A evocação dos novecentos anos da existência de Portugal como nação convida a olhar para determinados episódios fundadores em que a história documentada se imbrica com o mito e a lenda, funcionando estes como memória coletiva sob um estrato simbólico e fantástico. Assim se validam núcleos verdadeiros que ajudam a interpretar a evolução das sociedades, demonstrando que o logos não anula o mythos antes o utiliza como documento cultural (Jean Pierre Vernant, 1914-2007).
A Batalha de Ourique
A batalha ter-se-á travado em 25 de julho de 1139, algures no Sul do atual Alentejo, onde Afonso Henriques, então conde de Portucale, enfrentou forças muçulmanas (almorávidas). Ignora-se a localização precisa de Ourique, as características do exército inimigo, bem como a tipologia da batalha. Consensual, entre os historiadores, é a importante vitória de Afonso Henriques, que, granjeando prestígio militar e político, fez com que começasse a ser denominado Rei, abrindo caminho ao reconhecimento do Reino de Portugal (1143 – Tratado de Zamora).
Mitos e Lendas
No seio da verdade histórica se constroem lendas e mitos poderosos e duradores. Segundo a tradição, sobretudo a partir do século XIV, na noite anterior à Batalha, Cristo teria aparecido a D. Afonso Henriques, garantindo-lhe a vitória e a aclamação no próprio campo da batalha e assinalando Portugal como um reino por si escolhido. Este rei por vontade divina é omisso nas fontes mais antigas, aparecendo, posteriormente, numa altura em que Portugal precisava de justificar a independência de Leão e Castela e reforçar a sua missão divina. Outro elemento lendário prende-se com os cinco reis mouros, que poderiam ser tão só chefes militares locais, derrotados numa só batalha, ligando-se este número simbólico às cinco quinas da bandeira nacional, onde cinco pontos representariam as cinco chagas de Cristo. Esta leitura ganhou consistência durante a Dinastia de Avis, sendo também acolhida pelo Estado Novo, propenso aos mitos fundadores claros, simples e heroicos. Hoje, defende-se que Ourique foi importante, mas não milagrosa, sendo tudo resultante mais de um processo político e diplomático e menos de um confronto; afinal, toda esta efabulação diz mais sobre a altura em que os mitos foram criados do que sobre 1139, o que não diminui o seu valor simbólico sobre a génese de Portugal, indo também ao encontro de outros mitos europeus. Tal é o caso de Covadonga (722) em que Pelágio, protegido pela Virgem Maria, derrota os Muçulmanos nas Astúrias; da conversão ao Cristianismo de Clóvis em França (séc. V); da resistência do rei Artur aos saxões em Inglaterra, apesar da feição utópica; da ação dos irmãos Rómulo e Remo, amamentados por uma loba, na fundação de Roma; ou do heroísmo individual do arqueiro Guilherme Tell na Suíça. Todos estes mitos e muitos outros seguem o padrão comum: em tempo de crise, a excecionalidade de um herói, legitimado por Deus, pelo destino e pelo virtuosismo, combate um inimigo poderoso. Vencendo-o, marca a identidade do povo e da pátria. A verdade é que, omitindo o mito de Ourique, Portugal continua a existir, mas deixa de saber quem é, por tal o acarinhado epíteto de mito fundador.

Crónica de D. Afonso Henriques, de Frei António Brandão.
Ourique através dos séculos
Um mito não nasce acabado, outrossim vai sendo construído, ampliado e instrumentalizado de acordo com as necessidades epocais que carecem de contar estórias. Houve um silêncio inicial no século XII (1139-1200), sendo Ourique visto como mero feito militar, posto que a Igreja não precisasse de milagres, sobrepondo-se a legitimidade da força militar e da diplomacia. Já nos séculos XIII e XIV, a necessidade de se justificar a autonomia em relação a Leão e Castela e o crescimento do papel ideológico da Igreja faz com que se criem camadas simbólicas. É no século XV que o mito se impõe em função da crise 1383-1385 e da decorrente necessidade de imposição da dinastia de Avis, dando disso conta Crónicas tardias, textos religiosos e políticos e, sobretudo, uma forte tradição oral posteriormente transformada em escrita. O mito deixa de ser nacional e passa a imperial na diáspora (secs. XVI-XVII), ligando-se à providência divina e ao papel evangelizador, tendo na cruz o seu símbolo primordial. É nos séculos XVII e XVIII que Ourique começa a ser questionado pelos historiadores, mas, ainda assim, a crítica é discreta, erudita e camuflada. Ganha nova vida com o nacionalismo romântico (século XIX): emoção, heroísmo, pátria e fé reforçam a identidade nacional como forma de resposta às invasões napoleónicas, na tentativa de restabelecer o sentimento patriótico e o orgulho nacional. O Estado Novo, no século XX, apropria-se de Ourique enquanto testemunho de unidade nacional, origem sagrada, modelo de obediência, fé e autoridade, dele fazendo um dogma de instrumentação ideológica. Nos dias de hoje, os historiadores separam o facto da propaganda e estudam o mito enquanto fenómeno cultural. O milagre de Ourique não é mentira, é narrativa identitária. Seja de batalha real, passando pelo exagero simbólico, pelo milagre divino, pela missão universal, pelo cariz político, encontra-se hoje sob uma leitura crítica que não o torna desnecessário.

Fernão Lopes, cronista.
Fontes
A primeira referência a mitos e lendas ligados à batalha de Ourique encontra-se na Crónica Portuguesa de 1419, em fontes régias e diplomáticas e em crónicas árabes. Seguem-se os escritos de Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara (sec. XV), Duarte Galvão (sec. XVI), Frei António Brandão (sec. XVII), D. António Caetano de Sousa (séc. XVIII) ou Alexandre Herculano (séc. XIX). Em historiadores da modernidade, como Torquato de Sousa Soares (1903-1988), José Mattoso (1933-2023) ou Rui Ramos (1962- ), há unanimismo sobre o longo processo do nascimento militar, diplomático, social e religioso de Portugal, confirmando-se Ourique mais como símbolo nacional e menos como nascimento literal.

Torquato de Sousa Soares, historiador.
A representação de Ourique nas artes, inspira-se mais no mito do que na realidade: “O milagre de Ourique” (1793) de Domingos Sequeira é a pintura mais famosa sobre o tema. A ela se juntam “Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique” (sec. XVII) de Frei Manuel dos Reis, bem como “D. Afonso Henriques orando a Nossa Senhora da Oliveira” (século XVII), da autoria de Simão Álvares (?), pertencente à coleção do Museu Alberto Sampaio em Guimarães. Em Vila Chã de Ourique, concelho do Cartaxo, distrito de Santarém, há um “Monumento Comemorativo da Batalha de Ourique” (1932). Também em Castro Verde, Baixo Alentejo, foi erigido, em 1795, um “Padrão Comemorativo da Batalha de Ourique”. Ambos os monumentos foram construídos com base na teoria de a Batalha aí ter decorrido. Parafraseando Herculano, diria que a lenda explica melhor a alma de um povo do que o facto explica a batalha.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
