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Com a ajuda de Trump, Netanyahu tenta alcançar algo que deseja há 40 anos: a queda do regime iraniano

Trump não foi arrastado para uma guerra israelita, mas Netanyahu tem mais a ganhar. Objetivos israelitas são mais agressivos que os de Washington, mas podem ficar por cumprir se Trump assim o decidir.

Madalena Moreira
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“Dentro de três a cinco anos, o Irão terá autonomia para desenvolver e produzir uma bomba nuclear”. O aviso pertence a Benjamin Netanyahu, mas não foi feito já enquanto primeiro-ministro israelita que lançou, em menos de um ano, duas ofensivas militares contra o Irão. Esta frase foi dita muito antes, quando Netanyahu era apenas um deputado no Parlamento israelita, o Knesset, em 1992. Mais de três décadas depois, o líder israelita não esconde que a sua longa carreira política tem sido marcada por “algo que deseja fazer há 40 anos”: “Cortar o regime terrorista pela raiz”.

Em 2026, em plena guerra no Médio Oriente, Netanyahu parece estar mais perto do que nunca de alcançar este desejo e reconhece no “amigo Donald Trump” um fator decisivo para esse “sucesso”. As semelhanças entre os dois líderes — “dois charlatães adeptos da arte do engano”, caracteriza Aaron David Miller, analista e antigo conselheiro do Departamento de Estado dos EUA, ao Observador — e os objetivos internos traçados pelo administração norte-americana permitiram ao líder israelita encontrar na Casa Branca de Trump o apoio a uma ofensiva contra o Irão que não conseguiu alcançar junto de nenhuma outra administração dos Estados Unidos.

Contudo, à medida que a guerra se desenrola, a proximidade entre os dois líderes enfrenta alguns desafios. Na terceira semana de guerra, Trump criticou a “reação violenta” de Israel num ataque a um campo petrolífero iraniano; na semana passada, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, incumbido pelo Presidente de liderar as negociações, terá contestado os objetivos traçados em Telavive numa de muitas chamadas telefónicas que os dois têm mantido. Publicamente, a diretora dos serviços de informação, Tulsi Gabbard, admitiu, na passada quinta-feira, que “os objetivos que foram traçados pelo Presidente [Trump] são diferentes dos objetivos traçados pelo Governo israelita”.

A dissonância traduz-se ainda nos prazos para o fim da guerra. Enquanto os responsáveis norte-americanos avançam para a diplomacia e declaram que a guerra pode terminar nas próximas semanas, o primeiro-ministro israelita recusa colocar prazos. Mas, na prática, nenhuma destas diferenças parece pesar no coordenação militar e na manutenção na ofensiva. Questionado, ainda antes das declarações de Gabbard, sobre se Israel estaria disponível para pôr fim à guerra, Trump respondeu de forma afirmativa. “Queremos mais ou menos a mesma coisa. Queremos a vitória“, declarou.

A “vitória” desejada pelos dois líderes é uma realidade multifacetada, que os analistas ouvidos pelo Observador argumentam estar mais ao alcance de Netanyahu do que de Trump. Ao contrário do Presidente norte-americano, o líder israelita conta com o apoio interno, quer da oposição, quer do povo israelita. O facto de estar a cumprir um desejo com muitas décadas é, em si mesmo, uma vitória, mas o primeiro-ministro procura juntar a esta gesto simbólico uma vitória política e militar mais concreta.

Com eleições à porta, Netanyahu pode ganhar com a guerra — mas pode não sair vencedor

Na semana passada, o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza, controlado pelo Hamas, contabilizou 15 mortos em ataques israelitas no enclave palestiniano. O número é significativamente menor do que durante o mesmo período do ano passado, mas revela que, apesar do cessar-fogo assinado há quase seis meses, os ataques israelitas em Gaza continuam. Porém, nas últimas semanas, a violência na Faixa de Gaza passou para segundo plano, face ao conflito mais alargado no Médio Oriente.

https://observador.pt/especiais/a-lucrar-com-o-petroleo-e-a-ucrania-esquecida-pode-putin-ser-o-grande-vencedor-da-guerra-no-irao/

Aaron David Miller, analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace, considera que esta capacidade de “mudar o rumo da conversa de Gaza e dos palestinianos para um tema em que a maior parte dos israelitas concorda” é uma vitória para Benjamin Netanyahu. Ao Observador, o antigo conselheiro norte-americano identifica outros três fatores que permitem dizer que a guerra traz várias vitórias para Netanyahu — algo diferente de dizer que Netanyahu é o vencedor da guerra, ressalva, título que atribui apenas a Vladimir Putin.

"[A guerra no Irão] dá [a Benjamin Netanyahu] argumentos, uma nova lógica e uma nova missão, mesmo que o regime não mude."
Aaron David Miller, analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace e antigo conselheiro do Departamento de Estado

A segunda vitória também está relacionada com a Faixa de Gaza, mais precisamente com o 7 de Outubro. O relatório do Exército israelita sobre o ataque do Hamas em 2023, publicado há pouco mais de um ano, aponta a ação das autoridades israelitas nas vésperas e no dia do ataque como a maior falha dos serviços de segurança e de informações na História do país. Uma ação militar decisiva contra o Irão serve para “demonstrar a competência” das autoridades israelitas e de toda a cúpula política e militar, fazendo um contraponto com a sua ação nesse dia.

Outra vitória para Benjamin Netanyahu é a sua aproximação a Donald Trump, essencial para a defesa do país, mas também para a posição política interna do primeiro-ministro israelita — algo que será fulcral quando o país for a eleições legislativas, em outubro deste ano. As eleições são apontadas de forma unânime pelos analistas como a vitória mais visível de Telavive. Será a primeira vez desde outubro de 2023 que os israelitas votam numas eleições nacionais e Netanyahu tem a oportunidade de capitalizar a popularidade da ofensiva contra o Irão nas urnas — um cenário totalmente diferente da queda de popularidade a que foi assistindo ao longo dos dois anos de ofensiva na Faixa de Gaza.

“[A guerra no Irão] dá-lhe argumentos, uma nova lógica e uma nova missão, mesmo que o regime não mude”, argumenta Aaron David Miller. A questão eleitoral é de tal forma relevante que o Executivo estará a ponderar convocar eleições antecipadas para o final de junho deste ano, segundo avançaram fontes próximas do Governo à imprensa israelita. As sondagens mais recentes colocam o Likud à frente das intenções de voto. Ainda que esteja aquém de uma maioria do Knesset, os especialistas em política israelita destacam que as eleições só costumam ser decididas nas seis semanas de campanha e que, uma vez que a guerra não tem fim à vista, é impossível prever como a guerra poderá afetar realmente as eleições.

Estão os EUA a lutar numa guerra israelita? “Bibi queria uma guerra, Trump estava ansioso por fazer algo excecional”

Joe Kent, diretor do centro nacional de contraterrorismo dos EUA, apresentou a demissão no passado dia 17 de março. Na carta de demissão, Kent denunciou a pressão de “responsáveis israelitas e membros influentes dos media americanos” de “Israel e do seu poderoso lóbi americano” que encorajaram Trump a entrar numa “guerra fabricada por Israel”. As acusações de que Netanyahu convenceu Trump a entrar na guerra repetem-se entre os aliados do Presidente norte-americano críticos da guerra.

Uma e outra vez, Netanyahu recusou as acusações, que classificou como “boatos”. “Isso é ridículo. Trump é o líder mais forte do mundo. Ele faz o que acha certo para a América”, argumentou, numa entrevista à Fox News logo no terceiro dia de guerra. Os analistas ouvidos pelo Observador também discordam que Trump tenha sido “manipulado” ou “arrastado” por Telavive.

“Ainda que seja verdade que não há uma ameaça iminente para os Estados Unidos e que os iranianos são uma ameaça mais imediata e direta para Israel, prevenir um Irão com armas nucleares e remover o seu poder destrutivo da região também é do interesse dos EUA”, pondera Guy Ziv, diretor do Centro Meltzer Schwartzberg para Estudos Israelitas, em Washington. “A decisão de os EUA entrarem na guerra foi uma decisão única e exclusiva de Trump”, acrescenta.

Os especialistas atribuem o facto de Netanyahu ter alcançado os seus “sonhos” de atacar o Irão junto de Donald Trump aos objetivos definidos pelo Presidente norte-americano internamente, por muito vagos e mutáveis que estes sejam, e ao facto de ambos pensarem da mesma maneira. “Isto tem mais a ver com as idiossincrasias de Donald Trump do que com as capacidades [de persuasão] de Netanyahu”, atira Aaron David Miller. Já Ehud Olmert, antigo primeiro-ministro israelita, destaca a ofensiva combinada uma situação vantajosa para ambas as partes. “Bibi queria uma guerra e Trump estava ansioso para fazer algo excecional”, sintetizou ao Politico.

Além disso, o argumento de que Trump está a ser forçado a agir por Netanyahu também é desconstruido pelos analistas com o entendimento que o fim da guerra será ditado por Washington, mesmo que Israel considere que tem objetivos por cumprir. “Quando Trump disser que a guerra acabou, a guerra acabou. Netanyahu não se pode dar ao luxo de fazer outra coisa que não aceitar”, afirma Aaron David Miller, de forma conclusiva.

Objetivos dos EUA podem impedir Israel de alcançar os seus próprios objetivos

O objetivo israelita para a atual ofensiva no Irão ficou bem claro quando Netanyahu se propôs a “cortar o regime terrorista pela raiz”. Mas a mudança de regime não faz parte da lista de quatro objetivos que a Casa Branca e o Pentágono traçaram para a guerra e que passam pela destruição das capacidades militares, do programa nuclear, da Marinha iraniana e da sua capacidade de financiar e armar grupos-satélite.

“Israel está à procura de uma campanha destrutiva de mudança de regime, que não é o nosso objetivo. Bibi quer arruinar a economia do Irão e dizimar a sua infraestrutura energética. Trump quer mantê-la intacta”, elaborou um responsável da administração norte-americana ao Washington Post.

Terá sido a insistência de Telavive em destruir a liderança iraniana que motivou as já mencionadas críticas de JD Vance. Num dos telefonemas, o vice-presidente dos EUA terá dito ao chefe do Executivo israelita que o seu plano para o povo iraniano sair à rua e derrubar o regime era demasiado otimista. “Antes da guerra, Bibi vendeu isso ao Presidente como sendo fácil, como uma mudança de regime sendo muito mais provável do que é. E o VP foi muito lúcido sobre essas declarações”, declarou uma fonte norte-americana com conhecimento das conversas ao Axios.

Esta diferença de objetivos é facilmente explicável pelos analistas com as diferenças entre os dois Estados. Os Estados Unidos são uma potência mundial, para a qual o Irão não representa uma ameaça militar direta, mas com interesses económicos na região e uma firme oposição interna a guerras prolongadas. Já Israel está no raio de alcance direto do Irão, mas tem mais independência energética, devido às suas reservas de gás natural, e uma base de apoio interna. Neste cenário, Israel tem mais a ganhar e os Estados Unidos mais a perder com a manutenção da guerra.

"Se Trump acabar a guerra em breve — de forma prematura na visão de Netanyahu — isto será um contratempo para Netanyahu. (...) Netanyahu vai sair [da guerra] com os seus objetivos por alcançar. Netanyahu pode não ter o tempo que precisa para remodelar a região — se é que isso é sequer possível."
Guy Ziv, diretor do Centro Meltzer Schwartzberg para Estudos Israelitas, em Washington

“[Israel] não é tão sensível com a Casa Branca. Eles estão mais dispostos a enfrentar a tempestade e acabar o trabalho“, argumentou Suzanne Maloney, especialista no Irão na Brookings Institution, ao New York Times. Se as semelhanças entre Netanyahu e Trump permitiram o início da guerra, as diferenças entre Israel e os Estados Unidos colocam um ponto de interrogação sobre o seu fim — e sobre o que acontece depois.

Contudo, se, como os analistas argumentam, o fim da guerra depender exclusivamente de Trump, Netanyahu pode não conseguir capitalizar todas as vitórias que o conflito lhe está a trazer. “Se Trump acabar a guerra em breve — de forma prematura na visão de Netanyahu — isto será um contratempo para Netanyahu. (…) Netanyahu vai sair [da guerra] com os seus objetivos por alcançar”, pondera Guy Ziv ao Observador. “Netanyahu pode não ter o tempo que precisa para remodelar a região — se é que isso é sequer possível”, remata.

A ideia de Grande Israel e o apoio da maioria à guerra. “Domínio” substituiu “diplomacia” na estratégia israelita

Na história do Estado de Israel, tem-se imposto na sua política externa uma preferência pela manutenção do statu quo, conhecida como “cortar a relva”, que é aplicada principalmente em relação aos grupos de resistência armada que atacam o país, como o Hamas ou o Hezbollah. Contudo, os especialistas veem nos atuais objetivos para o Irão uma política diferente, mais agressiva — e que não pode ser atribuída exclusivamente às aspirações políticas de Netanyahu, já que o próprio defendeu esta estratégia durante as quatro décadas que passou na vida política israelita.

A nova posição passa pela imposição de Israel como uma potência regional e chega, em alguns extremos nos quais se incluem membros do Executivo de Netanyahu, à defesa de ideias como a construção da Grande Israel, um projeto expansionista que defende o conceito bíblico de um Estado judeu entre os rios Nilo e Eufrates — o que inclui o controlo israelita de territórios da Palestina, Egipto, Jordânia, Líbano, Síria, Iraque, Arábia Saudita e Kuwait. Mesmo colocando de lado estas ideias mais radicais, a atual ofensiva e a possibilidade de derrubar o regime iraniano reúnem, ainda assim, o apoio da maioria da população.

"Dissuasão e diplomacia foram eclipsadas por algo mais duro: a preferência pelo domínio, a degradação, a prevenção da recuperação dos inimigos. Essa mudança está a conduzir um largo conjunto de ações militares que estão a remodelar a região."
Nathan J. Brown, analista do think tank Carnegie Endowment for International Peace, num artigo de análise

Apesar de o número ter vindo a descer, uma sondagem realizada pelo Israel Democracy Institute entre os dias 22 e 26 de março mostra que 78% dos judeus israelitas apoiam a ofensiva contra o Irão — o número cai para os 19% entre os árabes israelitas. Uma outra sondagem, do mesmo centro, revela que mais de metade da população acredita que a guerra pode terminar com a queda do regime dos aiatolas — no entanto, como notaram os especialistas, este apoio à guerra não se traduziu num maior apoio ao Likud de Netanyahu. Mas os partidos da oposição também apoiam a ação militar. Yair Lapid, líder da oposição à esquerda de Netanyahu e crítico do primeiro-ministro, elogiou a ação israelo-americana e apelou à unidade na “guerra contra o mal”, pondo de lado a corrida eleitoral no horizonte.

Alguns especialistas atribuem esta mudança da sociedade israelita ao “trauma do 7 de Outubro”. “Dissuasão e diplomacia foram eclipsadas por algo mais duro: a preferência pelo domínio, a degradação, a prevenção da recuperação dos inimigos. Essa mudança está a conduzir um largo conjunto de ações militares que estão a remodelar a região”, escreve Nathan J. Brown, analista do think tank Carnegie Endowment for International Peace, num artigo de análise publicado em meados de março.

Mas a aplicação desta estratégia também é alvo de críticas, pois a ação militar mais agressiva não se traduziu em “vitórias diplomáticas”, como classifica Guy Ziv. “Isto é um primeiro-ministro que se recusa a combinar ação militar com planeamento estratégico”, acusou um antigo responsável de segurança à CNN, que elenca a ação de Netanyahu em Gaza, no Líbano e na Guerra dos 12 Dias. “Oito meses depois, estamos de volta ao mesmo ciclo — é claro que é só um penso rápido”, acrescenta.

Uma posição ainda mais cética é a de Aaron David Miller, que questiona não só a capacidade de Netanyahu conseguir reformular a região, mas a sua crença nessa mesma possibilidade. “Netanyahu alguma vez acreditou nisso? Eu não acredito em transformações”, simplifica. “O Médio Oriente não é região para ser transformada, é uma região onde as ideias americanas e israelitas sobre guerra e paz vão morrer“, remata.