Há uma questão que sistematicamente se me coloca de cada vez que penso sobre a origem das ditaduras.
Não tenho qualquer dúvida de que estas formas de governação são sempre duras e que resultam inevitavelmente num enorme sofrimento de todo um povo e na promoção da prática de actos maléficos por parte de quem se aproveita do poder e que sempre tem medo de o perder e, por isso, acredita que a repressão é a única forma de assegurar a sua continuidade.
Não é também a razão da sua tomada de poder que me questiona pois esta resulta sempre de uma podridão de um sistema anterior que, por facilitismo, permissividade ou abuso de poder, acaba por forçar a sua substituição e, pela força, acaba por dar excesso de poder a quem lidera essa transformação.
Aquilo que me questiono é como se assume que uma ditadura é de direita ou de esquerda.
Porque é que se diz que o comunismo é de esquerda e o nacional socialismo de direita.
Porque é que o regime venezuelano é de esquerda e o fascismo era de direita.
Na verdade, todos estes regimes têm origem numa atitude de intolerância que está normalmente presente nas pessoas que têm maior dificuldade de integração na sociedade e que se escondem em recantos ideológicos que, através da intolerância lhes permitem criar uma ambiente em que se sentem protegidos.
Não deixa de ser curioso que em todos estes exemplos que referi, a ligação à esquerda seja uma constante.
E, se no caso do chavismo e do comunismo esta questão não levantará grandes contestações, já no caso do nacional socialismo e do fascismo, estou certo de que muitos o tentarão desmentir.
Contudo, a utilização da palavra socialismo representa bem a origem do regime nazi, em que o capitalismo não tinha qualquer espaço e em que o liberalismo económico não tinha qualquer lugar, apesar de ser nacionalista e não internacionalista como os regimes socialistas que se perpetraram no mundo.
Mas ainda mais curiosa é a origem do fascismo e a sua apelidação de direita, quando ele é eminentemente criado por um socialista, originário do partido socialista italiano e que representava completamente a linha de intolerância que encontramos em todos os movimentos de esquerda espalhados pelo mundo.
Benito Mussolini não defendia a propriedade privada nem os valores tradicionais da direita.
Na sua essência, o que caracteriza uma ditadura, não é a sua aproximação à esquerda ou à direita mas sim a sua intolerância, o seu controlo sobre as pessoas e a sua vontade absoluta de tudo dominar e comandar.
Aquilo que define a direita e a esquerda são questões muito baseadas na liberdade de decisão individual ou na maior dependência de um poder que se sobrepõe a essa liberdade individual.
A direita escolhe o liberalismo económico, a estruturação da sociedade com base na família e a subsidiariedade baseada na decisão privada, enquanto a esquerda pretende uma economia participada e conduzida pelo Estado, a sociedade com base no indivíduo e a subsidiariedade obrigatória através da intromissão do mesmo Estado.
Curiosamente, em Portugal nos dias de hoje, o partido que tem sido muito questionado por ser promotor de ideias que estariam associadas a uma perspectiva de um regime que colocaria em causa a democracia e que está claramente associado a uma identidade de direita, acabou por conseguir fazer um percurso de crescimento muito importante, recrutando toda uma categoria de votantes que estavam originariamente ligados a um regime totalitário de esquerda e que se revêm com facilidade no novo projecto a que aderiram.
É também curioso que, aquele partido que se diz de direita tem um programa claramente estatizante, muito pouco liberal na economia e muito defensor da intervenção do Estado em toda a vida da sociedade.
Tudo isto me confirma que há ditaduras e democracias, que nas primeiras não há nem direita nem esquerda, mas que as ideias da esquerda são mais próximas da promoção das ditaduras.