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(A) :: Perdoar é mesmo esquecer

Perdoar é mesmo esquecer

Se alguma coisa de decisivo a cultura judaico-cristã trouxe foi precisamente esta audácia: a de admitir que o ser humano falha, trai, fere, quebra e tudo o mais que se possa pensar de pior.

José Crespo de Carvalho
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Há temas que exigem algum pensamento verdadeiro. Mesmo verdadeiro. Sexta-Feira Santa é um dia propício para esse pensamento. Confronta-nos com sofrimento, injustiça e, bem assim, a possibilidade, quase escandalosa, do perdão.

Pensa nisto. Óbvio, se estiveres para aí virado: perdoar a sério não é um arranjo diplomático e de conveniência do coração. Não é um acordo superficial. Não é dizer que se perdoa enquanto se guarda, intacto, o inventário da ofensa. Isso é outra coisa: contenção, prudência, cálculo, civilidade quiçá. Perdão verdadeiro é mais difícil. E mais raro. Implica mesmo esquecer.

É necessário lavar o coração, sim. Purificar a memória. Porque quem continua a revisitar a ferida, quem a conserva viva, quem a convoca à primeira ocasião, não perdoou. Apenas tornou o ressentimento mais sofisticado. E isso não é para pessoas que se dizem de pessoas (por mais banal e estereotipada que esta frase soe; a mim, por exemplo, soa-me a jargão de moda que nada diz; nem tão pouco caracteriza quem se acha, ao desperdiçar a frase a cada esquina, uma pessoa de pessoas).

Esquecer, aqui, não é apagar os factos, como se nada tivesse acontecido. Isto também é verdade. No entanto, passa por retirar-lhes todo e qualquer veneno. É impedir que qualquer ponta de ressentimento mande em nós. Conseguindo a libertação do peso de carregar por dentro tudo o que foi mal recebido. O perdão só começa verdadeiramente quando a recordação deixa de arder. De ferir. De magoar. De assaltar permanentemente a memória.

Perdoar é, antes de tudo, um bem para quem perdoa. Quem perdoa torna-se mais leve. Mais livre. Maior. Não por ser superior a alguém, mas, antes, porque se eleva acima dos pequenos condimentos da amargura. A vingança, maior ou menor, é instintiva. Guardar rancor é fácil. Ser detrator de outrem, por alguma coisa que achamos que nos foi feita, é facílimo. Difícil, mesmo, é depurar o coração.

Se alguma coisa de decisivo a cultura judaico-cristã trouxe foi precisamente esta audácia: a de admitir que o ser humano falha, trai, fere, quebra e tudo o mais que se possa pensar de pior. Porém, esse mesmo ser humano não tem de ficar eternamente prisioneiro dessa falha. Nem quem errou, nem quem foi ferido. O perdão abre caminho à reparação de relações e à reconstrução interior de quem se recusa a viver acorrentado ao passado.

Também por isso, formar executivos não é apenas ensinar estratégia, finanças, operações ou tecnologia. É também formar pessoas inteiras. Pessoas capazes de pedir desculpa, de reconhecer o erro, de reparar e, mais raramente ainda, de perdoar a sério. Com limpeza interior, para que haja grandeza.

Vivemos cheios de memórias tóxicas. Mas perdoar é lavar o coração. E só quem lava o coração fica verdadeiramente livre. Sim, clama-se por liberdade, mas a verdadeira liberdade vem de nos libertarmos de muitas amarras para com os outros. Amarras que nos prendem e não nos elevam. E perdoarmo-nos, igualmente, a nós mesmos.

Hoje é Sexta-Feira Santa. Para muitos não diz nada. Para muitos outros diz alguma coisa. Mas mesmo não sendo crente em nada, acredito, pelo menos, que se crê na vida e numa melhor vida. E se há coisa, hoje, que se deve fazer é algo tão simples como isto: se conseguires pegar no telefone (ou mandar uma simples mensagem) e ligar a alguém a pedir desculpa ou a perdoar, mesmo que aches que não tens a culpa toda ou até boa parte da culpa não é tua, verás um pouco de como fazer para lavar o coração. Fá-lo. E começa a lavá-lo. Essa lavagem só te poderá tornar melhor pessoa.

Não é isto que se diz nas empresas? Queremos melhores pessoas e queremos contratar boas pessoas (por mais inadequada que esta mensagem possa estar, e está, porque não se descobrem assim as boas pessoas para contratar)? Tudo começa por nós. Aproveite-se, pois, para ir mais fundo e perceber exatamente um dos fundamentos, pilares essenciais a todos quantos querem ser melhores pessoas: perdoar, pedir desculpa, perdoarmo-nos.

Boa Sexta-Feira Santa. Vou-te ligar. Vou-te mandar uma mensagem. Começa hoje o meu processo de lavagem do coração.