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O Transgenerismo como projecto político: do manifesto à lei

A fúria da esquerda perante a salvaguarda do sexo biológico prova que o corpo das crianças tornou-se o novo campo de batalha de um projecto político que recusa a natureza em nome da ideologia.

Maria Helena Costa
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O transgenerismo, entendido não como mera expressão individual de disforia de género, mas como movimento político organizado, emergiu nas últimas décadas como uma das bandeiras centrais da esquerda contemporânea. Longe de se limitar a uma questão de direitos civis ou de saúde mental, propõe a desconstrução radical da categoria “sexo” como realidade biológica imutável, substituindo-a pela noção fluida e performativa de “género” e “identidade de género”. Esta perspectiva crítica de género — enraizada no feminismo radical e materialista — questiona esta agenda não por preconceito, mas por constatar que ela erode os direitos baseados no sexo, particularmente os das mulheres, ao mesmo tempo que serve de instrumento ideológico à esquerda pós-moderna.

Paul B. Preciado (anteriormente Beatriz Preciado), uma das principais teóricas queer, afirma explicitamente esta dimensão política, enquadrando o transgenerismo e o queer como estratégias de resistência ao “Império Sexual” e ao capitalismo fármacopornográfico. O seu trabalho permite estabelecer a ligação directa pretendida: o transgenerismo não é um fenómeno apolítico ou meramente identitário; é um projecto de esquerda que retira ao sexo o seu carácter de verdade natural, em nome de uma ‘multidão queer’.

Preciado, em obras como Manifesto Contrassexual (2000) e Testo Junkie: Sexo, Drogas e Biopolítica na Era Farmacopornográfica (2008/2013), posiciona-se como uma das principais arquitectas desta visão. No Manifesto Contrassexual, propõe uma “contrassexualidade” que subverte as identidades sexuais binárias, tratando o corpo como um artefacto tecnológico passível de reconfiguração. O dildo, a hormona e a prótese tornam-se ferramentas políticas de desterritorialização da heteronormatividade. Mais do que isso, Preciado argumenta que os movimentos queer na Europa se inspiram nas culturas anarquistas e nas emergentes culturas transgénero para combater o “Império Sexual”, propondo uma “desontologização das políticas de identidades”. Ou seja, o queer e o trans não são meras identidades a serem assimiladas; são multidões que desestabilizam o poder através da recusa do “normal” — homem/mulher, homo/hétero, natural/artificial.

Em Testo Junkie, Preciado radicaliza esta análise ao descrever a era contemporânea como “farmacopornográfica”: um regime em que as indústrias farmacêutica e pornográfica produzem subjectividades sexuais molecularmente (através de hormonas como a testosterona) e semioticamente (através da pornografia ubíqua). A transição de género, para ela, não é apenas terapêutica; é um acto político de “biodrag” e de resistência. Ela própria narra a sua auto-experimentação com Testogel como uma “ficção somato-política”, uma forma de “comunismo tecnossomático” que redistribui os biocódigos de género, sexo e raça contra o capital. Preciado afirma que a multidão queer — composta por “sapatonas que não são mulheres, bichas que não são homens, trans que não são homens nem mulheres” — representa uma política dos “anormais” (inspirada em Foucault), capaz de desterritorializar o corpo e o espaço urbano. Esta é, inequivocamente, uma política de esquerda: anticapitalista, pós-estruturalista, influenciada por Deleuze, Derrida, Butler e pelo feminismo radical (Wittig, Haraway), mas reorientada para uma esquerda que prioriza a fluidez identitária sobre a luta de classes material ou os direitos baseados no sexo.

Da perspectiva crítica de género, esta ligação entre transgenerismo e esquerda queer não é acidental; é estruturante. O movimento transgénero, tal como teorizado por Preciado, alinha-se com o giro pós-moderno da esquerda a partir dos anos 90: após o colapso do socialismo real e o esgotamento do marxismo económico tradicional, a esquerda encontrou na “política de identidades” e na desconstrução do binário sexual um novo terreno de contestação. Judith Butler, precursora directa de Preciado, já havia tornado o género performativo (Gender Trouble, 1990); Preciado leva esse conceito ao nível molecular, integrando-o no capitalismo tardio. O resultado é um movimento que se apresenta como progressista e libertário, mas que, na prática, impõe uma nova ortodoxia: a negação da realidade do sexo biológico (cromossomas, gâmetas, dimorfismo sexual) em favor de uma ideologia subjectivista (“o género é o que sinto”). Esta ideologia serve a esquerda ao fragmentar a classe trabalhadora em microidentidades, desviando a atenção das desigualdades materiais para as “microagressões” e para a medicalização em massa (bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas, cirurgias).

Criticamente, o transgenerismo como projecto de esquerda revela contradições profundas. Preciado celebra o “colapso” do regime heteronormativo e patriarcal como uma revolução epistemológica, mas ignora — ou instrumentaliza — o facto de que esta “revolução” é financiada e promovida por grandes corporações farmacêuticas e tecnológicas, precisamente o capitalismo que critica. O “comunismo tecnossomático” de Preciado soa libertário, mas, na prática, legitima a patologização de crianças e jovens (o fenómeno “Disforia de Género de Início Rápido” e o aumento exponencial de transidentificações entre adolescentes, sobretudo raparigas), a invasão de espaços exclusivos para mulheres (prisões, desportos, abrigos para vítimas de violência doméstica) e a censura de qualquer dissidência feminista materialista. O feminismo crítico de género, ao contrário do queer de Preciado, defende que o sexo é uma categoria material e imutável, fonte primária de opressão das mulheres. Substituir “mulher” por “pessoa que menstrua” ou “portadora de útero” não é inclusão; é o apagamento linguístico e político das mulheres como classe sexuada.

Além disso, a ligação queer-trans de Preciado revela o carácter totalitário latente desta esquerda identitária. Ao declarar que “as lésbicas não são mulheres” (Wittig, retomada por Preciado) ou que o corpo é um “ciborgue” reconfigurável, o movimento transforma a dissidência em “violência” ou “transfobia”. Activistas queer, inspirados nestas teorias, pressionam por leis de “auto-identificação” de género que eliminam salvaguardas baseadas no sexo, como se vê em vários países ocidentais. Do ponto de vista crítico de género, isto não liberta; reintroduz, sob roupagem progressista, uma forma de gnosticismo moderno: o corpo biológico é ilusão, o “eu interior” (a identidade de género) é a verdade espiritual. Preciado, ao afirmar que o queer é uma “política dos anormais” contra a normalização, converte o transgenerismo num instrumento de engenharia social de esquerda — uma nova forma de biopolítica que, paradoxalmente, depende do Estado e do mercado farmacêutico para se realizar.

Em suma, Paul B. Preciado não o esconde: o transgenerismo e a teoria queer são projectos políticos de esquerda, radicais e antinormativos, que visam o desmantelamento do binário sexual como pilar da ordem social. A perspectiva crítica de género reconhece esta afirmação como correcta, mas inverte o juízo de valor. Longe de ser uma libertação emancipatória, o transgenerismo funciona como um cavalo de Troia ideológico: erode os direitos das mulheres baseados no sexo, medicaliza a disforia (sobretudo juvenil) e fragmenta a esquerda em torno de identidades voláteis, desviando-a de lutas materiais concretas. Preciado oferece a teoria; a realidade material — o aumento de detransitioners, os conflitos no desporto feminino, a erosão da categoria “mulher” — oferece a crítica. Reconhecer o transgenerismo como movimento político de esquerda não é uma conspiração; é uma análise lúcida. E é precisamente por isso que o feminismo crítico de género continua a resistir: não contra pessoas trans, mas contra a ideologia que as instrumentaliza para reescrever a realidade biológica e os direitos sexuados.

Esta análise teórica encontra um eco imediato na actualidade política portuguesa. A recente aprovação na generalidade (Março de 2026) dos projectos de lei do Chega, PSD e CDS-PP — que visam impedir a medicalização de crianças e jovens através de bloqueadores de puberdade e travar a autodeterminação de género sem aval médico — provocou uma reacção furiosa e ruidosa dos partidos de esquerda. Para a esquerda pós-moderna, estas propostas não são vistas como uma cautela biológica ou protecção da infância, mas como um ataque directo ao projecto de ‘desontologização’ defendido por teóricos como Preciado. Ao rotularem estas iniciativas como ‘retrocessos’ ou ‘discursos de ódio’, os movimentos queer e os seus representantes políticos confirmam a tese central: a transição de menores é, para este sector, um pilar inegociável de uma agenda que prioriza a fluidez identitária sobre a realidade material do corpo. A fúria da esquerda parlamentar perante a salvaguarda do sexo biológico prova que, no Portugal de hoje, o corpo das crianças tornou-se o novo campo de batalha de um projecto político que recusa a natureza em nome da ideologia.