A propósito da muito badalada questão da eleição dos juízes para o Tribunal Constitucional, ou seja, de que partido deveria cada um desses juízes emanar, alguém com responsabilidades na matéria, numa tentativa retórica de retirar o Chega de qualquer participação, afirmou que apenas as forças políticas que respeitassem a Constituição deveriam ter lugar à mesa. Corolário, só os defensores da democracia liberal teriam oportunidade de propor para aquele órgão de soberania. Em tom de sentença, o mesmo indivíduo propalou a ideia, para ele óbvia e imperativa, que democracia e liberalismo, apesar de não serem sinónimos, andam sempre necessariamente de mãos dadas. Não seria possível, seguindo tais pisadas argumentativas, conceber um democrata iliberal ou um liberal antidemocrata.
Para lá do esclarecimento cabal de saber se a Constituição de 76 foi um ato legislativo de cariz democrata-liberal, são graves as conclusões deste jurista; senão, atentemos nas palavras já seculares de outro homem das leis, Carl Schmitt: Pode haver democracia sem aquilo a que se chama o parlamentarismo moderno e um parlamentarismo sem democracia; e tão-pouco a ditadura se opõe decisivamente à democracia como a democracia à ditadura. Consequentemente, Schmitt distinguia, opondo-os, democracia e liberalismo (parlamentarismo), pois a primeira defende a igualdade plena e irredutível de todos os homens, enquanto o segundo os divide (no limite) entre representados e representantes. Pertence à essência da democracia (popular) a igualdade absoluta e é intrínseco ao liberalismo (burguês) captar a diferença insanável. O alemão via-os assim como um paradoxo e, como tal, irresolúvel no quadro político moderno. Existe uma contradição em princípio entre ambos os conceitos, o que remeteria, na sua visão, para uma terceira via com encantos metafísicos.
Para efeitos do debate de ideias, importa sublinhar que, historicamente, democracia significava uma via direta, ou seja, e como exemplo, na antiga Atenas, todos os homens livres tinham viva-voz na assembleia. Ignorando neste momento as consequências políticas de tal prática, a verdade é que muito depressa se tornou patente um facto: a sala não chega para todos, conforme dizia já no século XVII, John Selden. A Revolução Francesa não esclareceu nem resolveu de forma cristalina a questão: se na vez de Deus ganhava corpo o povo, quem era, afinal, este novo soberano e como ele se consubstancia em termos de operação política num Estado cada vez mais moderno, isto é, cada vez mais complexo e exigente? São por demais conhecidos os limites que os legisladores constituintes vão impor aos nacionais para moldar e resgatar esse povo eleitor, essa parcela que adiciona politicamente. Muito depressa vão surgir as problemáticas da representação política moderna, o processo que transforma uns em efetivos decisores e outros em atores passivos. Estava aberta a querela do mandato imperativo, visando o estabelecimento da relação entre representante e representado. «Por um lado, a democracia, ao afirmar a identidade entre o povo e o soberano, leva o eleitor a querer ver-se no representante, isto é, a querer ver as suas opiniões e aspirações expressas no parlamento e traduzidas em leis». Mas, conforme insiste Pires Aurélio, por outro lado, legislar exige competências e conhecimentos que não são universais. Portanto, não é decididamente o tamanho da sala que divide a nação política, mas o know-how exigido a uma das partes envolvidas na contenda. Ora, o liberalismo individualista, alertando para a liberdade, vai entrar em choque com a democracia igualitária. Como muito mais tarde esclarecerá Isaiah Berlin, são duas linhas paralelas que jamais se entrecruzam. Enquanto a democracia e o liberalismo lutavam contra o absolutismo monárquico, o cenário mantinha-se pacífico entre ambos; contudo, a partir do instante em que se derrubou o inimigo comum, as diferenças cintilaram na atmosfera.
Este quadro sobreviveu até aos nossos dias. O paradoxo irresolúvel e irrecusável vibra a cada eleição na urna e a cada manifestação na rua. Desde as considerações do abade Sieyes às deliberações de Orbán. Se queremos desconsiderar os resultados eleitorais em desfavor do Chega, não podemos apelar a uma suposta identidade entre democracia e liberalismo – a democracia liberal não é o resultado óbvio e constante do jogo político livre, mas uma consequência intricadamente histórica. Isto significa que teremos de ser criativos nas nossas argumentações e raciocínios. Sem esquecer, claro está, que a honestidade é uma virtude cívica que está para além de pergaminhos ideológicos. Se o Chega é um partido iliberal – o que para nós está longe de ser evidente – será no plano das ideias que deverá ser combatido – e não por artimanhas mais ou menos sofisticadas que enxergam em qualquer lado um estado de exceção que permite contornar a tradição e o bom-senso para não se perder a face.