longo destas décadas para melhorar, fortalecer, o basquetebol português.
Tenho uma experiência que ninguém tem. Já trabalhei em 44 países, no basquetebol já trabalhei em 44 países. Conheço as melhores pessoas do mundo dentro desta área, seja do marketing, seja da social media, seja em países, em projetos, em federações, em organizações como a NBA. A diversidade da experiência capitaliza-se na capacidade de adaptar para encontrar soluções. Tenho dois nicknames dados pelos americanos: um é ‘build bridges’ e o outro é ‘find solutions’. A vida é só uma, a vida tem que ter propósito, a vida tem que ter sentido e a vida tem que ter recompensas que vão para lá daquilo que é a recompensa financeira ou o reconhecimento público. Isso já passou por mim. Depois de ter trabalhado 25 anos em televisão, de ter treinado alguma das melhores equipas portuguesas, de ter trazido a Portugal eventos como o Magic Johnson, o Street Basket, o Small Street Basket, o Buckler Challenge, seleções dos EUA, depois de ter feito isso tudo… Acho que era influencer antes de se usar a palavra influencer.

"Voltei porque o projeto da Ásia estava acabado, com os objetivos, excedidos. O objetivo era chegar aos 40 milhões de miúdos e chegámos aos 50 milhões de miúdos. Dá-me um enorme prazer ter conseguido pôr a bola na mão de 50 milhões de crianças e mais de 300 mil professores e ensinar a ensinar basquetebol. Tenho filhos e netos e achei que estava na altura de estar mais perto deles, tenho gozado muito pouco nos últimos anos, na última década. Devolver ao basquetebol aquilo que eu aprendi, porque acho que é uma forma de estar na vida que tem a ver comigo."
Carlos Barroca

Não tem receio de ser acusado de procurar protagonismo?
Não preciso de visibilidade, preciso de estar bem comigo mesmo. Servir é uma missão e gosto dessa missão. Encontrei na vida, a determinada altura da minha vida, o propósito. E o equilíbrio entre aquilo que são as ambições pessoais, profissionais e a felicidade. E isso é a coisa mais importante que podemos ter. O meu objetivo é continuar a servir. Sabe-me bem servir e fazer crescer, sabe-me bem produzir algo inédito e transformar. Porque já o fiz antes, já o fiz antes a uma escala muito maior do que aquilo que é o basquetebol português. Com orçamentos maiores, com dimensões humanas e países muito maiores e consegui fazê-lo. Isso dá-me a confiança, a segurança, de que é possível mudar. E onde é que começam as mudanças? Nas pessoas. É possível mudar as pessoas? É difícil. É tudo difícil. Se pensarmos nisso não vale a pena sequer começar a fazer qualquer projeto. É possível mudar e a mudança começa nas pessoas. No sistema, na liderança, na credibilidade, na eficiência. No fundo, olhar para as coisas simples e torná-las eficazes. É possível? Claro que sim, claro que é possível.

A verdade é que os últimos anos trouxeram resultados positivos essencialmente nas Seleções Nacionais: oitavos de final no regresso ao Eurobasket 14 anos depois, primeira participação no Eurobasket feminino com a primeira vitória, campeões europeus da Divisão B de Sub-20. A ideia é pegar no que está a ser bem feito e potenciar ou implementar uma autêntica revolução na modalidade?
Não se pode cortar com uma coisa que existe há 99 anos. Em 2027 o basquetebol de Portugal vai celebrar 100 anos de vida. É indesmentível que há uma economia, que há uma comunidade. E nós fizemos alguns estudos – isso é das coisas que eu aprendi com a NBA, não falar sem ter substância para falar sobre as coisas –, há 350 mil pessoas, ocasionais ou não, que têm ligação ao basquetebol em Portugal. É uma comunidade. Não é uma comunidade de milhões, mas é uma comunidade de 350 mil pessoas num país onde há dez milhões de pessoas. E essa comunidade existe, mas não está trabalhada. Essa comunidade existe, mas não é uma comunidade que tenha consequência. E falando, por exemplo, em consequência, olhemos para aquilo que aconteceu no ano passado, em 2025, que foi fantástico. O Neemias é campeão da NBA, Seleção masculina, Seleção feminina, Seleção de Sub-19 feminina, Campeonato do Mundo, fantástico. Onde é que isso se traduziu em algo de eficácia para a modalidade? Normalmente os spikes desta natureza dão origem a duas coisas: ou consegues ter mais praticantes e nós não tivemos, saiu o Relatório e Contas e tivemos menos 500 praticantes que no ano anterior, o que é uma coisa estranha, ou há mais valor, há mais capacidade comercial. Não houve nenhuma nova entrada de nenhum patrocinador por termos tido esses resultados. Eu não quero criticar ninguém, não é o meu estilo. Eu quero é que se perceba que há coisas muito bem feitas, mas há outras que não estão tão bem feitas assim. E urge melhorá-las, para que as questões financeiras não sejam o struggle, a dificuldade, mas sejam sim o apontar para as zonas de prioridade.

O que é que pode ser melhorado?
Falta a base da pirâmide. Nós não podemos chegar ao fim do ano de sucesso como foi 2025 e ter menos 500 praticantes do que o ano anterior. Há que ter visão, ter objetividade, apontar para metas, porque isso, na minha opinião, é o que falta na nossa modalidade. Cada um trata do seu quintal, cada um trata das suas casinhas. Nós precisamos ter objetivos nacionais, objetivos regionais e objetivos de competência. Crescer mais é obrigatório, ter mais atletas praticantes na base de tudo e depois qualificar aqueles que querem ser qualificados. Não podemos obrigar toda a gente a ser o melhor jogador de basquetebol que conseguir ser, mas temos que criar campeonatos e criar competições para que os melhores joguem com os melhores mais vezes, para poderem evoluir. Porque no basquetebol, como em qualquer modalidade, os financiamentos são uma montanha-russa. Às vezes há mais, às vezes há menos. Agora, os nossos atletas serão sempre os nossos atletas.

Portanto, apostar na formação acaba por ser a chave para tudo o resto.
Nós temos de qualificar melhor os nossos atletas para que não passem uma dezena de anos a jogar basquetebol para chegarem a uma determinada idade e deixarem de jogar basquetebol com poucas competências. Temos de lhes dar essas competências, como através de uma pipeline de formação de atletas, onde determinado tipo de campeonatos têm de começar a acontecer mais cedo, com mais competência, com mais qualidade, para jogarem mais jogos. Nós não podemos ter épocas que duram seis meses. Temos de ser criativos dentro das limitações financeiras que existam, obviamente. Agora, não nos limitarmos também às limitações financeiras, porque é preciso trabalhar para arranjar mais soluções. O orçamento da Fundação Portuguesa de Basquetebol é muito dependente do jogo, está perfeitamente assinalado. E neste ano de 2025 gastou-se mais dinheiro do que aquilo que era suposto, parece que há um buraco para quem vem a seguir depois das eleições. Mas é um buraco que pode ser ou não resolvido. E só conheço uma maneira de resolver: trabalhar para resolver. E esse é o propósito da minha lista e da minha candidatura, ajudar a minimizar as coisas e não ficarmos sentados à espera de que de repente haja mais dinheiro. Há mais dinheiro se trabalharmos mais.

Esta ideia da Federação era algo que estava plantado na sua cabeça já há algum tempo ou foi uma espécie de vaga de fundo que acabou por plantar a ideia?
Não, já estava plantado há algum tempo. Aliás, em 2022, na altura das eleições anteriores em que o Manuel Fernandes voltou a candidatar-se, essa ideia já existia. Só não avancei na altura porque não estava ainda finalizado aquilo que era o meu desafio na Ásia. Ainda não tinha chegado aos tais 40 milhões, depois o número a que chegámos acabou por ser maior, mas não estava completado. E não gosto de deixar as coisas a meio, sinto sempre que ou fazemos bem ou não vale a pena fazer. Já estava há algum tempo plantado. Não foi cobardia da minha parte não avançar na altura, foi apenas uma questão de cada coisa a seu tempo. E agora é o tempo certo. Não estou preocupado, como as pessoas dizem, em contar espingardas. Quantos é que votam, quantos é que não votam. Eu nem gosto muito de espingardas, não gosto de matar, gosto mais de tirar fotografias. Por isso, estou preocupado, sim, em ter propostas válidas para o basquetebol, apontar caminhos para o basquetebol, não ter medo de assumir liderança, porque é preciso assumir liderança, é preciso mostrar o caráter que temos, a capacidade que temos e mostrar caminhos. Porque se não mostrarmos caminhos perdemo-nos no meio da selva e nós não queremos que o nosso basquetebol não esteja bem orientado, não tenha rumos. Pretendemos criar rumos para o basquetebol.

Benfica, Sporting e FC Porto podem fazer mais pelo basquetebol em Portugal? Vemos modalidades como o futsal, o hóquei em patins e até o andebol a transportarem para os pavilhões um bocadinho do ambiente vivido nos estádios de futebol nos jogos grandes, mas parece que isso não se replica no basquetebol. Porquê?
Essas equipas são responsáveis de alguma maneira, são os ilustres cartões de visita da nossa modalidade. O facto de essas três equipas existirem na modalidade e fazerem substanciais investimentos na modalidade significa que estão cá e estão cá com uma atitude elevatória. E têm mesmo projetos europeus, todas elas participam nas competições europeias. Acho que o problema não passa por eles, acho que o problema passa pela modalidade toda e pelo recuperar de uma coisa chamada credibilidade, recuperar um sentido de unidade. As rivalidades são ótimas, nada contra as rivalidades, mas é preciso termos mais objetivos do que apenas o objetivo da competição. É preciso criar o produto e nós temos negligenciado a questão do produto. Um jogo de basquetebol é pouco para o produto, é preciso mais do que ser um jogo de basquetebol. É preciso a animação, é preciso a venda do produto, é preciso comunicar para fora. É uma crítica, mas é assim.


Hoje em dia, todas as organizações comunicam muito bem para dentro, isto é, para dentro da sua própria modalidade, mas não se comunica tão bem para fora. Nós queremos crescer, temos de comunicar para fora, mais do que comunicar só para dentro. E isto acaba por ser uma alimentação. Não interessa ter um social media fortíssimo se só estamos a comunicar para dentro. Se só comunicamos para dentro, ficamos retidos nos números que temos e dificilmente os fazemos crescer. Há que fazer alguma coisa nessa matéria, porque o marketing é criar o produto e o produto ajuda a pagar as contas, portanto, temos de melhorar a qualidade do produto, a credibilidade do produto, a eficiência do produto e temos de ser imaginativos – quer nas competições que fazemos, quer na forma como oferecemos isto ao grande público, quer na forma como oferecemos isto ao potencial patrocinador.

"Não estou preocupado, como as pessoas dizem, em contar espingardas. Quantos é que votam, quantos é que não votam. Eu nem gosto muito de espingardas, não gosto de matar, gosto mais de tirar fotografias. Por isso, estou preocupado, sim, em ter propostas válidas para o basquetebol, apontar caminhos para o basquetebol, não ter medo de assumir liderança, porque é preciso assumir liderança, é preciso mostrar o caráter que temos, a capacidade que temos e mostrar caminhos."
Carlos Barroca

Conta com o Carlos Lisboa como embaixador, o Jorge Araújo como mandatário e o Miguel Minhava como diretor técnico. Ter esses três nomes tão importantes consigo era quase uma condição sine qua non para se candidatar?
É uma coisa que acaba por acontecer. Acabámos de falar em produto: acho que também sou um produto. Sou um produto credível. E ao ser um produto credível, quando vou falar com qualquer uma dessas pessoas, é fácil avançar. A qualidade humana e a genuinidade é aquilo que vende mais facilmente. Não preciso de comprar ninguém, só preciso de que as pessoas acreditem que estou empenhado no que estou a fazer, que eu seja credível e genuíno no que estou a apontar e no que estou a pedir a cada um deles. Acho que isso funciona como marketing e produto para que as pessoas alinhem comigo. Foi bastante fácil. O professor Jorge Araújo é um mandatário de classe. O Carlos Lisboa, há quem goste dele e quem não goste dele, mas é o Carlos Lisboa, é único. São todos bons. Aquilo que me serve sempre na minha relação com as pessoas é olhar para o que é a matriz de sucesso, não para a matriz do insucesso. E a diversidade é ótima numa equipa. Tenho uma diversidade fantástica, adoro isto. Adoro trabalhar em escritórios onde há 40 nacionalidades diferentes. A diversidade é a natureza do mundo de hoje. O mundo de hoje é tão aberto que se nós não percebermos o que é a diversidade ficamos fechados numa conchinha muito pequena. Quero que o basquetebol português seja grande.

Já disse que quer chegar aos 45 mil federados até 2030 e qualificar Portugal para o 3×3 dos Jogos Olímpicos de 2028. Essas são as duas grandes prioridades? Ou o objetivo passa simplesmente por tornar o basquetebol na principal modalidade de pavilhão em Portugal?
É tornar o basquetebol numa modalidade de destaque. Não estou preocupado com a concorrência com as outras modalidades, embora essa frase sirva de orientação. Gosto sempre de pensar que se posso ser o melhor do mundo não quero ser o melhor da minha rua. O basquetebol tem gente extraordinária, tenho viajado muito pelo país, conheci muita gente, dirigentes, treinadores, clubes, e o basquetebol tem gente extraordinária. Do que é que as pessoas precisam quase todas? De acreditar que há algo mais do que aquilo que estão a fazer naquele pequeno espaço. Acreditar que aquilo que fazem pode contribuir para massificar o desporto e ser uma razão social de prática desportiva, de combate ao sedentarismo, de combate à falta de saúde. Mas ao mesmo tempo pode ser para encontrar talento e nós temos de ter essa capacidade.

E como é que se encontra talento?
Já disse vezes sem conta à minha equipa que não há secretárias para eles na Federação, quero o rabo na estrada e quero que vão bater às portas todas do país e alimentar o sonho de cada criança, de cada treinador, de cada associação, para que as pessoas sintam que fazem parte deste todo que é o basquetebol. Temos de começar a olhar para outra área, que é a área da escola. Há muitas escolas que hoje se transformaram, algumas já com 40 anos de vida, em casos de sucesso no basquetebol federado. Dizerem-me que a escola está de costas viradas para o basquetebol… Não. A escola está à espera de que nós tenhamos a capacidade de iniciativa de chegar às escolas, de voltar a articular com o professor de Educação Física, com a escola, com o espaço, até porque nós temos uma coisa que, essa sim, é miserável: as nossas instalações desportivas. São francamente insuficientes. Pedimos aos clubes para crescerem, mas crescer como? Para onde? Os espanhóis começaram a crescer no basquetebol na década de 70 fazendo o que nós já fizemos e que agora não fazemos, que é ir à escola. Não é preciso inventar nada, é preciso trabalhar.

Foi coordenador nacional do Desporto Escolar durante quatro anos. Existe muito aquele chavão de que Portugal é um país sem cultura desportiva, só cultura futebolística: 1) é verdade? E 2) se sim, como é que se muda?
Sou o professor mais otimista do mundo. Lembro-me de que quando o professor David Justino, então ministro da Educação, me convidou para ser diretor do Desporto Escolar eu aceitei imediatamente. Porque vivi nos EUA e trabalhava com uma equipa universitária, da Universidade de Pace em Nova Iorque. E fazia scouting e recruiting, tinha de ir visitar escolas, perceber como é que funcionavam as escolas, tudo o que é o desporto associado à escola. E lá está, nós aprendemos. Quando pensamos num liceu em Portugal imaginamos que vamos ter uma equipa de basquetebol, uma de vólei, uma de futsal, mas isso é pouco. Numa escola que tem 500 alunos tens 100 que praticam essas modalidades, mas depois tens 400 que não praticam nada. O que é que eu fiz? Muito simples, adaptei conhecimentos e criei uma coisa chamada atividade interna, dei horas de atividade interna para que outro professor fizesse jogos dentro da escola, turmas contra turmas, os interturmas. O que aconteceu foi que rapidamente os números do Desporto Escolar multiplicaram-se por 15, porque em vez de termos 20 miúdos a jogar basquetebol tínhamos 200. O que queria era a prática desportiva, não era nada especializado no basquetebol. Não há problemas, há dificuldades. As dificuldades são para ser ultrapassadas. Every step is a struggle, go over the struggle.

O Neemias Queta agora, mas também a Ticha Penicheiro e a Mery Andrade antes, tiveram de sair de Portugal e fazer muitos sacrifícios para chegar onde chegaram. É possível Portugal ter um jogador português a jogar em Portugal que salta depois para a NBA ou ainda estamos a anos-luz disso?
Não estamos a anos-luz. O primeiro é o mais difícil. Era a pergunta a que mais vezes respondia quando comentador de televisão: quando é que vamos ter um jogador da NBA? E a minha resposta era sempre a mesma: não me perguntem a mim, a pergunta é para vocês, os jogadores que estão aí desse lado, quem é que está disposto a pagar o preço para lá chegar? Agora, vale a pena ter sonhos? Vale. Sonhem em ser os melhores do mundo. Não sonhem, já disse, em ser os melhores da vossa rua. Quem quer ser o melhor da rua nunca vai sonhar alto, nunca vai voar alto. Podem não conseguir concretizar o vosso sonho, mas o sonho tem que lá estar. Há mais talento em Portugal. Há mais talento em Portugal, mas temos de acelerar a produção de talento. O basquetebol serve para tudo aquilo de que se fala, para a educação, para o desporto, para os valores, para trabalhar em equipa, para trabalhar com respeito. Serve para tudo isso. Mas para alguns, aqueles que querem ir mais longe, tem de ser servido também com uma capacidade de criar a tal pipeline.

E como é que se cria esse corredor?
Quem quer ir mais longe tem de jogar mais vezes com as melhores equipas e tem de jogar durante mais tempo, tem que fazer mais jogos durante o ano. Essa pipeline tem de começar a existir, os nossos treinadores têm de ser qualificados. O que é que é preciso fazer? Fazer as pessoas acreditar. E acreditar primeiro em quem? Nelas próprias. O divisionismo só nos limita. O trabalharmos em equipa, termos objetivos comuns e ter visão para onde é que queremos ir ajuda toda a gente a ter o rumo para o sítio certo. Uma maratona são 42,195 quilómetros, mas tens de dar o primeiro passo, o segundo e o terceiro. O problema é que se deres os três primeiros passos no sentido contrário da maratona vais atrasar-te em relação a toda a gente. Temos de pôr toda a gente a remar no sentido contrário. que maioritariamente queremos e entendemos.

O facto de o Neemias ter chegado à NBA ajuda a potenciar a modalidade em Portugal pelo simples motivo de já existir um ídolo? Um bocadinho aquela ideia de que “se ele conseguiu eu também consigo”.
Sim, mas isso tem que se espelhar em algum lado. E, por exemplo, nós estamos a falar de 2025. Foi tudo fantástico. Mas não teve consequências, não é? Os números mostram que tivemos menos 500 praticantes do que no ano anterior. É inadmissível. Se temos isto tudo tem que haver uma consequência de investimento na promoção da modalidade, para que mais miúdos apareçam a jogar. E atenção, não é só uma questão de termos mais miúdos, é uma questão de termos também mais financiamento. E esse financiamento tem de vir da procura de sponsors, de outras formas de financiar. Uma coisa é gastar dinheiro, outra coisa é investir dinheiro. Numa modalidade como o basquetebol é preciso, independentemente da quantidade de dinheiro que haja, olhar para onde é que é prioritário o dinheiro chegar. Tenho uma frase que é a minha frase favorita: os clubes são o coração da modalidade. Os clubes é que têm que ter mais capacidade, mais recursos humanos ou financeiros para ir mais longe. O dinheiro da Federação tem que chegar às associações e tem que chegar aos clubes de forma a que estes possam crescer. Quanto mais atletas há, mais dinheiro se recebe. Só há uma solução, que é perceber bem as coisas, ajustar e depois trabalhar.

"Era a pergunta a que eu mais vezes respondia quando comentador de televisão: quando é que vamos ter um jogador da NBA? E a minha resposta era sempre a mesma: não me perguntem a mim, a pergunta é para vocês, os jogadores que estão aí desse lado, quem é que está disposto a pagar o preço para lá chegar? Agora, vale a pena ter sonhos? Vale. Sonhem em ser os melhores do mundo. Não sonhem, já disse, em ser os melhores da vossa rua."
Carlos Barroca

Olhando agora para o seu percurso, ainda se lembra do primeiro contacto com o basquetebol? Foi já em Moçambique, certo?
Foi em Moçambique. Os meus pais eram pessoas muito pobres e o meu pai tinha tido um desastre em que tinha ficado com o braço direito imobilizado. A minha mãe não trabalhava na altura e foi tirar um curso de cabeleireira. Já tinham família em Moçambique, nomeadamente do lado da minha mãe, e decidiram tentar a vida em Moçambique. Andei numa escola que era a Missão de São José de Lhanguene, que era uma escola nos subúrbios de Lourenço Marques, agora Maputo. E lembro-me de que era pequenino, era rápido, e havia um campo de futebol de terra batida, onde estavam os gajos mais velhos. Era da primeira classe, não tinha acesso a isso. Mas de repente a bola saiu e foi lá para trás, para um sítio onde nunca tinha estado. E quando cheguei lá… Estava num campo que parecia que tinha uma girafa assim em cima, depois mais tarde percebi que era um campo de basquetebol. Os mais velhos a gritar comigo para eu passar a bola e eu a tentar meter a bola no cesto. Não me lembro se consegui ou não consegui, mas foi o meu primeiro contacto com a bola. E era uma bola de futebol, que serve perfeitamente para lançar ao cesto, como qualquer bola. No ano seguinte tive a sorte de mudar para uma escola que tinha tabelas de minibasquete e de haver um ex-aluno da escola, que se chama Sérgio Candeias, hoje já reformado, foi arquiteto da Câmara Municipal de Oeiras, que foi o meu primeiro treinador.

E como é que o basquetebol passou de ser uma espécie de passatempo para se tornar uma profissão? Ou nunca chegou a ser algo tão irrelevante como um passatempo?
Eu não sei se consigo responder a essa pergunta. Acho que o primeiro desafio vem sempre da vida, isto tem a ver com as características de cada um, e foi dizerem-me que não era possível. Toda a gente dizia que eu era pequenino, mas eu gostava de jogar basquetebol e então contrariar a lógica de que era pequenino e não podia jogar basquetebol acho que foi sempre um desafio para mim. Joguei basquetebol em Moçambique, é o mesmo caso do [Carlos] Lisboa. Éramos vizinhos, depois fomos colegas de escola, embora ele seja um ano mais velho, colegas de carteira. Ele ficava na carteira ao lado da minha e confesso que copiávamos um pelo outro. Foi uma infância muito feliz, jogámos minibasquete juntos e depois nos iniciados separámo-nos, mas quem é amigo de infância é amigo para a vida toda. Quando vim para Portugal, em 1974, o meu primeiro ano foi em Santarém.

E continuou a jogar basquetebol em Santarém?
A minha maior frustração quando cheguei a Santarém foi que não havia basquetebol em Santarém. Então eu, feito tonto, porque sou perfeitamente tonto, levava a bola debaixo do braço para o liceu e havia um campo cá fora. E lá estava eu, com a bola laranja debaixo do braço a jogar e a malta toda a olhar para mim, era um ET que estava ali. A verdade é que o ET continuou e apareceu um, apareceu outro, apareceu outro. Eu não tinha dinheiro para as refeições todas, tinha uma pequena reforma do meu pai do tal acidente e tinha de gerir entre o quarto onde dormia e a alimentação, o dinheiro não chegava para almoçar e jantar todos os dias. No final desse ano as outras escolas de Santarém começaram a perguntar se eu não queria ir dar uns treinos, jogar com a malta. Eu disse que sim, mas só se me dessem uma senha para comer.

Foi algo que começou a sentir que tinha de fazer?
Comecei a perceber que tinha ali uma skill qualquer, gostava de estar com pessoas, gostava de ensinar o que sabia e isso deu-me a possibilidade de não passar fome, o basquetebol deu-me a possibilidade de não passar fome. É a vida, é a vida. A adaptabilidade é uma coisa que, quando se é pobre, rapidamente faz parte da tua vida. Fui jogador internacional, fui campeão nacional como jogador, como treinador. Aos 20 anos parti o cotovelo duas vezes e tive de parar de jogar. Já gostava muito de ensinar e, portanto, a vida continuou, nem sequer foi um drama. O basquetebol faz parte da minha vida. O basquetebol é… My life is basketball, basketball is my life. E é isso que quero continuar a ser, uma melhor pessoa, transformar vidas. Transformar vidas passou a ser o meu propósito. Gosto muito da expressão ‘full potential’, levar cada pessoa, de cada miúdo que treina comigo, de cada atleta que já treinei, de cada treinador que estou a formar, ao seu full potential.

Aos 13 anos e ainda em Moçambique já estava a fazer formações para ser treinador, segundo li numa entrevista. Como é que um pré-adolescente já tem essa vontade de aprender para depois ensinar aos outros?
Posso ler um poema?

Claro.
Eu descobri há tempos um poema e há coisas na nossa vida que são premonições, são coisas que não percebemos na altura. Há dias encontrei um livro, um caderno que tinha na altura do Liceu de Santarém, teria uns 15 anos quando aquilo foi escrito, e estava lá um poema que escrevi.

Olha-te,
Também tu poderás ser o sol de cada manhã.
Olha-te,
Não vejas o teu mal,
Vê o amor que tens para dar,
Toma-o e ilumina os outros à tua volta.

A questão é como é que aos 15 anos eu tinha esta perceção do que viria a ser a minha vida. [Emociona-se]. É bom encontrar o propósito. Acho que isso para mim foi revelado durante os anos que fui responsável pelo Desporto Escolar. Porque dava-me imenso prazer perceber que uma decisão que era tomada no gabinete, de produzir um poster, de criar um produto, de alimentar o ego das pessoas – porque isto é importantíssimo, que as pessoas sintam que são respeitadas, que são valorizadas – fazia com que em vez de ter 100 mil miúdos a praticar Desporto Escolar e toda a gente dizer que não servia para nada, ninguém acreditava nisso, tivesse todas as escolas a praticar desporto. Transformar a vida das pessoas é fantástico e o desporto é a minha arma para o fazer. A comunicação é a forma como sirvo, a empatia é aquilo que cria a relação. Só consigo vender aquilo em que acredito e acredito que o desporto é muito mais do que financiamentos e dinheiros. É preciso isso, mas podemos ter isso e não ter mais nada. É preciso ter muito mais do que dinheiro, é preciso ter muito mais que os recursos financeiros. É preciso ter os recursos humanos alinhados para aquilo que o desporto pode e deve servir.

Como é que acontece o salto de ser jogador e depois treinador em Portugal para estar recorrentemente nos EUA e com ligações a jogadores e treinadores da NBA e do basquetebol norte-americano no geral?
É através do período como adjunto em Pace, de certa maneira. Olhando para a minha vida diria que tudo o que fiz na vida preparou-me para o que vinha a seguir sem saber o que é que vinha a seguir. Nunca tive sequer esta pretensão de trabalhar para a NBA. Agora, se estás numa modalidade onde a NBA é referência e se fizeres bem as coisas e tiveres sorte, acontecem as circunstâncias das relações pessoais. É sempre assim que as coisas começam. Foi alguém que conheci numa determinada circunstância como comentador televisivo da RTP que mais tarde, num avião, disse-me: ‘Carlos, precisava de ti, porque nós estamos a fazer este programa do basquetebol em África, temos muitos treinadores, há dificuldades de língua e tu falas as línguas todas que é preciso e és treinador, podes ajudar’. E eu disse ok. E este meu amor começou em 2004 com essa ida para o Basketball Without Borders [BWB].

"Transformar a vida das pessoas é fantástico e o desporto é a minha arma para o fazer. A comunicação é a forma como sirvo, a empatia é aquilo que cria a relação. Só consigo vender aquilo em que acredito e acredito que o desporto é muito mais do que financiamentos e dinheiros. É preciso isso, mas podemos ter isso e não ter mais nada."
Carlos Barroca

Ficou surpreendido com o convite, já em 2014, para ser vice-presidente de operações da NBA Ásia?
Já conhecia as pessoas que me convidaram há mais de dez anos, por causa do BWB. Diria que foi a porta de entrada. E em 2013 eu organizei o BWB Europa em Portugal e foi um êxito enorme. Um êxito como resultado desportivo e um êxito como organização. Lembro-me de o Brooks [Meek], que era na altura o vice-presidente responsável por esse projeto, ter chegado a Lisboa e ter dito que nunca tinha ido a um BWB em que estivesse tudo preparado antes de ele chegar. Na altura lançou-me o desafio e disse que a partir daí eu ia à frente, para organizar tudo, e quando eles chegassem já estava tudo preparado. Rapidamente passei de preparar os BWB para ser contratado por eles para fazer este trabalho.

É uma das vozes mais reconhecidas do desporto em Portugal, já que foi comentador durante décadas na RTP e na Sport TV. Quando aceitou o primeiro convite, ainda no final dos anos 80, tinha noção de que podia ser uma coisa para tanto tempo?
Foi acontecendo. Antes de ter ido viver para Nova Iorque, e costumava dizer isso muitas vezes, não gostava dos comentários desportivos em Portugal. Eram cinzentos, muito aborrecidos, com muita linguagem que não percebia. Nos EUA apaixonei-me pela televisão, porque a televisão desportiva nos EUA era divertida, era colorida, era bem disposta. Lembro-me de que dizia ao treinador principal em Pace que a televisão era uma coisa gira e ele respondia que eu não era comentador, era treinador. Mas eu também era professor e a televisão podia ser uma sala de aula com muita gente. E a verdade é que cheguei a Portugal e um dia depois o professor João Coutinho ligou-me e disse ‘Carlos, queres vir?’. E eu disse ok. Lembro-me de que ao princípio o professor João Coutinho levava para aí 20 fichas, umas azuis, umas de outras cores, e eu olhava para aquilo e pensava que não tinha feito nada daquilo. Na vez seguinte em que fomos comentar também fiz umas fichas, mas depois percebi que não era o meu estilo. O meu estilo era mesmo estar com os pés em cima da mesa a comentar o jogo. Esse sempre foi o meu estilo, comunidade. No fundo, estou a falar para a pessoa como se a pessoa estivesse ao pé de mim e é para ela que estou a falar.

Teve essa preocupação de fazer diferente, de aproximar os comentários do que já se fazia nos EUA, menos cinzento e mais perto do entretenimento?
Sim, fazer diferente. Fazer diferente porque não conseguiria fazer um comentário cinzento. Eu não sou cinzento, eu brinco com a vida. E brincar com a vida é uma maneira de estar que abre portas. E abrir portas é comunicar positivamente. Fazia comentários para quem não percebe nada de basquetebol, para cativar pessoas para gostarem de basquetebol. Nós temos de ter mais gente a gostar de basquetebol. Se comunicamos apenas para os cientistas… Cientistas somos poucos.

A dada altura existia uma espécie de comunidade entre as pessoas que estavam acordadas àquela hora para assistir aos jogos e os comentadores. Qual é a melhor história que tem desses tempos?
Oferecerem-me uma gaiola com periquitos, aparecerem-me 20 pessoas à meia-noite para passar o fim do ano. Dizer que adoro comer leitão e aparecer uma pessoa com um leitão na Sport TV. Desafiar a malta que dizia que estava a estudar para os mestrados ou doutoramentos àquela hora, dizer que nunca iam acabar os cursos, e depois receber as teses de mestrado. E fizemos jogos, eu e o Luís Avelãs juntávamos pessoas que vinham do país inteiro para irmos jogar basquetebol e depois íamos almoçar, íamos jantar, era uma comunidade. Nós precisamos de comunidade, mais do que nunca. Nunca houve tanta informação disponível como hoje e nunca houve tanta necessidade de humanização como há hoje. Nós precisamos de criar comunidade. Como se cria? Com gentileza, com boa educação e com genuinidade, com a forma como falamos com as pessoas.

É verdade que o professor Marcelo Rebelo de Sousa ligava várias vezes durante as transmissões, de madrugada?
É verdade. Jantei com ele na quinta-feira passada e estivemos a recordar isso, ele recorda isso com imensa piada. Foi uma pessoa que me ajudou imenso com o Desporto Escolar. Na altura em que estava no Desporto Escolar ele fazia aquilo a que eu chamava homilias ao domingo, na TVI. E eu, a certa altura, pedi-lhe ajuda. Faltava-nos comunicação. Tínhamos uma página num jornal desportivo por semana, uma página num jornal generalista, um programa de rádio, um programa de televisão. E pedi ao professor Marcelo que, ao domingo, tirasse cinco minutos para falar de uma escola em Bragança ou de um professor de Foz Côa. Isto faz o quê? Vaidade, orgulho, elevação. O professor Marcelo foi importantíssimo. Somos amigos há muitos anos, fomos jantar na quinta-feira e estivemos três horas a jantar, a contar histórias um ao outro e a recordar coisas da nossa vida. Não estávamos juntos há algum tempo porque ele obviamente, tinha outras funções como Presidente da República. Mas fomos pôr as contas em dia e foi extremamente agradável.

Sente falta desses dias da televisão? Ou é um capítulo que está completamente encerrado?
Não, não sinto falta. Foram 25 anos. Quando nos afastamos percebemos que tudo na vida tem um preço. E paguei o preço disto tudo, particularmente na saúde. Porque nem todas as noites eram noites boas, eram noites duras. Eu lembro-me que, invariavelmente, bebia mais Coca-Cola, bebia mais cafés, comia mais chocolates, que é aquilo que nos dá energia para utilizar. Trabalhar, ver o sol nascer todos os dias é um bocadinho poético, mas todos os dias não é poético. Portanto, a saúde ficou… Nos últimos dois anos de Sport TV em 10 meses do ano tinha uma média de 41 jogos por mês. E o mês só tem 30 dias. Se vinham os Campeonatos do Mundo eram cinco jogos seguidos, se vinham os Campeonatos da Europa ou os Jogos Olímpicos ou NBA ou WNBA… Era muito, muito trabalho. Mas eu adorava o que fazia. Aliás, acho que aquilo que é a maior satisfação que tenho na vida é que não faço sacrifícios. Tenho prazer em fazer o que faço. E entrego-me completamente, não há outra maneira. E preparo-me para o que vem a seguir, seja o que for. E, portanto, se for a Federação Portuguesa de Basquetebol, venha ela. Venha com trabalho, venha com exigências, venha com dificuldades, venha ela. O que é que me pode acontecer? Fazer algumas coisas menos bem acontece sempre na vida, não acertamos sempre em tudo o que fazemos. É preciso ter argumentos, competências e qualificações para fazer as coisas e não fugir delas. Enfrentá-las olhos nos olhos.

"O professor Marcelo foi importantíssimo [no Desporto Escolar]. Somos amigos há muitos anos, fomos jantar na quinta-feira e estivemos três horas a jantar, a contar histórias um ao outro e a recordar coisas da nossa vida. Não estávamos juntos há algum tempo porque ele obviamente, tinha outras funções como Presidente da República. Mas fomos pôr as contas em dia e foi extremamente agradável."
Carlos Barroca

Lembra-se do primeiro jogo da NBA que comentou na televisão?
Lembro. E foi por esta altura. Foi um jogo à noite, na altura era à noite, sábado à noite. Fui entrevistado pelo Orlando Dias Agudo, tive essa entrevista a seguir porque na semana anterior o professor João Coutinho tinha-me convidado, disse ‘Carlos, vieste lá dos EUA, não queres fazer isto?’. E fui fazer o jogo, em março, faz agora 37 anos, foi em 1989. Já foi há algum tempo. Isto de ser mais velho pode servir para nos queixarmos da vida ou pode servir para nos sentirmos abençoados pela vida. E estou desse lado dos abençoados pela vida.

É impossível não perguntar isto quando se tem Carlos Barroca à frente: qual foi o melhor jogador que viu jogar? Ou o seu favorito.
É muito difícil, porque acompanhei jogadores em gerações completamente diferentes. Ver jogar pessoalmente o Michael Jordan, obviamente, face to face no campo a vê-lo jogar, o Kobe… Mas depois tenho um problema, que é o problema das relações humanas. Tenho muitos amigos que não são nem o Kobe nem o Michael Jordan. E portanto, em gerações diferentes, sei lá, o Muggsy [Bogues] é um dos meus favoritos, o mais baixo de sempre. E porquê? Porque nos 44 países em que trabalhei em basquetebol eram sempre países com gente pequena, como nós. Então criei uma frase, que é ‘basketball, short or tall, is a game for all’. Esta frase está traduzida em 20 línguas diferentes e apareceu em jornais, em revistas, em não sei o quê. E o Muggsy é um excelente amigo.

E um bom exemplo de que é possível não ser assim tão alto e ser um ótimo jogador de basquetebol?
Ele é um exemplo fantástico para uma escola de miúdos, de repente os miúdos estão a olhar para ele e a questionar se jogou na NBA porque é da altura deles, às vezes mais pequeno do que eles. E ele jogou mais de uma dúzia de anos na NBA. Há muita gente especial no mundo, o talento de basquetebol é uma coisa e o talento humano é outra. A NBA está muito bem servida hoje, já houve tempos em que não era assim, era sex, drugs and rock & roll, hoje a maior parte dos jogadores da NBA são gente que sabe falar, que sabe estar, que sabe conduzir. Já trabalhei pessoalmente com o Tony Parker quando era miúdo, com o Giannis [Antetokounmpo], com o Chris Paul, com o Jaylen Brown que agora é companheiro de equipa do Neemias, David Robinson, Hakeem Olajuwon… Quais são os meus preferidos? São todos, desde que se portem bem.

Tinha 55 anos na altura em que foi convidado para ir para a NBA. A ideia de sair definitivamente do país e aceitar um cargo com tamanha responsabilidade e tantas viagens associadas alguma vez pesou? Ou não pensou muito e foi rápido a aceitar?
Tomei a decisão em cinco segundos. Estava num casamento no México, era o Brooks [Meek] que estava a casar. Estava na piscina a nadar e eles chamaram-me para a Ásia, para a Índia, etc. Depois passei um bocadinho mal porque nunca tinha estado na Índia e fui à Índia visitar aquilo, já me tinha demitido da Sport TV e já tinha dito às pessoas, e não estava preparado para o que ia haver quando cheguei à Índia, quando cheguei a Bombaim. Voltei e e lembro-me de estar assim tipo calado durante três dias a perguntar o que é que fui fazer. Será que não devia equacionar, voltar atrás? Mas não. Não vou mudar o mundo, vou mudar o mundo das pessoas que vão trabalhar comigo. É isso que sabe tão bem, fazer parte da vida das pessoas e influenciá-las positivamente para que cheguem ao seu full potential. Eu era influenciador e não sabia, influencer.

Foram dez anos no cargo. Já disse que superou os objetivos, mas deixou alguma coisa por fazer? De que é que se orgulha mais?
Mais do que essa questão do número ou mais do que essa questão do objetivo em termos práticos tenho orgulho de ter feito parte de um projeto que vai precisar de muito tempo para ser ultrapassado. 50 milhões de miúdos começaram a jogar basquetebol por causa do programa que instituímos em 12 países da Ásia. É uma coisa absolutamente irreal, absolutamente espantosa, quase que inacreditável. E isto foi feito em peças. Train the trainer, coach the coach, teach the teachers. Ainda hoje, na Índia, quando se fala em basquetebol alguém fala no Carlos Barroca. É fascinante.

De que maneira é que esses dez anos na NBA vão ajudá-lo na eventual presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol?
Não estou preocupado com isso. Estou preocupado com a evolução do basquetebol português. Tenho propostas que têm sido feitas, propostas que têm sido lançadas. Não conto espingardas, não vou saber até à hora da votação quem vota em mim, quem não vota em mim. Não estou absolutamente nada preocupado com isso. Estou preocupado em dar o meu máximo, como sempre dei na minha vida. Tenho 1,72 metros, fui jogador internacional, fui campeão, fui treinador campeão. A minha vida é fazer aquilo que controlo. Aquilo que não controlo, não controlo. Não estou preocupado. Estou preocupado, sim, em que estes 10 anos ou o resto da minha vida, tenham sido para estar nesta posição em que estou hoje, em que me sinto honrado em ser recebido pelas pessoas. Se vai ajudar ou não não depende de mim. Não prometo nada que não consiga fazer. Tenho portas abertas para crescer, tenho portas abertas para acreditar que é possível. Razões sustentadas para saber que aquilo que estou a dizer é possível de concretizar.

"[Depois de aceitar a NBA] passei um bocadinho mal porque eu nunca tinha estado na Índia e fui à Índia visitar aquilo, já me tinha demitido da Sport TV e já tinha dito às pessoas, e não estava preparado para o que ia haver quando cheguei à Índia, quando cheguei a Mumbai. Voltei e e lembro-me de estar assim tipo calado durante três dias a perguntar o que é que fui fazer. Será que não devia equacionar, voltar atrás? Mas não."
Carlos Barroca

Diz que não conta espingardas, mas já recebeu apoios relevantes?
Pessoas com peso que já ligaram a dizer que o apoiam, que estão contentes por se ter candidatado? É assim, se isto fosse uma eleição popular eu já tinha ganhado. Porque toda a gente diz ‘Carlos, tu vais ganhar, tu vais ganhar’. Isto não é uma eleição assim, porque estamos num país que tem regras e existem delegados inerentes e eleitos que votam. E depois há votos dos jogadores, votos dos treinadores e votos dos juízes. O que é muito interessante é o facto de existirem duas listas a concorrer, todos os números foram batidos, nunca houve tanta votação, tantos candidatos a delegados, nunca houve uma votação tão grande nem tanto interesse à volta das eleições. Quem beneficia com isto? O basquetebol. Mas que o basquetebol beneficie disto para ser melhor. Beneficie disto para poder criar mais valor, não só financeiro como valor social.

Concorda com a ideia de que os atletas em Portugal, seja de que modalidade for, vivem fechados nas suas bolhas e dentro de si próprios? Parece que há pouco contacto com o público, com os adeptos, com os fãs, enquanto que países como os EUA incentivam esse engagement.
Porque somos pequenos. Porque somos pequenos. Uma das coisas mais fascinantes da NBA é exatamente a abertura e o diálogo e a capacidade de comunicação, de perceber que a valorização do produto valoriza o produto para todos. Nós não temos ainda uma riqueza como modalidade, esta ou qualquer outra. Mesmo no futebol, obviamente que quem ganha muito dinheiro tem muito dinheiro, mas não são todos os que ganham muito dinheiro. Nós não podemos querer caminhos se não arriscamos ir por esses caminhos fora. É preciso que no caminho para a profissionalização também os atletas façam parte da mudança, façam parte de propostas, façam parte de soluções, façam parte de criar o melhor mercado.

Já disse em várias entrevistas e aqui também que o basquetebol é a sua vida. Assim sendo, qual foi o melhor dia da sua vida?
Quando estou dentro do campo. Dia 9 de abril celebram-se dez anos desde que lancei o NBA Basketball School na Índia, foi o primeiro, e hoje existe em mais de 50 países. A minha vida é um fairytale [conto de fadas], é uma história que não vai acabar aqui. Porque, aconteça o que acontecer, a minha ligação ao basquetebol é como o cheiro do nosso corpo, é a minha pele, não vou nunca deixar o basquetebol. Estou super motivado, isso é uma condição importante, e feliz por estar a fazer isto. Não estou angustiado com nada. Gostava imenso de ter tido a oportunidade, que ainda não tive até agora, de ter um debate com o João [Carvalho].

Para falar sobre o passado ou sobre o futuro?
O basquetebol e o desporto merecem ser uma coisa transparente e era bom que falássemos abertamente sobre as coisas para que a informação, a transparência, fosse real e não apenas aparente. Ser presidente da Federação é uma coisa desafiadora. Existem 21 associações no país e todas elas precisam de mais recursos, os clubes precisam de mais recursos, e o presidente da Federação, seja ele quem for, tem de ser uma pessoa bem relacionada. Não querer ser apenas o dono deste bocadinho pequenino, querer ser parte do mundo inteiro. E é isso que eu quero trazer para o basquetebol: a capacidade de sonhar mais alto, de ir mais longe, de ser melhor, de termos mais Neemias, mais Tichas, mais Merys, ter mais treinadores portugueses pelo mundo inteiro, ter mais miúdas que queiram chegar à WNBA. Fazer sonhar quem quer sonhar e alimentar os sonhos de quem quer sonhar.