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"Love Story": romance, maldição, polémica e anos 90

Já sabíamos o fim da história de John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette, mas os 8 episódios da série de Ryan Murphy tomaram liberdades (por vezes contestadas) e assumiram-se como cápsula do tempo.

Markus Almeida
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O episódio final de Love Story não trouxe surpresas. Podíamos não saber como começou o romance entre John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette – o conto de fadas da vida real nos anos 1990 entre um príncipe democrata, filho de JFK, e uma assistente de vendas da Calvin Klein – mas sabíamos como acabaria: esta história de amor ia sempre dar em tragédia. Não havia voltar a dar. A probabilidade de Ryan Murphy permitir a Connor Hines, o criador e argumentista principal da série, um fim alternativo era igual a zero.

Até porque raros são os revisionismos históricos à moda de Tarantino em Era Uma Vez Em… Hollywood, em que a Sharon Tate de Margot Robbie escapa ao destino que a vida reservou à atriz verdadeira. E se há coisa a que o frutífero produtor norte-americano já nos habituou é a um certo rigor histórico na hora de encenar a realidade. Assim foi em Monster, que dedicou uma temporada ao assassino em série Jeffrey Dahmer (2022), outra ao caso dos irmãos Lyle e Erik Menendez (2024) que mataram os pais, e a mais recente à figura que inspirou o livro Psycho de Robert Bloch (e o filme de Hitchcock). E assim foi na também antológica American Crime Story, onde Murphy virou a sua atenção para o julgamento de O.J. Simpson (2016), o assassinato de Gianni Versace (2018) ou o caso Monica Lewinksy (2021).

https://www.youtube.com/watch?v=Gw2RakWShdE&t=11s

Podíamos não saber como começou, dizíamos, mas sabíamos que esta história terminou em 1999, quando o avião em que o casal – mais a irmã de Carolyn, Lauren – seguia para o casamento do primo Rory Kennedy desapareceu no mar ao largo do estado de Massachusetts. O voo arrancou de Manhattan ao fim da tarde. Seria uma viagem simples, numa pequena avioneta, seguindo para norte pela linha costeira rumo a Martha’s Vineyard, onde o casamento teria lugar. Depois, não se sabe ao certo o que aconteceu, exceto que, entre o anoitecer e um súbito nevoeiro que se levantou, as condições de visibilidade se deterioram ao ponto de o piloto não poder confiar na navegação à vista. Era preciso que soubesse ler os instrumentos do cockpit. O piloto era John F. Kennedy Jr. Ninguém sobreviveu.

As expectativas dos fãs ao nível do que é ou não fidedigno estão num patamar tal que não faltou quem criticasse “o faltar à verdade” quando o episódio mostrou Carolyn sentada à frente ao lado de John, quando na verdade as irmãs seguiriam atrás. Mas ficar incomodado com esta “imprecisão” não será sintoma de quem julga estar diante de um documentário e não de uma adaptação — que toma as liberdades criativas que forem necessárias para contar uma história (até porque há uma razão para a série a colocar no banco da frente)?

A pergunta tem gerado divisões e as críticas não se ficaram por aí. A atriz Daryl Hannah, que namorou com John F. Kennedy Jr. antes de Carolyn Bessette, respondeu com um artigo de opinião no New York Times à forma como foi retratada na série, onde aparece a consumir cocaína e a pressionar John para casar com ela. Também Jack Schlossberg, filho da irmã de JFK Jr., Caroline, acusou Ryan Murphy de lucrar com a exploração voyeurista da sua família. Ainda antes da estreia, a divulgação de fotos dos atores principais desencadeou uma tempestade nas redes sociais quanto à fidelidade do guarda-roupa de Carolyn Bessette. As críticas incidiam até sobre o tom de loiro do seu cabelo.

Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette é uma história ficcionalizada, claro que é, mas também é verdade que em momentos nos fez sentir como a proverbial mosca na parede, assistindo da primeira fila à sedução mútua entre John e Carolyn à medida que se apaixonam, ao início do namoro, às primeiras discussões – às privadas e às muito públicas, plastradas nas primeiras páginas dos tablóides da altura –, às incertezas dela, aos falhanços dele, ao casamento e à pressão que a exposição mediática exerceu no casal – mais nela do que nele, habituado desde criança a estar debaixo dos holofotes. Esta é uma história de amor que ao longo dos nove episódios se vai transformando num filme de terror, sobretudo para Carolyn, e sobretudo a partir do momento em que a relação se torna pública e John F. Kennedy Jr. parece viver num planeta distante.

O JFK Jr. da série vive dividido entre o desejo de cumprir o legado da família e o impulso de se rebelar à responsabilidade que o apelido acarreta. O herdeiro de John F. Kennedy, assassinado em 1963, cuja saudação militar no funeral do pai comoveu o país. Um solteirão hedonista, ao mesmo tempo um potencial futuro presidente dos Estados Unidos, ao mesmo alguém que parecia padecer da síndrome de Peter Pan. Um príncipe na república. E, de certa maneira, um falhado.

Do outro lado, Carolyn surge retratada como a Cinderela em conflito entre o que desejava (aquele príncipe, entenda-se) e o que não desejava de todo (tornar-se princesa). Isto fazendo fé na biografia de Carolyn Bessette em que a série se se baseia – Once Upon a Time: The Captivating Life of Carolyn Bassette-Kennedy (“Era Uma Vez: A Vida Cativante de Carolyn Bassette-Kennedy”, sem edição em Portugal) – e que pinta a protagonista como completamente desinteressada na fama e nos privilégios de JFK Jr.

A série teve uma estreia discreta a 12 de fevereiro, muito perto do Dia dos Namorados. De lá para cá, as audiências cresceram a cada episódio até se tornar na mais vista de sempre da FX (da família Disney) em streaming, com os primeiros cinco episódios a contabilizarem mais de 25 milhões de horas de visualização, anunciou a empresa em meados de março.

Parte significativa do interesse suscitado por Love Story vem de sabermos como a história terminou, mas não de como começou: o tal efeito mosca na parede. E é tanto sobre o conto de fadas que apaixonou a imprensa cor-de-rosa da época quanto uma carta de amor aos próprios anos 1990 (e uma certa nostalgia de um mundo mais analógico). Está lá tudo: a música, a moda, o ambiente de uma Nova Iorque como os novaiorquinos se lembram de a viver e como nós nos lembrávamos de ver na televisão e no cinema, e um elenco à altura das personagens da vida real que interpretam.

Ele, Paul Anthony Kelly, modelo canadiano de 37 anos e estreante absoluto enquanto ator impressionou pelo carisma, pela presença e pelas parecenças com Kennedy. Ela, Sarah Pidgeon, 29 anos, vinda dos palcos da Broadway e nomeada para um Tony, é já a atriz revelação de 2026. Por contraste, se Paul Anthony Kelly vai bem enquanto o papel lhe pede apenas charme e magnetismo, é nos momentos dramáticos que se torna evidente o motivo de só agora se estrear na representação. A estes dois juntam-se nomes como Naomi Watts no papel de Jacqueline Kennedy Onassis, Grace Gummer no de Caroline Kennedy ou Alessandro Nivola a interpretar o estilista Calvin Klein.