Alauda Ruiz de Azúa, cineasta basca de 47 anos, chegou radiante de felicidade à sala do Hotel Maria Cristina onde a entrevistámos no ano passado, em San Sebastián. O seu novo filme, Os Domingos, fora calorosamente ovacionado de pé na véspera, memorável noite de estreia no maior festival da Península Ibérica. Responsável por três curtas-metragens e uma primeira longa em 2022 multipremiada em Espanha, Cinco Lobitos, que infelizmente não se estreou do lado de cá da fronteira, autora de uma comédia romântica lançada directamente na Netflix (Eres tú, 2023) e que a preparou para a série Querer (está na Apple TV+), tremendo êxito no país vizinho, Alauda transpirava confiança, ciente de que Os Domingos é o seu trabalho mais sólido até à data — tanto assim foi que, no fim-de-semana seguinte, a obra arrebatou o prémio máximo do festival.
E fez-se história em Donostia: nunca antes, em 73 edições, havia sido a Concha de Ouro entregue a filmes espanhóis pelo terceiro ano consecutivo, após Tardes de Solidão, do catalão Albert Serra (vitorioso em 2024), e O Corno, da também basca (embora sediada na Galiza) Jaione Camborda (ganhou em 2023). Esta sequência não é casual, antes indício do excelente momento que atravessa a cinematografia espanhola. No mesmo concurso de Setembro passado corriam os também premiados Histórias do Vale Bom, de José Luis Guerín (actualmente em exibição entre nós) e o pungente Maspalomas, de Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga — esperemos que alguém lhe pegue um destes dias e o mostre em Portugal.
Mas voltemos a Os Domingos e ao trabalho de Alauda, que é cineasta “de famílias” intrigada pelas dinâmicas que as moldam; aquilo que, dentro de quatro paredes, é exposto ou permanece escondido. Como diz a cineasta mais à frente, a família é uma “instituição (…) e somos ensinados que é ali que se recebem os afectos mais verdadeiros.” Ora, a protagonista do filme, Ainara de seu nome (gracioso papel de Blanca Soroa, jovem debutante com os mesmos 17 anos da sua personagem) atreve-se, certo dia, a pôr a dita “instituição” em causa. Não por insolência, que o seu acto de rebeldia até é alheio aos hábitos dos dias que correm, mas por convicção pura. Por amor a Deus, quer ela tornar-se freira de clausura monástica.
Filha de uma classe média confortável de Bilbau, Ainara, órfã de mãe e a mais velha de três irmãs, está contra a corrente do seu tempo. Deseja o encarceramento, o que se esconde atrás das grades (parte do filme foi rodada num convento de Gernika-Lumo ocupado por Clarissas durante 600 anos e há pouco dessacralizado, adquirido entretanto pelo Governo basco). Iñaki, o pai (Miguel Garcés), resigna-se à escolha, mais preocupado com problemas financeiros. Mas Maite, a tia (outro papel formidável de Patricia López Arnaiz após o que nos deu em 20.000 Espécies de Abelhas), lida com outra sensibilidade ao chamamento e vai ao mosteiro tentar perceber o que se passa. Insiste em falar com a madre superiora sem magoar a sobrinha, esperando que esta, aluna brilhante à beira de entrar na Universidade, mude entretanto de ideias — mas Ainara insiste, convicta das riquezas da vida espiritual. Nisto, aquela família é levada a olhar-se ao espelho e, na incerteza, testa as suas prioridades, reequaciona a sua própria estrutura hierárquica, procurando mecanismos de defesa para uma nova aprendizagem emocional.
“Jesus põe desejos nos corações das pessoas”, diz às tantas a protagonista. Mas quem a ouve agora, numa época em que a fé perdeu sentido para a vida jovem e o sinal da cruz foi trocado pelo deslizar de dedos nas redes sociais dos telemóveis? Não se fala disto por acaso. Redes sociais e telemóveis também fazem parte do filme e acabaram por transbordar para esta entrevista. Depois do encontro em San Sebastián, Os Domingos tornou-se um êxito de bilheteira em Espanha (levou 700 mil pessoas às salas, cômputo notável para a obra em causa) e, mais do que isso, num tópico amplamente discutido na sociedade do país. Entretanto, arrebatou a última edição dos prémios Goya. Óptimo filme, diz-se deste lado, antes de passarmos a palavra à cineasta.
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Realizou Os Domingos a partir de um argumento que é da sua autoria. Porque é que decidiu dar origem a esta história?
A história não é minha. Este filme anda na minha cabeça há muitos anos e a sua origem é um acontecimento que até se tornou motivo de troça, quando uma rapariga com a idade de Ainara decidiu ingressar num convento de clausura de um dia para o outro. A família tentou dissuadi-la do contrário, em vão. E ninguém percebia a renúncia dela, chegado o momento de entrar na vida adulta. Isto aconteceu, de facto, quando eu era adolescente. Embora não seja religiosa, acho a vocação de clausura um dos actos mais extremos da procura de si próprio. Pareceu-me que o caso era uma boa desculpa para voltar a abordar o assunto que mais me interessa explorar, quase como uma ideia fixa: o da família como porto de abrigo.
Que é tema já presente em Cinco Lobitos e também na sua série, Querer…
São obras muito distintas e se algo têm em comum é o facto de falarem da família como uma instituição. É incrível o esforço que fazemos para manter na família o nosso último refúgio. Somos ensinados que é ali que se recebem os afectos mais verdadeiros. Quando eu soube da história deste filme, tinha a idade da pessoa que queria ir para o convento e não consegui compreendê-la. Foi preciso passar por Cinco Lobitos para voltar a lembrar-me dela. A decisão de Ainara põe de pernas para o ar uma série de convicções que julgamos seguras. Então sim, acho que há uma ligação de Os Domingos com os filmes anteriores, mesmo que subterrânea.
Este filme levou-a a ponderar algum tipo de questionamento em relação à religião católica, por exemplo?
É uma questão complexa. Acho que percebi com mais clareza, durante a rodagem, a que ponto pode a religião tornar-se um enorme conforto para muitas pessoas. Eu não sou crente mas acho que, no fim de cada dia, todos nós, agnósticos, ateus ou católicos, precisamos de acreditar em alguma coisa para continuar. Quem não acredita em Deus, acredita na família, no parceiro ou no seu trabalho. Todos projectamos algo no futuro — como uma aposta — e nos comprometemos com alguma coisa que sentimos ser real. Quando comecei a investigar esta história e a falar com pessoas, a visitar conventos, tudo isso, compreendi que a realidade se aplica a coisas sobrenaturais e divinas para as quais não tenho explicação. Ir para um convento de clausura é menos uma escolha pessoal do que um chamamento.
Algumas meninas com quem falei, e que abraçaram a vida claustral, contaram-me que sentiam coisas muito poderosas nas suas vidas. Falaram-me das suas experiências no convento como de uma relação amorosa, um amor perfeito por Jesus, que as enchia de felicidade. A minha abordagem foi, contudo, mais humanista que sociológica. Não procurei padrões nem estatísticas, procurei pessoas. Algumas estavam ainda na fase do “discernimento”, que determina se a vocação existe. Outras já tinham dado o passo seguinte, admitidas no convento. Outras ainda, tinham acabado de mudar de ideias após lá terem passado algum tempo. Foi um processo longo que tratei quase como se fosse uma documentarista. E também escutei as famílias.

Mas não pode a vocação de Ainara ser interpretada de outra forma? A relação dela com o pai é distante, por exemplo. A tia acredita que o chamamento pode ter outra explicação. O filme deixa-nos intuir certas coisas…
Ainara perdeu a mãe, tem uma relação complicada com o pai e a figura da mãe, de facto, não foi substituída pela da tia. Isso é certo. É natural a sua procura de consolo, embora a decisão dela provoque um julgamento externo. Na verdade, ela vai desbloquear coisas que são comuns a todos nós: família, adolescência, as imposições sociais, a própria fé. De qualquer forma, o ponto de vista do filme não é o de Ainara, mas o da família dela enquanto organismo com vários elementos. Para aquela família, é como se, de repente, alguém lhes estivesse a roubar uma filha. E o processo está em andamento. Quando o filme começa, Ainara, secretamente, já tomou a sua decisão.
Outra coisa que me parece saliente é que o filme observa a família sem julgamentos, sem moralismos, à medida que vamos descobrindo a complexidade das personagens.
Tive muito cuidado nesse aspecto. Isto é: não sendo crente, não podia permitir-me considerar uma intervenção divina, com halos de luz, músicas espirituais ou truques desse género. Não acredito nisso. Sobre Deus, o meu filme não confirma nem desmente. Senti, contudo, que só podia tratar o assunto com seriedade se jamais colocasse em causa a sinceridade de Ainara, respeitando o seu percurso emocional. Proibi-me de fazer um filme de trincheiras ideológicas; pelo contrário, o que quis foi preparar o terreno para a troca de afectos. Aliás, a fé não é sequer o assunto deste filme. A vocação é apenas um ponto de partida para falar de outra coisa: a fragilidade familiar. A fragilidade da sua encenação, as fissuras abertas pelo seu fingimento.
Não acha que a religião, hoje, é assunto avesso às novas modas?
Mas isso só a torna mais interessante. A religião está tão longe das preocupações do dia-a-dia das pessoas mais jovens que o simples facto de ser evocada torna-a incómoda. Não tenho fé, mas sempre gostei de tentar compreender o que é de um ponto de vista humanista.

A escolha de Ainara, o seu “desaparecimento” em nome de Deus, é um acto político, no sentido em que ela quer romper com o papel que a família esperava dela? Concorda com isto?
Sim, a renúncia dela é uma fuga a um sistema estabelecido. Mas não me sinto segura a dizer que é um acto político consciente. Porque as pessoas com quem falei não o sentem enquanto tal. Na minha geração, a religião estava fortemente ligada à política, por toda a ligação da Igreja Católica ao franquismo, etc. Era impossível para nós separar o catolicismo da ditadura em Espanha, como em Portugal. Assim como alterar o lugar que a ditadura destinava tradicionalmente às mulheres. Eu já nasci numa Espanha democrática, mas herdei completamente este legado. Dei-me conta ao fazer o filme que o assunto divergiu bastante para as novas gerações. Criou-se uma estranha distância histórica, talvez por falta de informação, que separou a religião do seu passado político. A religião pode agora ser olhada com outra tolerância, numa associação que já não liga automaticamente a espiritualidade e a ideologia. Contudo, não se tiram daqui conclusões. E a realidade é que, de dia para dia, as igrejas e as comunhões estão mais vazias.
Falemos dos seus intérpretes, das suas actrizes, sobretudo, porque os maiores segredos passam-se entre elas: Blanca Soroa [Ainara], Patricia López Arnaiz [Maite], também Nagore Aranbaru [a madre superiora], que tem um papel saliente na segunda metade do filme e com quem já trabalhou em Querer. Como é que geriu estes encontros?
Concordo que o papel de Nagore tem uma importância enorme perante Ainara e Maite, que para mim dividem por igual o protagonismo. Trabalhar com a Patricia era um desejo antigo. É uma actriz cheia de força, de paixão e de verdade, tinha a certeza de que ela compreenderia as matizes e as variações da personagem. Blanca é uma novidade, uma actriz debutante. Foi escolhida após um longo processo de casting. Nunca tinha feito cinema. Impressionou-me pela sua extrema sensibilidade, pelo seu fino trato.

E as canções do filme? No coro da escola, os alunos cantam Into My Arms, de Nick Cave.
Esta foi a primeira vez que me atrevi a usar canções como essa, não para sublinhar sentimentos, ou acrescentar camadas ao que está a ser dito, mas pela necessidade de dar sentido a qualquer coisa mais abrangente e que nos ultrapassa, uma vez que o filme toca nas cordas da espiritualidade.
Porque é que chamou a este filme Os Domingos?
Por tudo o que esses dias representam para a Igreja Católica. Pelas memórias que tenho dos almoços e jantares familiares em que tantas pessoas da minha família se reuniam aos domingos só por esse compromisso, quase como se fosse uma obrigação. A família do filme também mantém esses rituais das refeições de domingo que eu conheço tão bem e que têm muito que ver com Bilbau e a nossa cultura no País Basco. Mas não sei a que ponto acreditam eles ainda nessa harmonia. Para Maite, por exemplo, a fé é uma espécie de loucura, uma coisa mágica, de ficção. Para Ainara, é uma experiência intensa, tão real como o facto do domingo ser o Dia do Senhor para os católicos. O filme está muito construído a partir destas dualidades, destes jogos de espelhos entre o amor terreno e o amor divino.
Disse não ser crente em Deus. No que é que acredita?
Acredito no meu filho e na minha família. Acredito nos filmes, em contar histórias e nos meus espectadores, ou melhor, no espaço que cada espectador pode descobrir para tirar as suas próprias conclusões, colocando o paternalismo e a superioridade moral em segundo plano. Fugi sempre do maniqueísmo e, na verdade, a grande pergunta que este filme coloca é esta: a que ponto é que a superioridade moral que julgamos ter nos impede de entender as outras pessoas? Acho que é um assunto do nosso tempo, pelas redes sociais que, agora, ocupam os nossos dias, por toda esta nova forma que encontrámos para comunicar. Defendo que o cinema é um espaço de encontro e de reflexão contra a imediatez das redes e os cliques constantes que nos anestesiam. A minha resposta é esta: acredito no cinema.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.