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Um festival de catarses e espantos: a música que trazemos de volta do Tremor

O festival voltou a ocupar diferentes espaços na maior ilha dos Açores, com uma programação diversa, concertos secretos e em lugares inusitados. Eis o que não nos larga após a 13.ª edição.

Ricardo Farinha
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É um festival que, mais do que qualquer outra coisa, convida à descoberta. Não tem uma programação temática e são muitos os sons que ali cabem, desde o flamenco contemporâneo ao heavy metal açoriano, do rock brasileiro ao rap norte-americano, do funaná de Cabo Verde à pulsante música eletrónica britânica.

Ao mesmo tempo, no Tremor não existem cabeças de cartaz. A organização mantém uma ideia consistente de horizontalidade, num evento em que a verdadeira riqueza reside na diversidade, no ecletismo, na abertura de espírito e, claro, no maior palco de todos: a ilha de São Miguel.

Das salas de espetáculo de Ponta Delgada ao longínquo Miradouro do Pico dos Bodes, da beleza natural do Parque da Grená à envolvência local do Mercado Municipal da Ribeira Grande, estes foram os momentos que marcaram a edição de 2026 do Tremor. A organização já anunciou as datas para o próximo ano: a ilha, já de si naturalmente vibrante, volta a estremecer entre 16 e 20 de março de 2027.

A grande abertura com Yerai Cortés

Depois de passar por Lisboa, Braga e Lousã, coube a Yerai Cortés a missão de protagonizar o concerto de abertura do Tremor. Prodígio da guitarra, sensação do flamenco contemporâneo, Cortés subiu ao palco do suntuoso Coliseu Micaelense acompanhado por meia dúzia de cantaoras.

Há um equilíbrio delicado e meticulosamente trabalhado entre a solenidade da tradição e os ares frescos das novas abordagens — esse posicionamento a meio caminho, essa expansão de uma identidade clássica, tanto é musical como cénica. E Yerai Cortés é o músico certo para fazer essa ponte. Começou na base, nos mais prestigiados tablaos de Madrid, colaborando com diferentes mestres do flamenco, para depois se render à fusão disruptiva de C. Tangana, que acompanhou ao vivo na aclamada digressão de El Madrileño.

Não há uma única palavra dirigida ao público, mesmo que entre a audiência haja quem tente preencher os momentos de silêncio — tão importantes numa performance como esta — com louvores ao guitarrista. As flores entregam-se no final, com Yerai Cortés levantado a saudar os presentes, e temos a certeza de que este é só o início de um percurso meteórico.

Há um par de anos, aproveitou esta bagagem plural no interior do flamenco para se emancipar com o seu projeto a solo, lançando o álbum La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés — que também teve direito a um documentário homónimo, justamente realizado por C. Tangana e que, entre outras coisas, acompanha a preparação do espetáculo Guitarra Coral, que o espanhol trouxe até Ponta Delgada.

Coreografada ao milímetro, singela mas sublime, a performance tem como grandes protagonistas as cordas de Yerai Cortés. São seis as que toca na sua guitarra, límpidas e definidas a ressoarem pelo coliseu açoriano, mas por vezes parecem muitas mais, tal não é a destreza com que as manuseia, oferecendo mais e mais camadas sonoras à plateia. São tocadas no momento por um único homem, mas transportam toda uma história de tantos outros, uma ancestralidade milenar da Andaluzia feita de influências árabes, ciganas e judaicas.

As cantaoras assumem por vezes uma posição dianteira ao revelarem as poderosas vozes a plenos pulmões, mas na maior parte do tempo proporcionam apontamentos subtis: frases ou expressões soltas ditas discretamente ao microfone, como que a evocar as conversas paralelas dos tablaos, a transportarem-nos diretamente para as casas de flamenco com um autêntico design de som cinematográfico.

As palmas, a comandar a dimensão rítmica, são outro elemento fundamental nesta arte — bem como os tacões a bater no chão, graves que acendem a faísca elétrica deste flamenco endiabrado. A luz completa o espetáculo: é pensada de forma diligente, a recortar as figuras em palco e a intensificar as emoções das cordas e vozes. Cortés vai assumindo diferentes lugares em palco em relação às cantaoras, mas o movimento é limitado — durante cada tema, reina a inércia; cada canção tem direito à sua própria composição visual.

Não há uma única palavra dirigida ao público, mesmo que entre a audiência haja quem tente preencher os momentos de silêncio — tão importantes numa performance como esta — com louvores ao guitarrista. As flores entregam-se no final, com Yerai Cortés levantado a saudar os presentes, e temos a certeza de que este é só o início de um percurso meteórico: o segundo álbum, Popular, chega a 16 de abril. Aliás, um dos momentos altos do concerto foi mesmo a interpretação de Lirili, um dos singles do segundo disco.

Da rave no miradouro ao fundo da piscina: os concertos secretos em lugares inesperados

É uma das experiências mais mágicas e atrativas quando pensamos no Tremor. O festival leva-nos pela ilha para momentos musicais inusitados, concertos em lugares inesperados, na iniciativa a que chamam Tremor na Estufa. O espírito da descoberta (e aventura) levado ao expoente máximo: entramos no autocarro e não sabemos para onde vamos nem quando voltamos, muito menos o que vamos ouvir.

Durante três dias consecutivos, entrámos num autocarro rumo a um destino incerto. As paisagens micaelenses, de prados verdes repletos de vacas brancas e negras ou construções vulcânicas de basalto, vão servindo de apetite visual. Depois de quase escalarmos um monte na ponta leste de São Miguel, damos por nós no imponente Miradouro do Pico dos Bodes. Perante um enorme oceano, a mais de mil quilómetros do continente, centenas de pessoas apalpam o terreno — tiram fotografias, passeiam pela paisagem, pedem bebidas e escolhem o melhor lugar para ver o pequeno palco.

O som é forte, mas as palavras ainda mais: é neste cenário idílico que somos presenteados com a marcante atuação de Jup do Bairro, artista trans brasileira que rima as periferias de São Paulo, que exclama pela simples liberdade de ser quem é. “Estou falando de amor do meu jeitão”, diz, ela que distribuiu flores pelo público, transformando um miradouro bucólico numa rave nas alturas, pedindo apenas respeito e militância em troca. “Também é o papel de pessoas brancas falarem de racismo, também é o papel de pessoas cis falarem de transfobia”, declarou, aludindo à recente revogação no Parlamento português de três projetos de lei relativos à mudança de género, que têm gerado forte contestação.

Atrás de Jup do Bairro, o DJ Fuso vai soltando os graves penetrantes e ruidosos — batidas hip hop, eletrónicas e funk industriais e ultra-processadas, por vezes com um embalo sambista, a condizer com a opressão distópica, enraizada no capitalismo tardio, que a MC vai relatando nos seus versos certeiros.

O corpo de Curro Rodríguez tatuado revelado pela blusa translúcida que traz vestida, pés atados a duas rochas que vai arrastando — como as dores e o peso que alguém carrega, e que neste caso canta, num flamenco negro e experimental, desolado e melancólico, tenebroso até. Encaixa bem, pois claro, nas ruínas decadentes de uma velha casa no meio da floresta.

Do cume de um monte para o fundo de uma piscina vazia. Ao segundo Tremor na Estufa, foram as Piscinas Municipais de Lagoa a servir de cenário musical. Com o público no interior ou em torno do tanque, o concerto era dos Use Knife — trio composto pelo vocalista e percussionista iraquiano Saif Al-Qaissy e pelos instrumentistas e produtores belgas Kwinten Mordijck e Stef Heeren.

A língua árabe é usada para disseminar mensagens politizadas contra os conflitos no Médio Oriente — o próprio Saif Al-Qaissy deixou o seu país para escapar à guerra. Entre sintetizadores analógicos e instrumentos personalizados — como uma corneta aparentemente constituída por um tubo de ar condicionado e um fragmento de uma garrafa partida — a performance torna-se progressivamente enérgica e dançável, de quem balança o corpo para purgar as angústias. Quem dança seus males espanta e dificilmente haveria local mais apropriado do que uma piscina sem água, símbolo de um vazio civilizacional mas também ícone de contracultura (no universo do skate, por exemplo).

Teríamos ainda direito a um serão de rock e vertigem punk no Mercado Municipal da Ribeira Grande. Entre barraquinhas de comes e bebes, no lugar onde habitualmente se instalam dezenas de bancas de legumes e fruta, um pequeno palco era montado para acolher a energia elétrica das Amijas, banda feminina (e feminista) de Braga que se estreou no ano passado com um álbum homónimo. Atitude irreverente e ardor juvenil para logo de seguida a receita se manter com os brasileiros MONCHMONCH. Só com um Tremor destes é que um mercado municipal se torna um antro para o crowd surf, o stage dive e demais manifestações físicas da comunhão rock’n’roll.

A magia do Tremor Todo-o-Terreno, à boleia de Curro Rodríguez

Outra das experiências que já se tornaram famosas no Tremor são as caminhadas performativas Tremor Todo-o-Terreno — um percurso pedestre que inclui uma atuação. Cada festivaleiro só pode escolher uma sessão — este ano, a portuguesa Vera Morais e o espanhol Curro Rodríguez foram os artistas convidados para desenvolver uma peça musical para um determinado lugar. Acabámos por optar pela caminhada performativa com o segundo — sendo que a sensação bem real de que não conseguimos estar presentes em todos os momentos do festival acaba por contribuir para a própria experiência de desorientação e incerteza que o Tremor conscientemente propõe, contrariando os vícios do mundo moderno, tantas vezes à procura de uma certa omnisciência e omnipresença.

A Lagoa das Furnas é o cenário paradisíaco onde o autocarro estaciona. Existe uma imensidão de verde a rodear-nos e é para o meio das árvores que vamos: o local da performance de Curro Rodríguez é o deslumbrante Parque da Grená, com trilhos que nos levam a subir, por estreitos degraus de madeira ou por uma ponte que atravessa um riacho, até chegarmos às ruínas de uma casa. Construída no século XIX, chegou a funcionar como hotel no meio da natureza, e foi passando de dono em dono até acabar nas mãos do estado português, que nunca fez qualquer intervenção ao local. Acabaria por ser vendida em hasta pública a um grupo de açorianos que fundou uma empresa para abrir o parque à comunidade. Desde 2019 que a propriedade foi devolvida à população. A casa, todavia, permanece despida e sem teto — restam as paredes e as memórias de um sítio que já teve diferentes vidas passadas.

O chão foi totalmente invadido pela natureza e é lá que encontramos Curro Rodríguez. Vai caminhando entre as antigas divisões do edifício, ficando mais ou menos visível para quem observa das diferentes janelas e aberturas pelas quais é possível olhar para o interior desta antiga casa, entretanto tomada pelo verde. Corpo tatuado revelado pela blusa translúcida que traz vestida, pés atados a duas rochas que vai arrastando — como as dores e o peso que alguém carrega, e que neste caso canta, num flamenco negro e experimental, desolado e melancólico, tenebroso até. Encaixa bem, pois claro, nas ruínas decadentes de uma velha casa no meio da floresta.

A performance, de relativa curta duração, não é mais importante do que o percurso em si. O cabeça de cartaz deste festival é mesmo a ilha de São Miguel e a sua beleza natural, as suas gentes e animais, as construções que são parte da paisagem, a estimulante cultura local. A descoberta de todas estas dimensões à boleia da música, mesmo que seja um festival com artistas de todo o mundo, sem quaisquer fronteiras definidas. Felizmente, o mundo inteiro cabe numa ilha no meio do Atlântico.

Do fenómeno Angine de Poitrine aos desarmantes Vaiapraia: umas Portas do Mar abertas ao planeta

Foram muitos os concertos a que assistimos nas salas mais convencionais do Tremor, no centro de Ponta Delgada. Por aqueles dias, a capital micaelense preenche-se de pessoas que vêm de todas as regiões portuguesas e de diferentes países para experienciarem o festival. Cabelos e roupas coloridas, pessoas de diferentes estilos e idades, a misturarem-se harmoniosamente com a comunidade local, que ao longo do tempo se habituou à invasão anual de melómanos. “Então, como é que foram os concertos ontem?”, perguntam-nos nos diferentes restaurantes e bares tradicionais por onde vamos passando.

O fascínio dos Angine de Poitrine vem do enigma e da bizarria visual e comunicacional, é certo, mas também do virtuosismo dos canadianos. São autores de um rock matemático, músicos que pegam nos instrumentos como se de uma ciência exata se tratasse. A bateria é tocada a um ritmo ultra preciso; a guitarra e baixo, que partilham um corpo como uma dupla siamesa microtonal, são tocados alternadamente ou em simultâneo.

As Portas do Mar, onde a maior parte das atuações ocorrem, servem de epicentro a esta trepidação musical que nos abalou de diferentes maneiras. Um dos espetáculos mais esperados era o da misteriosa dupla canadiana Angine de Poitrine — um guitarrista/baixista e um baterista que se apresentam em palco com uns figurinos bizarros, às bolinhas brancas e pretas, com uns narizes gigantes. Nada dizem ao público, mas comunicam — sobretudo entre si — com sons e gestos não inteligíveis, como se dois extraterrestres tivessem aterrado por acidente em São Miguel.

Tem-se gerado uma onda de entusiasmo em torno dos Angine de Poitrine, sobretudo após a sua passagem recente pela rádio norte-americana KEXP, que grava e transmite atuações ao vivo, se ter tornado viral. Em Ponta Delgada, o interesse em torno do duo foi visível, com uma plateia mais preenchida do que o costume — para o horário de fim de tarde — e com a organização a mudar o concerto para a maior das salas nas Portas do Mar.

O fascínio vem do enigma e da bizarria visual e comunicacional, é certo, mas também do virtuosismo dos canadianos. São autores de um rock matemático, músicos que pegam nos instrumentos como se de uma ciência exata se tratasse. A bateria é tocada a um ritmo ultra preciso; a guitarra e baixo, que partilham um corpo como uma dupla siamesa microtonal, são tocados alternadamente ou em simultâneo, tendo em conta que o músico responsável pelas cordas vai gravando progressões e deixando essa gravação a tocar enquanto parte para mais uma enxurrada de notas, num complexo jogo de pedais e sintonia exata. Inteiramente instrumental, a música dos Angine de Poitrine tem uma ginga rock’n’roll, riffs que pedem movimento, uma energia hipnótica de quem nos leva numa viagem supersónica pelo espaço.

Ver os canadianos ao vivo não é muito diferente de assistir às suas performances online — afinal, esta música é hiper cronometrada e não há qualquer margem para sequer tocar uma nota ao lado. Não há nenhuma predisposição improvisacional no ADN alienígena de Klek e Khn de Poitrine, nomes com que se apresentam. Seja como for, é a oportunidade para ver ao vivo este espetáculo já conhecido e que tem atraído cada vez mais fãs, um fenómeno que só promete intensificar-se quando já na próxima sexta-feira, 3 de abril, a dupla lançar um segundo disco, Vol.II.

Na mesma noite, e para algo completamente diferente, os Angry Blackmen subiram também ao palco das Portas do Mar. Brian Warren e Quentin Branch são de Chicago e formam uma dupla hip hop que tem seguido um registo exploratório e industrial, de batidas de pendor eletrónico que usam como mesa para servir um banquete de rimas politizadas que refletem os sinais dos tempos. Os versos ferozes são entregues com uma agressividade ao mesmo nível — afinal, eles estão zangados e têm motivos para tal.

Rimam sobre os horrores da América contemporânea (e de sempre) — a violência policial e o racismo, o capitalismo selvagem, os traumas geracionais, e todos os efeitos que isso gera no indivíduo, do comportamento auto-destrutivo ao descontrolo mental. O som alinha-se com a mensagem: são beats cortantes e viscerais que provocaram um verdadeiro Tremor entre as águas da audiência, divididas ao meio para uma catártica sessão de moshpit que os Angry Blackmen abraçaram por completo, juntando-se a ela e rompendo quaisquer barreiras entre palco e público.

Não são estrelas da música nem ídolos inacessíveis, são homens normais cheios de problemas, com trabalhos paralelos ao rap, que vêm contar a sua verdade e instigar uma descarga enérgica. Não é que sejam prodigiosos nem absolutamente fora de série no universo do hip hop, mas trazem uma autenticidade desarmante num meio cada vez mais dependente de personas e gestos performáticos. Ao vivo, a química entre Warren e Branch é notória, rendendo-se e apoiando-se um ao outro, tanto na retaguarda a soltar os instrumentais como na linha da frente no contacto com a plateia. É a explosão sonora que os tempos pedem — e uma ignição que realmente ganha significado na experiência ao vivo.

O melhor concerto português que teremos visto por estes dias terá sido o de Vaiapraia, que trouxeram a sua dose de Alegria Terminal novamente ao palco do festival. “Queremos ser os Shellac do Tremor”, brincou Rodrigo, vocalista e líder do projeto, referenciando a presença constante dos norte-americanos no Primavera Sound. Urgência punk, máquina rock mais do que oleada, e uma figura magnética, tão pop quanto gótica, de colãs reais e picos metafóricos, na frente da performance e das canções. Da auto-ironia à provocação, passando pelas mensagens densas e dissimuladas que pretende transmitir, Rodrigo Vaiapraia tem uma postura honesta e desarmante que chega a tornar-se imprevisível. O que irá dizer ou fazer a seguir?

Todo o espetáculo é uma vénia aos graves. Num sistema de som reforçado de propósito para a sua atuação, The Bug vai-nos atirando com paredes de graves que são tão físicos quanto audíveis. A vibração percorre-nos o corpo e a mente, numa experiência sensorial envolvente complementada pelas vozes de Warrior Queen e pela cultura dancehall.

Enquanto cantor, possui uma amplitude excecional, uma voz capaz dos falsetes mais agudos e dos guturais mais cavernosos. É uma música que se presta bem a esses contrastes — masculina mas feminina, robusta mas sensível, de quem fala de amor ou aceitação num invólucro combativo para enfrentar a hostilidade do mundo. As letras, entre o absurdo e o genial, são outra das principais valências da banda, que tem na experiência ao vivo uma das dimensões indispensáveis à sua existência.

O mesmo acontece com os Arsenal Mikebe, banda de outra natureza e coordenadas geográficas mas que, mais do que ouvir em disco, urge presenciar numa sala. São três percussionistas do Uganda, vestidos de fato, que tocam uma única teia complexa de som — uma escultura sonora inspirada na mais do que influente caixa de ritmos Roland TR-808. Tocam bombos, tarolas e pratos acústicos; mas também pads que nos transportam diretamente para os sons percussivos digitais que moldaram uma boa parte da música das últimas décadas.

Para esta performance em concreto, os Arsenal Mikebe foram assistidos por HHY, que é como quem diz Jonathan Uliel Saldanha, artista português que gravou e misturou o disco de estreia dos ugandeses, Drum Machine, editado em 2024. Enquanto o trio de percussionistas vai tocando incessantemente e erguendo uma arquitetura sonora de diferentes camadas polirítmicas, HHY vai manipulando digitalmente os sons e soltando elementos melódicos e harmónicos, incluindo algumas vozes.

O resultado é uma música instrumental que soa inconfundivelmente a África mas que mistura passado, presente e futuro — escutam-se as percussões ancestrais tribais, estabelece-se a linha que levou às caixas de ritmos essenciais no som do hip hop ou de géneros eletrónicos como a house e o techno, mas desconstrói-se esses sons num movimento de volta à base, com três músicos a tocar como se estivessem dentro de uma pequena caixa de ritmos. Naquele momento, eles são a caixa de ritmos. E num movimento orgânico e braçal conseguem gerar a apoteose na pista de dança como se estivéssemos num set num qualquer armazém de Detroit ou Chicago.

Outra das performances que marcaram nesse sentido foi aquela que juntou o produtor britânico The Bug à sua colaboradora habitual Warrior Queen, DJ e cantora jamaicana. Todo o espetáculo é uma vénia aos graves. Num sistema de som reforçado de propósito para a sua atuação, The Bug vai-nos atirando com paredes de graves que são tão físicos quanto audíveis. A vibração percorre-nos o corpo e a mente, numa experiência sensorial envolvente complementada pelas vozes de Warrior Queen e pela cultura dancehall.

No fundo, é mais uma aula de história da música, a convergência das culturas caribenhas no Reino Unido — como o reggae, o ska e o dancehall, à boleia das vagas migratórias, desembocaram no UK garage, no jungle e no grime com o passar das décadas e a contaminação da grande metrópole, com todas as tensões urbanas e societais que ela carrega. São dubs industriais, portentos sonoros que nos agarram à frente do palco como se tratasse de uma alquimia mágica, que nos levam no caminho da transcendência.

Em sentido inverso, um dos poucos erros de casting deste Tremor foi o concerto de Cate Le Bon nas mesmas Portas do Mar. A cantautora do País de Gales, autora de uma pop alternativa e por vezes folclórica, apresentou-se numa formação em trio que conjugava teclados, saxofone e instrumentos de cordas. Veio sobretudo apresentar o álbum Michelangelo Dying, editado no ano passado, numa performance contemplativa que só não resultou bem no que toca à sala e ao horário escolhido — o ruído de fundo das muitas conversas paralelas era elevado e o concerto demasiado sereno para aquela hora da noite e para um palco daquela dimensão, especialmente sem bateria ou percussão. Cate Le Bon e o público que assistia atentamente à performance teriam ficado melhor servidos com um palco mais intimista e solene.

O mesmo não podem dizer La Família Gitana, os “ciganos de Portugal e do Estoril”, como se apresentam em A Minha Terra, numa declaração bem mais poderosa do que pode aparentar à primeira — de quem reclama um país e uma zona dita nobre como seus, por direito. Do Fim do Mundo, o bairro, para o meio do Atlântico, protagonizaram uma das festas mais animadas de toda esta edição do Tremor com as suas canções que celebram a cultura cigana, da vida boémia ao amor. Estão longe de ser músicos tecnicistas, mas entre as guitarras, os cajón e o teclado, extrai-se uma abordagem pura e honesta que é mais do que suficiente para encher as medidas aos presentes.

Das salas de espetáculo de Ponta Delgada ao longínquo Miradouro do Pico dos Bodes, da beleza natural do Parque da Grená à envolvência local do Mercado Municipal da Ribeira Grande, estes foram os momentos que marcaram a edição de 2026 do Tremor. A organização já anunciou as datas para o próximo ano: a ilha, já de si naturalmente vibrante, volta a estremecer entre 16 e 20 de março de 2027.

Com meia dúzia de canções editadas nos últimos anos, têm um hit em particular que se tornou o principal chamariz da sua performance: “Se eu quiser eu bebo, eu bebo/Se eu quiser eu fumo, eu fumo/Se eu quiser eu saio/Vou com os meus amigos”, cantam precisamente em Vou Com Os Meus Amigos, com versos que parecem inspirar-se nas Maneiras de Zeca Pagodinho, e que tanto ressoaram nas Portas do Mar que levaram La Família Gitana a interpretar não menos que três vezes o tremendo êxito, sempre bem acompanhados pelo público, particularmente aberto à descoberta neste contexto.

Se há quem tenha uma componente cénica e uma performance trabalhada ao detalhe, também há quem — consciente ou inconscientemente, vá-se lá perceber — faça o extremo oposto. Ninguém melhor do que Pedrinho Xalé, outro dos destaques do festival este ano, para representar esse outro filão. Referência do funaná, ex-membro dos Áfrika Star, o músico cabo-verdiano apresentou-se nas Portas do Mar sozinho, apenas munido do teclado.

Com várias pausas entre temas — uns mais acelerados, outros de balanço mais lento, por vezes com influências jamaicanas — e breves anúncios sobre o que viria a seguir, é um concerto que não estranharíamos num restaurante ou num casamento, mas que é desarmante pela despreocupação performática e pela autenticidade latente. E mais uma prova de que o único fio condutor que podemos identificar no Tremor é música diversa, surpreendente e de qualidade: o mundo inteiro cabe mesmo numa ilha.