Numa época em que o cristianismo, e o catolicismo em particular, estão sob fogo cerrado, são incessantemente atacados, execrados e caricaturados, dos media às artes, e na esfera social, um filme como Os Domingos, da realizadora espanhola Alauda Ruiz de Azúa, faz quase figura de milagre – e tanto mais pelo facto de ela ser ateia. Mas às vezes, as boas surpresas vêm de onde menos se espera, e a verdade é que um cineasta católico – se é que eles ainda existem – não conseguiria talvez fazer uma fita mais imparcial, equilibrada e honesta do que Os Domingos (ganhou o Festival de San Sebastián e um ramalhete de prémios Goya, nada menos do que cinco, incluindo Melhor Filme, Realização e Atriz Revelação).
[Veja o “trailer” de “Os Domingos”:]
https://www.youtube.com/watch?v=fSRrZVzDTVA
Ainara (Blanca Soroa) tem 17 anos, perdeu a mãe precocemente e vive em Bilbau com o pai, dono de um restaurante, e com as duas irmãs mais novas. A família é ainda composta pela avó, que a adora, e pela tia, Maite (Patricia López Arnaiz), irmã do pai, que vê a sobrinha mais velha como uma filha, é casada com um argentino e teve uma educação religiosa, mas deixou de ser crente. Ainara é uma rapariga com algo de diferente, e percebemos isso logo no início da fita, quando, no dormitório do colégio que frequenta, ela bebe limonada enquanto que as colegas estão alcoolizadas.
A jovem vai surpreender todos ao revelar (e primeiro à tia, que vê como uma confidente), que sente uma vocação religiosa. Quer ser freira, e professar numa ordem de clausura e contemplativa. Uma revelação que cai como uma granada de fragmentação na família. O pai, a braços com um empréstimo muito elevado que fez para renovar o restaurante, e que está a ver que não consegue pagar, fica entre o reticente e o resignado; a avó entra em aflição porque não quer perder a neta querida; o tio troça dela com leveza; e só a tia fica verdadeiramente perturbada, pois é anti-clerical e vê a Igreja Católica como uma inimiga, um mecanismo terrível que esmaga a liberdade, a individualidade e a consciência das pessoas.
[Veja uma entrevista com a realizadora:]
https://www.youtube.com/watch?v=AsrVVloDjWU
Ainara é soberbamente interpretada por Blanca Soroa, que nos transmite, no meio da agitação que se levanta em seu redor, e da sua própria perturbação interior, o poder indizível e transcendente do apelo a que responde. Tanto mais que Alauda Ruiz de Azúa não a mostra como sendo particularmente excecional ou sobredotada, mas sim uma rapariga que, como todas as da sua idade, gosta de se divertir e passear, de ouvir música, e de estar com os amigos e as amigas. Há mesmo um rapaz de quem gosta, seu colega de escola e do coro em que ambos cantam, e com quem chega a ter um esboço de intimidade, de uma vez em que ficam sozinhos em casa dela.
A rapariga enfrenta as dúvidas, a angústia e o medo dos seus familiares. O pai e em especial a tia, suspeitam que as freiras e o diretor espiritual dela, um padre jovem e bonito demais, a tenham influenciado em excesso, dado-lhe mesmo volta à cabeça. E é o imenso amor que têm a Ainara, e a proteção que sempre lhe deram, que motivam estes sentimentos, e ela sabe-o bem. O que torna ainda mais difícil a sua situação, e dolorosa a sua escolha. Ainara apenas lhes pode contrapor o mistério, incompreensível para eles, da sua fé, desse apelo invisível que a toca tanto e tão fundo, de um amor maior e inefável que só ela sente, e a que quer responder e corresponder. À incompreensão dos outros, ela só pode mostrar a sua certeza calma, e intraduzível por palavras.
[Veja uma entrevista com a atriz Blanca Soroa:]
https://www.youtube.com/watch?v=php0sJG43xg
Os Domingos é tão irrepreensivelmente escrito como serenamente filmado, e bem interpretado por um elenco homogéneo, e comove e inquieta em partes iguais. Alauda Ruiz de Azúa faz-nos sentir a aflição compreensível e legítima da família de Ainara, que argumenta que ela é nova demais para se ir fechar num convento, tem pelo menos que tirar um curso, ver mundo, conhecer pessoas e amadurecer sentimentos e ideias, antes de tomar uma decisão tão definitiva; e a força da confiança, a convicção íntima e serena da rapariga sobre a natureza do chamado que sentiu, o caminho que escolheu seguir e o lugar onde quer ficar para o resto da sua vida.
O tema de Os Domingos é delicado e difícil, e estranho e impopular no mundo em que vivemos, cada vez mais secularizado e alheio – quando não até hostil — ao fenómeno do divino. Mas a realizadora encara-o, dramatiza-o e filma-o com uma justeza, uma equidistância e uma integridade intelectual admiráveis, expondo as razões e os argumentos de todos os envolvidas, sem tomar partidos nem julgar ninguém, muito menos tentar influenciar ou formatar a opinião do espectador. O filme mostra ainda, e finalmente, que nem sempre os mais tolerantes são aqueles que o aparentam ou afirmam ser. É, desde já, um dos melhores estreados este ano.