“Temos razões para apresentar Portugal como um país seguro”. Depois de se inteirar dos dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) sobre 2025, Luís Montenegro deixou uma mensagem de esperança, com reservas — “há sinais de preocupação em algumas tendências”. O primeiro-ministro não abriu o jogo, mas o documento revelado pouco depois detalhou essas “tendências”: a criminalidade geral aumentou (+3,1%), apesar da descida da delinquência juvenil e da criminalidade grupal. Se a criminalidade violenta também desceu (-1,6%), um olhar atento aos dados nota o “valor mais elevado da última década” nas violações, num ano em que o crime informático ganhou ainda mais espaço.
Foram 578 casos de violação participados em Portugal em 2025, mais 35 do que no ano anterior, numa tendência de crescimento que se verifica em outros crimes de índole sexual — como extorsões sexuais (+6,8%) — mas que ganha principal destaque quando se olha para os casos em que as vítimas são menores de idade. “No contexto dos crimes contra a liberdade e a autodeterminação sexual, aqueles que registaram maior número de inquéritos iniciados e de detenções”, no mesmo período, foram os crimes de abuso sexual de crianças e de pornografia de menores.
Neste último crime, como em outros de natureza sexual, nota-se uma preponderância da relação de conhecimento (38,9%) ou de familiar (12,9%) entre o autor e a vítima, que é maioritariamente do sexo feminino (90,3%) e da faixa etária entre os 21 e os 40 anos. Esta tendência acentua-se com a utilização da internet e das redes sociais, que ao mesmo tempo que criam um novo espaço de convivência, abre caminho para a exploração de novas formas de criminalidade — onde os jovens, mais presentes no mundo digital, aumentam em número tanto de vítimas, como de agressores.
Por outro lado, e contrariando uma clara tendência de acentuado crescimento, registou-se a primeira quebra tanto na criminalidade grupal (-1,2%) como na delinquência juvenil (-1,3%) desde os tempos da pandemia. Esta criminalidade violenta — com maior expressão na Área Metropolitana de Lisboa e no distrito de Lisboa — é alicerçada nas dinâmicas de rivalidade entre grupos de diferentes zonas ou bairros, que agora se transpõe para a esfera digital. “A presença digital destes grupos verifica-se sobretudo em plataformas de difusão de conteúdos audiovisuais, como YouTube, TikTok e Snapchat, utilizadas maioritariamente para a afirmação identitária, exposição simbólica do grupo e provocação de rivais”. Muitas vezes, estes jovens usam a música para se expressarem e ‘atacarem’ os rivais com referências territoriais.
“No âmbito da criminalidade juvenil grave e violenta de cariz grupal existe um decréscimo das ocorrências investigadas, sugerindo um efeito positivo do reforço das medidas de prevenção e investigação por parte das forças e serviços de segurança”.
Há mais menores coagidos a produzir conteúdo pornográfico
Abuso sexual de crianças (35%), violação (21,4%) e pornografia de menores (17,3%). São estes os crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual que dão origem a mais inquéritos. Quanto às detenções, é o crime de abuso sexual de crianças que mais as determina. O RASI não indica a evolução do abuso sexual nem da pornografia de menores relativamente ao ano de 2024.
O RASI revela que, quanto ao crime de abuso sexual de menores, a relação entre o agressor e a vítima é, quase na metade dos crimes, de parentesco (49,5%), um aumento de 10,4% quanto ao ano passado, a que se segue a de conhecimento (20,5% dos casos). Em 2025, um dos casos mais mediáticos verificou-se quase no fim do ano e envolveu um antigo adjunto do Ministério da Justiça, que é suspeito de mais de 500 crimes de pornografia de menores e dois de abuso de menores. A Polícia Judiciária ia investigar um espaço religioso onde este poderá ter contactado com crianças.
https://observador.pt/2026/01/13/ex-adjunto-da-justica-indiciado-por-abuso-sexual-de-criancas-tem-novo-advogado-duas-renuncias-depois/
Ao analisar o crime de pornografia de menores, o documento alerta para “um aumento da expressão” do mesmo, “relacionada com a expansão das plataformas digitais e com as dinâmicas de partilha de conteúdos ilícitos”. Há conteúdos ilegais alojados em plataformas encriptadas e recorre-se à darknet para disseminar esses materiais. “No ano de 2025, observa-se uma elevada prevalência da distribuição de pornografia em canais e plataformas de comunicação e em serviços de armazenamento, tais como Instagram, WhatsApp, Telegram, Signal, YouTube, Facebook, Google Drive e Mega”, lê-se no documento. “Regista-se, igualmente, um aumento significativo de vítimas menores coagidas à partilha de conteúdos autoproduzidos, no seguimento de processos de aliciamento (grooming) ocorridos em plataformas de jogos e/ou redes sociais.”
Menos detidos por tráfico de pessoas, mas aumento exponencial (251%) de crimes de imigração ilegal
Nos últimos tempos o Governo tem assumido o combate à imigração ilegal como uma bandeira. Tem anunciado medidas e tem defendido mais ações policiais para combater este fenómeno. Na primeira, e curta, reação à divulgação do RASI, Montenegro apontou de imediato para esta realidade.
“[Aumento dos crimes relacionados com imigração ilegal] Tem por base o alinhamento com a estratégia que nós delineámos em toda a área da imigração, que é termos um regime que privilegia a imigração regulada e humanista”, explicou o primeiro-ministro.
Com este contexto, foi sem surpresa que se viu um aumento exponencial de mais 251,3% face a 2024 (ano em que estes crimes até tinham reduzido, contrariando uma tendência que vinha desde a pandemia). Em 2025, foram registados 1.205 crimes de imigração ilegal — apesar da queda do número de inquéritos por tráfico de pessoas (-4%) e por entrada e permanência ilegal (-17%).
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O número de detidos relativamente a estes crimes só aumentou no “auxílio à imigração ilegal”, no qual se passou de oito para 26 — em sentido contrário, houve menos cinco detidos por tráfico de pessoas e mantiveram-se os cinco detidos por “entrada e permanência ilegal”. Por outro lado, o número de arguidos por estas três tipologias de crime de imigração ilegal aumentou.
“Vale a pena vir para Portugal pela via legal, não vale a pena vir para Portugal por vias ilegais. Vamos continuar a fazer um esforço para desmantelar redes de tráfico de seres humanos, como aconteceu durante o ano de 2025”, reforçou Montenegro.
Da análise dos registos válidos por distrito de presumível exploração de vítimas de tráfico de seres humanos, verifica-se que Faro (com 27 pessoas) é o principal destino, seguindo-se Beja (22) e Setúbal (19) — estas vítimas são exploradas para tráfico laboral, tráfico sexual, mendicidade, agricultura e pesca. Entre as nacionalidades dessas vítimas destacam-se os romenos, os bengalis, os timorenses, os senegaleses e os indonésios.

Extrema-direita “muito ativa” — com remigração como bandeira — e extrema-esquerda a aproveitar causa palestiniana para expressar anti-semitismo
O Governo não tolera “qualquer forma de extremismo violento”, garantiu Luís Neves, já a liderar o Ministério da Administração Interna, e perante o caso da detenção do suspeito de atirar um cocktail molotov na direção de pessoas que foram à Marcha pela Vida. O homem de 39 anos terá ligações a um grupo anarquista, detalhou a PSP.
https://observador.pt/especiais/recorrem-a-ataques-baratos-e-estao-em-crescimento-apesar-de-desorganizados-anarquistas-terao-tentado-atacar-marcha-pela-vida/
No ano passado, “a expressão dos grupos de extrema-esquerda e do movimento anarquista em Portugal” continuava “a não assumir relevância significativa em termos de criminalidade violenta/organizada, ainda que se tenham registado diversas ações de protesto/manifestação”, assinala o RASI. “Em 2025, o movimento antifascista manteve um dinamismo significativo, impulsionado pela reação ao crescente protagonismo mediático e político da extrema-direita”.
A extrema-esquerda portuguesa mantém-se particularmente ativa “no contexto da causa palestiniana” e, ao contrário do que se verificou em anos anteriores, “outras causas” dos setores radicais de esquerda — “como a justiça climática” — tiveram “muito pouca expressão.” É comum, nota o documento, haver “colaboração entre os movimentos de ação climática e os grupos de apoio à causa palestiniana”, com campanhas e ações conjuntas — no ano passado registou-se um “agravamento das ações ilícitas de caráter antissemita”.

“Destacou-se, contudo, o esforço do movimento autónomo e anarquista em dinamizar a causa antifascista, com os militantes preparados para o confronto físico com os seus adversários e as Forças de Segurança”, que levou à “violência” em “iniciativas promovidas” pelos próprios movimentos, ou “pela instrumentalização de protestos de terceiros”, como aconteceu na manifestação da Greve Geral em novembro.
Já do outro lado do espectro político, o documento aponta que mesmo que em Portugal não exista nenhuma organização ou grupo de extrema-direita considerada terrorista, em junho de 2025 foi desmantelado o Movimento Armilar Lusitano, “um grupo extremista de direita” fortemente indiciado pela prática de “infrações relacionadas com grupo e atividades terroristas”.
Porém, “continua a verificar-se que os tradicionais movimentos skinheads de supremacia branca e matriz neonazi, caracterizados pelas suas ações de rua e violência, não conseguem ser tão apelativos para os jovens quanto os novos movimentos nacionalistas de extrema-direita com forte presença online e líderes carismáticos que atuam como verdadeiros influencers”, alerta o RASI. Também se nota que “a popularidade dos movimentos identitários se traduz no aumento e normalização do discurso de ódio e da violência, online e offline, com o aproveitamento político de narrativas que defendem a remigração.” Em 2025, um menor foi condenado por um crime de terrorismo, mas não foi influenciado por grupos neonazis: recorreu a sites aceleracionistas.
Os grupos radicais procuraram “provocar e confrontar abertamente os seus alvos”, levando a uma proliferação do discurso de ódio — o crime de discriminação e incitamento ao ódio sofreu um aumento progressivo de 6,7% em 2025, revela o RASI. “Um discurso polarizador, extremado e populista só leva a um aumento deste tipo de crimes e o Governo está empenhado também em combater este tipo de discurso”, reagiu, esta terça-feira, a ministra da Justiça. Estão ainda a ser monitorizados grupos violentos que “gravitam em torno das artes marciais e de outras atividades associadas ao treino e preparação física”.
Crimes informáticos aumentam em número e em sofisticação. ‘Hackers’ apoiados por países como Rússia e Irão são ameaça
Os crimes informáticos aumentaram 13,4% em 2025 (mais 334 casos do que no ano anterior), comprovando uma tendência de crescimento que se regista pelo menos desde 2016.
Não só estes crimes são mais recorrentes como, no ano passado, foram “mais sofisticados e complexos”. “Os cibercriminosos (…) continuam a afirmar-se como os principais agentes de ameaça no ciberespaço nacional”. As ameaças mais comuns dizem respeito a ataques de ransomware, phishing, smishing, burlas online ou comprometimento de contas. “Os ciberataques incidem sobretudo sobre os setores da Educação e Investigação, da Saúde e da Administração Pública, causando prejuízos e evidenciando o impacto financeiro significativo destes incidentes”.
Há ainda uma ameaça constante às infraestruturas e setores críticos (energia, telecomunicações, saúde, educação e finanças) que têm sido alvo de “cibercriminalidade, ciberespionagem e ciberataques de larga escala” com origens identificadas em “atores estatais apoiados por países como a Rússia, Coreia do Norte, China e Irão. Além disso, os atacantes usam cada vez mais a Inteligência Artificial para não serem detetados.
Dentro da criminalidade informática, as tipologias de crime que mais aumentaram foram o “acesso indevido ou ilegítimo, interceção ilegítima”, com mais 8,4%; e a “falsidade informática”, com 29,1%. Houve um aumento significativo de mais 88,6% de detidos (83 pessoas).
Criptomoedas. Falta de literacia “tecnológica e financeira” de vítimas favorece criminosos
Em 2025, foram detidas 175 pessoas por suspeitas de crimes económico-financeiros, o que traduz um aumento de 154% quanto a 2024. 85% dos detidos são do sexo masculino, e o crime de branqueamento — que passa pela ocultação da origem ilegal de dinheiro ou bens conseguidos através de atividades criminosas — foi o que mais aumentou (42%).”Esta evolução estará relacionada com a crescente utilização de plataformas informáticas, criando oportunidades para este tipo de criminalidade, cujas vantagens obtidas são depois integradas em circuitos financeiros internacionais.” O segundo crime mais verificado, de corrupção ativa, aumentou 17%, seguido do abuso de poder (que baixou 1%).
Os meios informáticos são os mais usados para cometer estes crimes, “tanto por providenciarem oportunidades a organizações criminosas para a prática de fraudes de aquisição de criptomoeda, fraudes de investimento, entre outros, como por lhes conferirem segurança/anonimato, através da utilização da deep e/ou dark web, nomeadamente para compra e venda de moeda falsa e branqueamento”. Quanto às vítimas, são atingidas devido à sua “utilização não informada” destas plataformas para a “realização de aquisições e investimentos financeiros, que exigem um nível de literacia tecnológica e financeira significativo”.
O RASI alerta ainda para o risco de crimes económico-financeiros na área da Saúde devido à “insuficiência generalizada de recursos humanos, estruturas, equipamentos e material médico”.

Prisões sobrelotadas pela primeira vez em seis anos. Houve mais cinco suicídios
No ano passado, a população prisional aumentou em 776 reclusos, num movimento crescente também notado entre 2020 e 2022 e para o qual, adianta o RASI, contribuiu o “aumento dos reclusos preventivos que subiu 2,3%” em 2025. “Pela primeira vez em seis anos, verifica-se uma situação de sobrelotação do sistema prisional” com 103,4% de taxa de ocupação, problema para o qual o Governo já prometeu medidas em janeiro de 2026.
Pelo terceiro ano consecutivo, o número de reclusos estrangeiros aumentou ligeiramente, de 17,4% em 2024 para 18,1% em 2025, o que mantém “estável” a relação entre estes, e os reclusos portugueses que compõem 81,9% da população prisional. Entre os reclusos vindos de outros países, destaca-se África (43,3%) e mais especificamente Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. Segue-se a América do Sul (31,7% dos reclusos estrangeiros) e o continente europeu (17,7%), com Roménia e Espanha.
Os crimes contra as pessoas são os que mais levam pessoas às celas das prisões, seguidos de crimes contra o património e relativos a estupefacientes. Sobre crimes cometidos dentro dos estabelecimentos prisionais, verificaram-se quatro evasões e cinco evadidos — todos apanhados — e 39 agressões a guardas prisionais. Foram ainda detetados menos 166 telemóveis nas celas. Contabilizam-se ainda 14 suicídios em ambiente prisional, mais cinco que em 2024.
Redes de tráfico de estupefacientes são “graves ameaças a Portugal e à Europa”
A quantidade de haxixe apreendida aumentou 103% — e há cada vez mais organizações criminosas a escolherem Portugal “como ponto de entrada e trânsito de elevadas quantidades de haxixe e cocaína, com destino final a outros países europeus”. Estes grupos criminosos são, para as autoridades nacionais, “pelo elevado lucro que produzem e pela violência associada”, uma das “mais graves ameaças a Portugal e à Europa”. O transporte de grandes quantidades desta droga “entre a costa marroquina e as costas da Península Ibérica” é feito com embarcações de alta velocidade ou narcolanchas, “as quais, pela sua natureza, são extremamente difíceis de intercetar” e põe em causa a integridade física ou vida dos agentes de forças da autoridade. Exemplo disso foi o ocorrido em outubro de 2025, quando o cabo Pedro Manata e Silva morreu atingido por uma destas embarcações no rio Guadiana. Tinha 50 anos.
Portugal destaca-se ainda, no contexto europeu, como porta de entrada para a cocaína, cuja quantidade apreendida cresceu 11,4% num ano. A maioria é produzida na América do Sul e Antilhas, por via marítima, através do uso de semi-submersíveis e navios-mãe. Além dos pontos informais onde é deixada a droga através destes meios, também os portos marítimos de Lisboa, Sines, Setúbal e Leixões a par dos aeroportos de Lisboa e Porto continuam a ser pontos importantes do tráfico.
Precisamente por serem tão bem estruturadas, as organizações criminosas acabam por estar envolvidas em crimes económico-financeiros conexos de forma a que as suas receitas da droga entrem “nos circuitos financeiros formais”. Entre os 4.619 detidos por tráfico de estupefacientes (menos que os 4.820 registados em 2024), 3.880 têm nacionalidade portuguesa.