Na Semana Santa que por estes dias vivemos, fomos convidados a percorrer simbolicamente o caminho de Jesus Cristo até ao Calvário, impulsionados pela esperança na Luz da Ressurreição, em que acreditamos. Este percurso espiritual é também uma oportunidade para homenagearmos, em modo de Acção de Graças, aqueles que discretamente, num quotidiano sobrecarregado de urgências e aflições, encarnam os valores do Evangelho — os nossos padres, religiosos e religiosas.
Sem ignorar a importância da hierarquia eclesiástica, é no clero diocesano português que ainda hoje se encontra o nosso primeiro porto seguro. São eles que, com simplicidade e inexcedível dedicação, sustentam a vida comunitária e espiritual das paróquias, qual rede invisível de amor que se estende para além das capacidades do Estado e das famílias. Ao contrário do que clama a cultura anticlerical, ou a simples má-língua, o padre é, na comunidade, aquele que conhece os seus paroquianos e pelo nome trata cada pessoa, principalmente a mais vulnerável, praticando uma “mística do encontro” como Jesus ensina. Nada que estranhar: a palavra Padre deriva do latim pater, que significa literalmente “pai”.
Destaco, com admiração, o trabalho incansável de resgate de homens e mulheres vítimas das dependências e outras misérias. Recordo, as casas de acolhimento e recuperação, onde a droga cede espaço à dignidade, e o padre com a inspiração em Cristo e por Amor de Deus, devolve, com ajuda de profissionais, a cada ser humano o protagonismo na reconstrução da sua humanidade plena, como se um obreiro da liberdade se tratasse. Uma batalha infindável e desgastante porque feita de entrega, de derrotas e vitórias, a levantar gente do chão. A salvação desses acontece por um Amor que não está nos romances, porque é de outra espécie. Basta um sucesso para valer a pena.
Um abraço especial aos sacerdotes que, sobrecarregados, são autênticos “pastores da estrada”. Eles percorrem quilómetros e quilómetros por regiões envelhecidas, garantindo que, em aldeias remotas, não falte uma missa, um baptismo, um funeral, ou o conforto da Extrema Unção. Correndo entre paróquias ameaçadas de extinção, ou mesmo na grande urbe, ainda encontram tempo para guiar grupos de movimentos, organizar retiros de casais, de jovens e escuteiros, e oferecer acompanhamento espiritual a quantos o reclamam.
Importa também reconhecer a excelência das escolas católicas que, contra ventos e marés, insistem em formar mentes e corações para o saber e para a liberdade, bem como o testemunho silencioso dos consagrados e consagradas, que são o pulmão de oração da Igreja. O seu compromisso, muitas vezes invisível, sustenta a vida espiritual e educativa das nossas comunidades.
Não esqueçamos as periferias do mundo, onde as congregações missionárias levam a luz do Evangelho aos ambientes mais hostis, marcados pela guerra e pela pobreza radical. Das muitas congregações com diferentes carismas, destaco os Combonianos e Espiritanos, na linha da frente da promoção humana na América Latina ou em África; os Missionários da Boa Nova, congregação portuguesa; os Oblatos Beneditinos e os Salesianos, incansáveis na educação dos jovens na selva laica das nossas cidades; ou os Jesuítas, abrindo sempre novos caminhos na cultura e na justiça social.
Na força feminina da missão, curvo-me perante as Missionárias da Caridade, que acolhem os marginalizados; as Franciscanas, que servem com alegria; as Missionárias de Nossa Senhora de África, construindo pontes de diálogo em terras inóspitas, ou as Irmãzinhas dos Pobres, cuja nobre missão é acolher idosos, “aqueles mais pobres entre os mais pobres”, para um fim de vida com dignidade. Estes são apenas alguns exemplos. Como se pode cumprir esta missão sem inspiração divina?
É assim que eu, homem do mundo, profissional de comunicação, marido e pai de dois filhos e dois enteados, nesta Páscoa quero agradecer a todos vós, que insistis em ser o rosto inspirador de Cristo nesta terra. O facto é que, contra todas as expectativas e adversidades do tempo, ainda hoje mantêm viva a chama da nossa identidade cristã. Estou grato por nos mostrarem que a Ressurreição é possível e que ela acontece todos os dias através das vossas mãos.