RIP, 1 de Abril, Dia das Mentiras. Era gira, aquela tradição de haver um dia específico para contar petas, não era? Quem não se lembra, na sua juventude, de manchetes de jornais desportivos do tipo: “Maradona assina contrato vitalício com o Benfica!” Para logo se perceber que tal seria impossível, se não por outros motivos, porque o astro argentino mais depressa aspiraria as linhas onde devia colocar a rubrica do que firmaria o compromisso. Instalada a decepção, o culpado era óbvio: o Chega.
A verdade é que as mentiras estão fora de moda. Não me interpretem mal, acredito que hoje se aldrabe mais do que em qualquer outro período da história. Não por o ser humano se ter tornado, necessariamente, mais aldrabão, mas porque hoje os seres humanos não conseguem fechar a matraca, nomeadamente online. Logo, assumindo que cada ser humano diz, em média, X petas por frase, sendo Y o número de frases, e as frases mais do que as mães indianas, haverá XxY petas, o que são ainda mais petas do que 7×8 petas. E de quem é a culpa? Do Chega.
Mas atenção. A clássica mentirinha nada pode contra a sua versão Ana Malhoa, ou seja, a versão turbinada da mentirinha clássica: a curadoria de factos. Dos efeitos das vacinas da COVID, à era da ebulição global do Guterres, passando pelo controlo das redes sociais pela administração Biden, o que os últimos anos provaram é que está fora de moda dizer mentiras. Hoje em dia, a modalidade da moda (acima até do padel), é silenciar verdades. Culpa do Chega.
Saudades do tempo em que o mundo era menos aldrabão. Ou melhor, em que tínhamos menos noção do quão aldrabão é o mundo. Hoje em dia, queiramos ou não, somos constantemente expostos a uma autêntica suruba de aldrabices: são aldrabices em cima de aldrabices; são aldrabices por trás de aldrabices; são molhadas de aldrabices às quais, quando menos se espera e já só se quer uma pausa para recuperar o fôlego, se juntam mais aldrabices fresquinhas e recomeça tudo de novo. A culpa é de quem? Do Chega.
E não podia mencionar regabofe de aldrabices sem referir aquele que é um dos momentos altos, um digamos Grand Slam, desta arte: o congresso do Partido Socialista. Se segui atentamente o congresso? Claro que não. Se vi, pelos menos, as gordas do congresso. Quer dizer, se fosse para ver com alguma atenção parte do congresso não ia optar (com todo o respeito pela diversidade de corpos femininos, atenção!) pelas gordas. De maneira que não vi nada do congresso. Aliás, acho que a única forma de engolir aquele congresso teria sido com Glenfiddich, não com Gresso. Não havia copo de leite morninho que resolvesse o assunto. E eu ainda estou a aprender, confesso aqui com profunda vergonha, a apreciar whiskey. Não sei bem como, mas a culpa só pode ser do Chega.
Então mas, afinal, o que é que sei do congresso do PS? Olha, sei que José Luís Carneiro continua na liderança do partido. O que me parece perfeito, porque ao líder que faria tremer pernas alemãs, é lógico que continue a suceder o líder cujas pernas tremem face a dirigentes venezuelanos. Deu-lhe a fraqueza e vai daí Carneiro ajoelhou-se em Caracas perante políticos que ninguém legitima. A culpa? Adivinharam. É do Chega.
E não sou só eu quem o diz. É o ex-Presidente da República, Cavaco Silva, numa entrevista ao Expresso. O homem que foi primeiro-ministro dez anos, Presidente da República outra década e que se queixa do miserável estado do país, destacou o Chega para assinalar a sua “óbvia impreparação técnica para falar de políticas para o progresso do país”. Chega que nunca foi governo. Mas Cavaco é presciente e está certo que, a acontecer tal, será pior do que a era da ebulição global do Guterres. Onde estava a presciência de Cavaco quando apoiou Marques Mendes para a Presidência da República? E onde está ela agora, quando continua a acreditar na capacidade reformista do actual PSD? Aposto que alguém escondeu a presciência do professor. Lá está: só pode ser culpa do Chega.
Agora, porque é que, no meio da decrepitude de PS e PSD e da absoluta inutilidade da Iniciativa Liberal, o maior partido da oposição teima em afugentar potenciais eleitores ao insistir em políticas económicas que se confundem com as do PCP, não faço ideia. Mas sei que a culpa é do Chega.