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(A) :: Uma coleção com mais de 100 gadgets, a casa pintada com as cores do logo e folgas em dias de evento. A vida de um super-fã da Apple

Uma coleção com mais de 100 gadgets, a casa pintada com as cores do logo e folgas em dias de evento. A vida de um super-fã da Apple

David Freeman ostenta com orgulho o título de super-fã da Apple. Já acampou em filas para ser dos primeiros a comprar um iPhone e gastou uma “boa quantia de dinheiro em produtos”.

Cátia Rocha
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Não é preciso muito para se perceber que David Freeman é um colecionador de produtos da Apple. Quando entra na videochamada com o Observador, a estante que surge atrás já o denuncia. Organizados nas prateleiras, quase em exposição, estão vários computadores da Apple, de diferentes épocas da história da empresa.

O engenheiro de software do Kansas, nos Estados Unidos, ostenta com orgulho o título de super-fã da Apple. No verão de 2023, foi escolhido como o maior fã da marca num concurso global da SellCell. Derrotou mais de mil participantes numa prova de conhecimento sobre a empresa e recebeu um Apple Watch — mais um produto para acrescentar a uma extensa coleção.

O concurso também foi uma forma de conhecer a atual companheira. Quando venceu, estava solteiro e queixava-se de que era difícil encontrar alguém com o mesmo nível de fanatismo pela Apple. “Outra entusiasta da Apple leu os artigos sobre o concurso e contactou-me”, explica. “Recebi uma mensagem a dizer que ela gostava muito da Apple e queria convidar-me para um encontro. Portanto, o nosso primeiro encontro foi viajar até à Califórnia, andar pelo Infinite Loop e o Apple Park. Estamos juntos até hoje”, explica. “Ela é da Carolina do Sul, quase do outro lado do país, e nunca nos teríamos encontrado se não fosse aquele artigo.”

Aos 31 anos, já não sabe bem quantos produtos da Apple tem em casa. Não há divisão que não tenha uma referência à empresa, que completou 50 anos de vida a 1 de abril. Há quadros com cartazes publicitários dos iMac e do iPod, almofadas com o ícone do gestor de ficheiros Finder e, claro, uma moldura na parede para assinalar o encontro entre David Freeman e Steve Wozniak, o cofundador da Apple. “Ele é muito simpático. Ainda é muito apaixonado pelos primeiros dias da Apple, se lhe fizerem uma pergunta fala durante muito tempo sobre a empresa.”

Cada uma das divisões da casa de Freeman está pintada com uma das cores do logótipo arco-íris da Apple, usado entre 1977 e 1998. “A cozinha é verde, a sala de estar está em amarelo. Todas as cores do logótipo da Apple estão nas divisões”, explica. O quarto da filha está pintado em tons de violeta. A menina chama-se Lisa, tal como a filha de Steve Jobs e também de um computador.

O Lisa, um computador lançado em 1983, é uma das peças que falta no “pequeno museu” de David Freeman. “Foi o primeiro computador com sistema operativo gráfico que a Apple fabricou. É algo que gostaria muito de ter”, diz. Além disso, também lhe falta o “Apple I, que hoje em dia vale muitos milhões de dólares”, explica entre risos. Além da exposição no escritório, também tem alguns na cave. “Pego em Macintosh antigos, reparo-os e ficam expostos ou aqui no escritório ou passam para outro dono sortudo. Mas tenho bem mais de cem produtos, ia precisar de muito tempo para contá-los”, diz ao Observador.

Já desistiu de fazer contas a quanto gastou para aumentar a coleção. “Ui, muito dinheiro. Milhares e milhares de dólares, sobretudo em produtos novos. Tenho alguns computadores antigos na coleção que são mais valiosos do que outros, em que gastei uma boa maquia.” Mas, em geral, assegura que é possível “encontrar muitos destes computadores por quase nada, se se souber onde procurar”. “As pessoas deitam-nos fora como lixo eletrónico, não percebem o que são nem o quão importantes são para a história da computação.”

Mas Freeman também foi colecionando outros objetos menos óbvios da história da Apple. “Tenho muita tecnologia estranha da altura em que a Apple estava a fazer experiências”, um período que coincide com os anos em que Steve Jobs esteve fora. Levanta-se para ir buscar uma câmara fotográfica. “É a QuickTake, que é mais ou menos da mesma época do Newton”, aponta, referindo-se ao assistente pessoal digital desenvolvido pela Apple entre 1993 e 1998. A QuickTake, uma máquina digital lançada em 1994, “só dava para 15 fotografias”, explica Freeman.

Logo a seguir mostra o que parece ser um portátil de brincar. “Este é o Tiger Learning Computer, um brinquedo para crianças, que diz ‘powered by Apple’. Tem um Apple II no interior, mas era um brinquedo que podia ser ligado a uma televisão para funcionar como um computador completo. Era muito giro.” O Tiger teve uma vida curta, tal como outras experiências como a consola Pippin. “Muitos destes produtos foram descontinuados quando Steve Jobs regressou” à empresa, já em 1997, explica Freeman.

O primeiro amor foi um iMac G3. Anos depois, Freeman sente-se quase “preso” à maçã

Antes de ser super-fã da Apple, David Freeman já se considerava um “entusiasta da tecnologia”. “Sempre fui fã de computadores. Mas, para mim, quando era miúdo, isso queria dizer computadores com DOS [sistema operativo de disco] e os primeiros computadores com Windows.” O primeiro contacto com um equipamento da Apple só veio mais tarde, quando encontrou na escola um iMac G3. “Aqueles iMac lindos e coloridos que Steve Jobs apresentou quando voltou à Apple”, diz com um sorriso.

“Cativaram-me. Vi o computador e como era divertido, diferente dos computadores a que estava habituado. Pensei ‘eis uma empresa que adora computadores tanto quanto eu’”, acrescenta. Do ponto de vista de Freeman, era uma forma diferente de ver um computador. “Já não era só mais um eletrodoméstico, uma ferramenta, era um obra de arte que podia fazer parte da decoração da casa.”

Depois, foi gradualmente convencido pelo sistema operativo. “O macOS [sistema operativo dos Mac] e os restantes sistemas são concebidos com intenção, são feitos por pessoas que se preocupam com a experiência de computação.” A transição do Windows para o ambiente da Apple foi “muito gradual”.

Depois do contacto com o iMac G3, ficou curioso em saber mais sobre a empresa. “Li muito sobre Steve Jobs e Steve Wozniak a trabalhar na garagem nos primeiros tempos”, diz. “Identifiquei-me muito com o que representavam, com a ideia da democratização da computação.”

Ao mesmo tempo em que lia mais sobre a história da Apple “começou a acompanhar o que iam fazendo.” Não era preciso procurar muito, confessa. “No início dos anos 2000, o iPod fazia furor.” Anos depois, veio o iPhone. “E tive de comprar todos aqueles aparelhos assim que eram anunciados. Steve Jobs era um grande vendedor…”

Ainda adolescente comprou um iPod. Foi o primeiro de muitos. “Depois disso comprava o que conseguia, como era típico de um estudante do secundário”, diz referindo-se aos preços elevados da tecnologia da empresa. Não embarcou logo no entusiasmo do iPhone, um equipamento com um preço bem elevado para 2007. “Tenho todos os iPhone desde o 4S”, explica Freeman. Mantém os modelos em exposição numa das paredes do escritório.

David Freeman já experimentou telefones de outras marcas. “Houve uma altura, provavelmente no fim do liceu, início da faculdade, em que trocava de telemóvel a cada dois meses.” Experimentou quase tudo, “fosse o Windows Phone, Pixel, Samsung Note.” À medida que foi ficando mais velho, ganhou ainda mais preferência pela Apple. “O ecossistema envolve as pessoas. Compra-se um iPhone, depois o Apple Watch para usar com o iPhone, os AirPods… Sincroniza-se tudo com o Mac, com o iPad — agora é quase como se estivesse preso. É muito difícil mudar.”

Ao mesmo tempo, não está pronto para ter o trabalho de migrar tudo de um lado para o outro ou de abdicar do funcionamento conjunto dos equipamentos. “A continuidade que existe entre o telefone e o Mac facilita-me bastante a vida, por exemplo, poder copiar um texto no iPhone e depois colá-lo no computador. Ou poder abrir um site no computador e, com um clique, a página aparecer no meu iPhone se quiser sair da secretária.” Descreve uma “ligação perfeita entre os dispositivos”, um tipo de funcionalidade que considera “só ser possível com a Apple”.

Ainda que haja mais empresas a tentá-lo, reconhece, “não de uma forma tão integrada”. “Existem formas de fazer muitas coisas destas entre o Android e o Windows, mas requer a instalação de plugins ou extensões, para além da configuração.” Resume que seriam “muitos ajustes e configurações para que funcionassem da mesma forma como acontece no iPhone automaticamente”.

A Apple ainda é o que era? Não, mas a culpa (não é só) de Cook

David Freeman está “com a Apple em toda a linha”, mas reconhece que muita coisa mudou entretanto. Por exemplo, quando queria ter um iPhone no primeiro dia era preciso “acampar à frente das lojas”. “Não era fácil. Hoje em dia é muito mais, basta encomendar online e recebe-se no dia do lançamento.”

Isso pode ter mudado, mas ainda mantém outros hábitos. Por exemplo, o de libertar a agenda no dia de apresentação da Apple. “Normalmente tiro o dia de folga, ou pelo menos algumas horas, para acompanhar as apresentações em direto. Os meus colegas brincam, dizem que é o meu feriado religioso quando há apresentação”, diz entre risos. “Acho que vi quase todas as apresentações em direto nas duas últimas décadas.”

Porém, não com o mesmo nível de entusiasmo, confessa. “Já não [surpreendem] da mesma forma como nos primórdios, com Steve Jobs. Acho que nunca ninguém conseguiu igualar a capacidade dele de apresentar um produto. Aquela maneira que nos deixava logo com a sensação de ‘preciso de ter isto agora’.”

Acha que nem Tim Cook nem John Ternus, apontado por muitos como um possível sucessor para CEO da Apple, “demonstram o mesmo nível de entusiasmo pelos produtos” que Jobs tinha. Mas faz questão de acrescentar algum contexto. “Acompanho muito mais os leaks”, diz, referindo-se às informações que, a conta-gotas, antecedem o lançamento dos produtos. “Isso não acontecia. Agora é muito raro haver uma apresentação em que não se saiba o que vai ser anunciado, porque já houve leaks.”

A última vez em que foi minimamente surpreendido foi em 2023, com os Vision Pro, um headset de realidade mista. “Acho que foi o último momento uau. Toda a gente sabia que vinha aí um headset, mas não se sabia bem como ia ser o sistema operativo ou o funcionamento.” Apesar do preço, 3.500 dólares nos EUA, David Freeman comprou os Vision Pro. Teve a sensação de “estar no futuro” quando experimentou o headset pela primeira vez. Porém, agora já coloca o gadget na categoria de “fracasso comercial”. “Peca pela falta de conteúdo. Anos após o lançamento, posso dizer que se comprar hoje uns Vision Pro, num fim-de-semana consegue ver todos os conteúdos que foram produzidos para lá.”

O fã da Apple também se queixa da falta de aplicações para o equipamento. “A loja de aplicações dos Vision Pro hoje é praticamente igual a quando foi lançada”, lamenta. Freeman considera que “a Apple prejudicou a relação que tinha com os programadores”, que ” não estão tão interessados em migrar para uma nova plataforma e criar aplicações” para um dispositivo deste género.

O que pode um super-fã querer mais da Apple? Uns óculos “mais simples” para usar no dia-a-dia

David Freeman pode ter mais de uma centena de produtos da Apple, mas não precisa de pensar muito para dizer que produto gostaria de ver a marca lançar. “Gostaria de ver a Apple a pegar nos Vision Pro e a simplificá-los.”

Pensa numa “interface mais simples, que fossem mais baratos e mais parecidos com óculos.” Ou seja, uns óculos inteligentes, semelhantes aos que a Meta já tem no mercado.

“Não preciso de ter um computador na cara, só um equipamento que permitisse ver as notificações que chegam, ditar mensagens de texto, ter indicações de mapas projetadas nas lentes ou fazer pesquisas com inteligência artificial”. E, por questões de privacidade, “sem câmara”.