(c) 2023 am|dev

(A) :: O Ensino Secundário: repensar escolhas para o futuro

O Ensino Secundário: repensar escolhas para o futuro

Portugal vive hoje uma realidade incontornável: a desvalorização dos diplomas universitários. Em contrapartida, áreas técnicas especializadas oferecem salários competitivos

Elisa Manero
text

Em Portugal, a escolha entre o ensino científico-humanístico e o ensino profissional continua a ser apresentada como uma encruzilhada decisiva, quase definitiva, no percurso dos jovens. No final da escolaridade obrigatória, muitos alunos sentem que não estão apenas a selecionar disciplinas, mas a definir o seu futuro académico e profissional. O problema é que esta decisão continua a ser moldada por preconceitos antigos, desajustados da realidade económica e social do país.

O ensino científico-humanístico permanece associado ao “caminho nobre”, aquele que supostamente conduz ao ensino superior e, por consequência, ao sucesso. Com cerca de 2600 horas de formação teórica em três anos, prepara os alunos para exames nacionais e para o acesso à universidade, conferindo o nível 3 do Quadro Nacional de Qualificações. É uma via sólida, mas demasiado centrada na ideia de que o ensino superior é o destino obrigatório. Esta visão ignora que o mercado de trabalho atual valoriza, cada vez mais, competências práticas, técnicas e aplicadas, precisamente aquelas que este percurso raramente desenvolve.

Em contraste, o ensino profissional oferece cerca de 3400 horas de formação, incluindo obrigatoriamente Formação em Contexto de Trabalho. A certificação é dupla: diploma do secundário, nível 4 do QNQ e qualificação profissional reconhecida pelo mercado. É uma via que garante experiência real, contacto com empresas e competências técnicas que permitem a entrada imediata no mercado laboral, sem fechar a porta ao ensino superior. Num país onde um técnico de nível 4 pode iniciar carreira com cerca de 1200 euros mensais, enquanto um técnico superior da função pública começa com aproximadamente 1385 euros após uma licenciatura, a narrativa de que “a universidade é sempre melhor” torna-se difícil de sustentar.

A minha própria experiência familiar ilustra bem esta mudança de paradigma. O meu filho seguiu o percurso científico, com excelentes resultados em Biologia, Física e Matemática. Entrou na universidade com mérito, mas rapidamente percebeu que o ritmo, a autonomia e a exigência do ensino superior são muito diferentes do ensino secundário. A transição não é automática, nem garantida, mesmo para alunos de elevado desempenho.

A minha filha, por outro lado, escolheu o curso profissional de Audiovisuais, numa área onde as raparigas ainda são poucas. Está no 11.º ano, trabalha muito e destaca-se pelo empenho. Poderá ingressar no ensino superior, se assim o desejar, mas está sobretudo a adquirir competências técnicas e sociais, o saber fazer, que dificilmente encontraria num curso científico-humanístico. E fá-lo num setor onde a procura de profissionais qualificados é crescente.

A verdade é que Portugal vive hoje uma realidade incontornável: a desvalorização dos diplomas universitários. Muitos licenciados enfrentam dificuldades em encontrar emprego qualificado e acabam em funções com remunerações próximas do salário mínimo. Em contrapartida, áreas técnicas especializadas, informática, eletrónica, mecatrónica, transportes, oferecem estabilidade e salários competitivos, mesmo sem formação superior.

O mundo mudou, mas parte do sistema educativo e muitos decisores continuam presos a uma visão ultrapassada, que associa prestígio exclusivamente à via académica. Esta insistência não serve os jovens, não serve as famílias e não serve o país.

Repensar o ensino secundário não é apenas uma questão de reorganizar cursos; é uma questão de justiça social, de realismo económico e de futuro. Portugal precisa de valorizar todas as vias de ensino, não apenas aquela que tradicionalmente considerou “superior”. Porque o sucesso não tem um único caminho e o futuro não se constrói com preconceitos, mas com escolhas informadas, diversas e alinhadas com as necessidades reais da sociedade.