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Quem é Carlos Cabreiro, o novo diretor nacional da Polícia Judiciária?

Especialista no combate ao cibercrime, aceitou o convite após duas conversas com Luís Montenegro. O sucessor de Luís Neves tem o apoio da estrutura da PJ. E a sua ação vai muito além do caso Rui Pinto

Luís Rosa
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À beira de fazer 60 anos — falta pouco mais de um mês —, Carlos Cabreiro alcança o topo da pirâmide da organização que escolheu como local de trabalho aos 26 anos. Desde a sua entrada na Polícia Judiciária (PJ) passaram-se 34 anos, o país e o mundo mudaram radicalmente — muito devido à revolução tecnológica. E se há polícia que acompanhou esta mudança, foi o novo diretor nacional da PJ.

Especializou-se no combate ao cibercrime, foi o primeiro diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T) em 2016 e a sua equipa tem sido uma das melhores equipas da Judiciária.

https://observador.pt/2026/03/31/carlos-cabreiro-e-o-novo-diretor-da-policia-judiciaria-sucede-a-luis-neves-e-deixa-unidade-de-combate-ao-cibercrime/

Independentemente do seu perfil mais discreto, a sua nomeação como sucessor de Luís Neves é vista com bons olhos internamente e representa uma solução de continuidade em relação aos três mandatos do agora ministro da Administração Interna. Porque também é o terceiro polícia consecutivo a liderar a PJ, depois de Almeida Rodrigues ter inaugurado este caminho em 2008. E com uma particularidade: manteve-se sempre nos cargos, apesar das mudanças promovidas pelo PS ou pelo PSD.

Afinal, quem é o novo diretor nacional da Judiciária, uma das organizações públicas com mais prestígio no país?

Um mirandês que começou no combate à corrupção e acompanhou a revolução tecnológica

Carlos Manuel Antão Cabreiro tem 59 anos e nasceu numa pequena aldeia do distrito de Bragança, muito perto da fronteira com Espanha, Picote. Pertence ao concelho de Miranda do Douro, terra do mirandês, língua reconhecida oficialmente pela República. Não é certo que Cabreiro domine o mirandês, mas é claro que a língua é falada em Picote — tanto que as placas de sinalização estão em português e em mirandês.

O novo diretor nacional da PJ tem uma licenciatura em Direito pela Universidade Autónoma e uma pós-graduação em guerra de informação pela Academia Militar. Mas o seu principal estudo ao longo dos anos tem sido o acompanhamento da revolução tecnológica que mudou o mundo — e a criminalidade.

Após ter frequentado o curso de formação de agentes estagiários, Carlos Cabreiro foi colocado em 1992 como agente (sendo pouco depois promovido a inspetor) na antiga DCICFIEF — Direção Central de Investigação de Corrupção Fraudes e Infrações Económico-Financeiras.

Com a chegada de Almeida Rodrigues à liderança da PJ, o primeira polícia de carreira a conseguir chegar ao topo da pirâmide, Carlos Cabreiro saiu da estrutura central e foi coordenar a 8.ª Secção da direção regional de Lisboa e Vale do Tejo — a secção de investigação da criminalidade informática. Trata-se do seu regresso ao cibercrime e para não mais abandoná-lo. Até à nomeação desta terça-feira.

Os seus primeiros anos foram dedicados ao crime económico-financeiro, mas os anos 90 ainda não tinham terminado quando Carlos Cabreiro foi nomeado coordenador da Secção de Investigação da Criminalidade Informática e de Telecomunicações — o seu primeiro contacto com o cibercrime, ainda numa altura muito rudimentar do avanço tecnológico, que coordenou até 2005. Sem abandonar a área do crime económico-financeiro.

Foi com a nomeação do então juiz desembargador Santos Cabral para diretor nacional da PJ em 2004 que Carlos Cabreiro assumirá o seu primeiro cargo de chefia. O juiz Mouraz Lopes, atual líder do Mecanismo Nacional Anticorrupção e então número 2 de Santos Cabral, convidou Cabreiro para ser seu subdiretor nacional adjunto na DCICFIEF.

Apesar da substituição, já no tempo de José Sócrates, de Santos Cabral pelo procurador-geral adjunto Alípio Ribeiro, Carlos Cabreiro manteve-se nesse cargo de subdiretor nacional adjunto na DCICFIEF.

A criação da UNC3T e o combate ao cribercrime

Com a chegada de Almeida Rodrigues à liderança da PJ, o primeira polícia de carreira a conseguir chegar ao topo da pirâmide, Carlos Cabreiro saiu da estrutura central e foi coordenar a 8.ª Secção da direção regional de Lisboa e Vale do Tejo — a secção de investigação da criminalidade informática. Trata-se do seu regresso ao cibercrime e para não mais abandoná-lo. Até à nomeação desta terça-feira.

Cabreiro vai trabalhar diretamente com os diretores regionais — primeiro José Braz e depois Paulo Rebelo — e consolidar a sua imagem de principal especialista da PJ na área do cibercrime. Será o seu trabalho nesta direção regional que dará a ideia à direção nacional de Almeida Rodrigues de criar a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T).

A UNC3T será estruturada por Cabreiro em quatro grandes áreas:

  • Criminalidade Informática e Tecnológica — nos quais os esquemas de burla informática se destacam, como a intrusão em sistemas informáticos (através de malware, ransomware, botnets), phishing, roubo de identidade online ou a exfiltração de dados no contexto de concorrência desleal ou violação do segredo comercial:
  • Cibercriminalidade contra as pessoas — como a posse e tráfico de conteúdos de pornografia infantil, além de criminalidade sexual, como a extorsão sexual (“sextortion”) via redes sociais;
  • Investigação dos meios de pagamento eletrónicos — as criptomoedas e as burlas com o MBWay e outros meios de pagamento eletrónicos;
  • Equipas forenses de investigação digital, com uma área dedicada à Inteligência Artificial.

Será esta estrutura da UNC3T que irá permitir à PJ responder a um crescimento exponencial de número de inquéritos afectos à cibercriminalidade. Desde a década de 2010 que o cibercrime passou a ser um dos principais fenómenos criminais em Portugal, a par da violência doméstica. Ano após ano, são estes dois fenómenos criminais que lideram o número de inquéritos do Ministério Público (MP).

O sucesso da UNC3T não se limita apenas o caso de Rui Pinto e da investigação ao ex-adjunto da ministra Catarina Sarmento e Castro que foi detido por fortes suspeitas de pedofilia. Vai muito além desses casos mediáticos e inclui a participação em muitas operações de cooperação internacional no âmbito da Interpol, Europol e também com o FBI, por exemplo.

Só entre 2021 e 2024, o MP abriu quase 150 mil inquéritos devido à cibercriminalidade. Em 2o24, por exemplo, foram abertos 33.265 inquéritos mas 25.430 foram arquivados, enquanto 1.079 levaram a uma acusação. Se não fosse a UNC3T, este número de acusações seria muito mais baixo.

Enquanto diretor nacional da PJ, Luís Neves apostou no reforço de meios da UNC3T e os resultados apareceram. Basta pesquisar na área de comunicados da PJ, para perceber que a equipa da UNC3T esteve envolvida em inúmeras operações nos últimos seis anos de combate à criminalidade informática e tecnológica, cibercriminalidade contra as pessoas e à investigação de burlas com meios de pagamento eletrónicos.

O sucesso da UNC3T não se resume apenas ao caso de Rui Pinto e da investigação ao ex-adjunto da ministra Catarina Sarmento e Castro, que foi detido por fortes suspeitas de pedofilia. Vai muito além desses casos mediáticos e inclui a participação em muitas operações de cooperação internacional no âmbito da Interpol, Europol e também com o FBI, por exemplo.

As reuniões com Luís Montenegro e o porquê da demora da decisão do PM

Além dos elogios do seu antecessor Luís Neves, Carlos Cabreiro contou com o apoio da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária.

Internamente, Carlos Cabreiro é reconhecido como um homem com “capacidade de liderança”, um líder que “sabe ouvir” e “dialogar” com as suas equipas e como alguém que tem um “perfil discreto” — são alguns comentários feitos por fontes da PJ.

O nome de Carlos Cabreiro circulava com alguma insistência na PJ nos últimos 15 dias mas sem que fontes governamentais confirmassem o seu nome. A ideia de que seria um homem da casa que sucederia a Luís Neves foi confirmado pela própria ministra Rita Alarcão Júdice a 24 fevereiro, mas a decisão final demorou mais de um mês. Porquê?

Foi a já habitual teimosia do primeiro-ministro que levou a este compasso de espera de pouco mais de um mês para a nomeação de Carlos Cabreiro. Havia outros nomes em cima da mesa que foram falados entre Luís Montenegro e a ministra Rita Alarcão Júdice mas a opção acabou por recair em Cabreiro. Luís Montenegro falou duas vezes com Carlos Cabreiro, numa espécie de 'entrevista' para o cargo.

A razão central prende-se com Luís Montenegro. O primeiro-ministro já tinha repetido a mesma estratégia em 2024 com Luís Neves — que tinha terminado o mandado no verão desse ano. Montenegro só reconduziu Neves para um terceiro mandato depois de ter ganho a confiança política necessária para o fazer.

Foram precisas várias conversas com Luís Neves e foi preciso o primeiro-ministro ser aconselhado pelo então diretor nacional da PJ em temas relacionados com o Sistema de Segurança Interna para Montenegro criar a convicção de que a recondução era a melhor solução. A opinião positiva de Rita Alarcão Júdice foi igualmente importante.

Foi esta espécie de teimosia do primeiro-ministro que levou também a este compasso de espera de pouco mais de um mês para a nomeação de Carlos Cabreiro. Havia outros nomes em cima da mesa que foram falados entre Luís Montenegro e a ministra Rita Alarcão Júdice, mas a opção acabou por recair em Cabreiro.

Ao que o Observador apurou, Luís Montenegro falou duas vezes com Carlos Cabreiro, numa espécie de ‘entrevista’ para o cargo, sendo que uma delas ocorreu na residência oficial do primeiro-ministro.