(c) 2023 am|dev

(A) :: Páscoas

Páscoas

O pequeno papel dizia apenas “Anthonia, Nigéria” mas tanto bastou para que aquela mulher da qual nada nunca saberei ficasse de certo modo a meu cargo na lembrança, na oração, no olhar para a televisão

Maria João Avillez
text

1 Depois da dúvida, a perplexidade, a surpresa e uma admiração comovida, é que caí em mim. Mas primeiro foi preciso abrir todo este leque de “estados de alma” para chegar à Mafalda e sim, constatar que “se” pode ser assim. Tendo desde sempre como segunda morada uma cadeira de rodas e não tendo nem um metro de altura, ser tão solar, enérgica, útil, divertida, interessante, interessada – e realizadíssima. Conheci-a há muitos anos num evento onde eram “distinguidas” algumas mulheres e ela era umas delas. Havia muita gente, ruído, desatenção, discursos, conversas cruzadas, passou. Mas ela não. A imagem durou até hoje: solidez, fluidez discursiva, sorriso aberto, desenvoltura. E a segurança de uma estrela.

Percebi estar diante de um absoluto caso, o caso ficou comigo, ela perdi-a de vista. De longe a longe, uma notícia, pouca coisa para a dimensão do que é capaz a vontade humana.

Chama-se Mafalda Ribeiro, tem pouco mais  de 40 anos e mandou-me um mail há dias a pedir a morada, ”queria mandar um presente” . O presente era um livro escrito por ela – “Gotas no Charco” – com prefácio de José Tolentino de Mendonça (edição da Have a Nice Day), e o primeiro agradecimento reza assim: “a Deus que é fonte de todas as minhas gotas”.

Voltei a cair em mim mas desta vez não foi de borla, isto é, a Mafalda não podia ser “património” exclusivo de um encontro e de uma troca de mensagens, havia uma responsabilidade. A que existe quando se percebe estar diante de alguém totalmente improvável e inteiramente desarmante na sua qualidade humana. Embora hoje com alguma actividade pública, parecia-me obrigatório dá-la a conhecer ainda melhor, contá-la ainda mais. Levando-a pela mão até essa plateia sempre misteriosa que são os “leitores” (existirão?) para não nos distrairmos – repito – quanto ao ilimitado poder – e nobre exemplo – de uma vontade humana.

Mafalda nasceu com uma doença raríssima (Osteogénese Imperfeita) que, numa linguagem leiga, significa possuir ossos com a consistência do vidro. São já incontáveis as fracturas que fez, o sofrimento que provocaram, a assimetria que encontra na sua frente de batalha diária. E no entanto… estudou jornalismo, esteve numa empresa na área do Ambiente, escreveu um primeiro livro, é alegremente enérgica e comunicativa no modo como vive a sua “deficiência”, era impossível não “se dar por ela”. Contagiante no sorriso aberto e numa invulgar capacidade de iniciativa, publicou um segundo livro, é autora de um projecto próprio, “Sorrir sobre Rodas”, e, entre outras presenças e autorias, é consultora de “inclusão para a deficiência” de um forte grupo económico”. Sem nunca andar, como tem sido fértil o seu caminho.

Em tempo de Páscoa da Ressurreição, a Mafalda ressuscitou dela própria.

2 Na trapalhada em que se enreda e divide hoje uma considerável parte do universo católico por esse mundo fora, sobre o desacordo entre uns e outros quanto à velocidade seguida pela Igreja no seu caminho – uns indo muito à frente na exigência de uma Igreja outra; os outros preferindo ficar naquela onde já estão – lembrei-me do Papa Francisco e da “Igreja em saída” que vibrantemente pedia. E da “Igreja-Hospital de campanha”, que igualmente recomendava. Muitos diziam que Francisco “era um Papa de esquerda” – a própria esquerda, por pura ignorância, também rejubilava com o equívoco – sem que nem uns, nem outros reparassem que era do Evangelho que ele falava: levando-o para fora da sacristia ao encontro acolhedor de “todos, todos, todos”.

Lembrei-me do Papa Francisco por ter testemunhado ao vivo, numa breve espaço de um pedaço de noite, uma igreja que “saía” da lisboeta Basílica da Estrela ao encontro dos que sofrem as guerras na pele, no sofrimento, na solidão do abandono mais desamparado. Foi há dias numa “Vigília pela Paz” convocada pelo Patriarca de Lisboa. O silêncio e o recolhimento equivaliam-se na profundidade de ambos. Rezava-se e ouvia-se rezar. Ouvia-se cantar e cantava-se. E a dado momento, a Igreja “saiu” quando o Pároco da Basílica, Padre Duarte da Cunha, fez entregar aos presentes um pequeno papel com um nome de alguém: os nomes próprios de centenas de homens e mulheres que sobrevivem nos cenário das guerras onde em várias geografias a destruição e a morte pulverizam cidades, países e regiões. O pequeno papel que me calhou dizia apenas “Anthonia, Nigéria”, mas tanta bastava para que aquela mulher da qual absolutamente nada nunca saberei, ficasse de certo modo a meu cargo, na lembrança, na oração, no olhar para a televisão, e saber que naquela Nigéria vive uma Anthonia que precisa de amparo. Mesmo que só de palavras rezadas, mesmo que à distância, mesmo que aparentemente – dirão fatalmente alguns – “não sirva para nada”. Nunca se saberá, o que confere à intenção e ao gesto aquele misterioso sentido do “valer ou não valer a pena”… tarefa que (felizmente) sabemos não ser essa a que nos compete. O que nos competia ali era compreender que naquela noite a Igreja tinha “saído” do interior solene de uma Basílica para ir ter com povos ao chão da guerra. Gente agora com um nome, para levarmos connosco após o silêncio recolhido de uma impressiva mancha de gente jovem e menos jovem.

Assim contado quase parece coisa fácil ou talvez um milagre. Não foi nem uma coisa, nem outra. Deu trabalho, levou tempo, foi preciso contactar muita gente – a gente certa –, obter a informação – a informação rigorosa – e tudo isto em lugares em guerra. Duarte da Cunha fez questão, a partir do altar, de especificar os interlocutores: do Cardeal de Teerão a Patriarcas ortodoxos, passando pela Caritas e várias outras instituições, a lista era grande. Muitos foram os que acorreram à chamada do Patriarca de Lisboa numa verdadeira Páscoa da Ressurreição

3 Três sinais de puro alarme: A – o mundo pasmou, depressa se indignou, e depois enfureceu-se: a dimensão do choque com a proibição da celebração da Páscoa em Jerusalém é dificilmente alcançável sob que ângulo for, mesmo o da segurança. À hora a que escrevo o governo de Israel – por vergonha, medo, humilhação, noção do tamanho da ofensa feita? – recuou. Melhor assim, com certeza. Mas a assinatura vai ser difícil de apagar: ninguém esquecerá que “isto” aconteceu.

4 A parte ainda normalmente constituída do país aguarda noticias sobre o modestamente noticiado – e pouco lamentado mediaticamente – disparo de um engenho (muito) explosivo sobre um avultado grupo de gente que em paz se manifestava contra o que repudiam. Foi na Marcha pela Vida e ocorreu o inconcebível numa prosaica tarde de fim de semana entre famílias e carrinhos de bebés. Aqui chegados, pergunto: e então? O que aconteceu, como aconteceu, porque é que foi possível, de quem foi a ideia? Quantos eram? E, claro: agora, o que se segue? Nada?

5 A abstenção portuguesa na ONU numa votação onde se exigem imbecilmente perdões, reparações, comportamentos e arrependimentos num mar de ignorância e fora de qualquer contexto histórico, aflige, embaraça, humilha. João Pedro Marques já disse aqui mesmo no Observador tudo – e tão bem –. redimindo todos os que, como eu, ficaram num limbo.

Não há Pascoa que nos ressuscite desta vergonha.