Eram cinco da manhã quando Rui Moura saiu de casa, em Marco de Canaveses. Partiu em direção ao Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, com um objetivo em mente: fazer a licitação ganhadora de um terreno do Estado colocado à venda em hasta pública. Acabou por ser mais fácil do que imaginou. O dono da Maquivessadas, empresa de venda e aluguer de máquinas e equipamentos para construção civil, foi o único dos 15 participantes a licitar o terreno. No primeiro leilão de património público promovido pela Estamo, nem todos os imóveis tiveram interessados, enquanto por outros a competição foi acesa. Para os cofres do Estado devem entrar mais de 21 milhões de euros.
Bastaram três minutos para Rui Moura sair como um dos vencedores da hasta pública, promovida pela gestora do património do Estado, com vista à alienação de um conjunto de, pelo menos, 16 imóveis, cuja receita servirá para financiar políticas públicas de habitação. Na primeira de três sessões que vão decorrer este ano, o empresário do norte estava em minoria. Entre os 15 participantes que levantaram a cartela, apenas dois não eram sociedades de investimento em imobiliário. Quase todos portugueses.
O alvo de Rui Moura era o “prédio rústico Bouça das Cruzes”, em Marco de Canaveses. Com um preço base de licitação de 159.200 euros, o terreno com 1,3429 hectares acabaria arrematado pelo candidato número 13 por 164.200 euros, cinco mil euros acima do preço inicial. Este era, aliás, o valor mínimo dos lances por este terreno. O “prédio rústico Bouça das Cruzes” deixará assim de ser propriedade do Estado português para passar a ser a morada das instalações da Maquivessadas.
“Podíamos ter ido um bocadinho mais acima se tivesse aparecido alguém para licitar”, admitiu o empresário ao Observador. Mas não apareceu. Quando Rui Moura fez a licitação única pelo terreno de Bouça das Cruzes, já a sala Sophia de Mello Breyner Andresen no CCB estava praticamente vazia. As estrelas da hasta pública desta terça-feira, composta por quatro imóveis, foram dois prédios em Lisboa — um edifício de dez andares na Avenida Visconde de Valmor e um prédio de seis pisos na Rua Filipe Folque. Assim que foram arrematados, bem acima do preço base, quase todos os participantes e vários curiosos abandonaram o leilão.
“Quem dá mais? Este é um excelente investimento, é nas Avenidas Novas, muito bem localizado. Lisboa está em alta”. O “excelente investimento” apregoado pelo leiloeiro Nuno Barata é o n.º 72 da Avenida Visconde Valmor, onde funcionava a Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE). “Edifício de serviços com duas caves e dez andares. Sub-cave para estacionamento. Cave para estacionamento e arrecadação. Piso 0 para loja, atualmente arrendada para refeitório. Pisos superiores para escritórios”, lê-se na descrição. Base de licitação: 13.026.900 euros. Era o imóvel mais valioso deste lote.
Antes do arranque das licitações, foram lidas as propostas enviadas pelos interessados por carta para cada um dos quatro imóveis a leilão. O edifício da Visconde de Valmor recebeu apenas uma, prontamente excluída pela Estamo. Os interessados, a gestora de ativos Lynx Asset Managers, ofereceram nove milhões de euros, um valor muito abaixo dos mais de 13 milhões pedidos, além de “não ter apresentado cheque” com 15% do valor da licitação, como constava nas regras. “Não pode ser considerada”, concluiu a Estamo. “Andam a brincar com isto”, ouviu-se entre o público.




Por ser o imóvel mais valioso da lista, cada licitação não poderia ser inferior a 150 mil euros. E não foram duas nem três, apesar de terem sido apenas dois os interessados. “Estou aberto à vossa melhor proposta. Tenho um número na cabeça e acho que vamos conseguir atingir. Eu licitava mas não posso”, incitava o leiloeiro Nuno Barata. Ao fim de 18 licitações, a sede da DGAE na Avenida Visconde de Valmor acabou por ser arrematada por 15.726.900 euros, 2,7 milhões de euros acima do valor base de licitação, pela H-Muprobimo, uma sociedade dedicada à compra e venda de imóveis. Os responsáveis presentes não adiantaram ao Observador o que pretendem fazer com o imóvel, sobre o qual alguns participantes à entrada comentavam ser “demasiado grande”.
Mas não foi o imóvel mais caro aquele que despertou o maior interesse. O prédio mais cobiçado do leilão do Estado fica entre o Saldanha e a Gulbenkian. Tem duas caves e seis andares. A sub-cave para estacionamento, a cave e o piso zero para receção, loja e arrecadação e os pisos superiores para escritórios. Chegou a acolher a extinta Inspeção-Geral da Administração Local, entre outras entidades públicas. Era o imóvel que, entre os inscritos, todos queriam licitar, e entre os curiosos, todos queriam ver quem lhe deitava a mão.
“Lisboa é das cidades mais caras na Europa e no mundo, é uma excelente oportunidade de negócio”. Assim que o leiloeiro deu o tiro de partida, nos 4.122.500 euros, sucederam-se as cartelas levantadas. Cada lance aumentava o preço em 50 mil euros. “Conferenciem com os vossos consultores, com o vosso gestor de conta, vejam a elasticidade dos vossos fundos. Quero ver mais emoção, mais disputa cerrada”. E a disputa foi mesmo cerrada. Ao longo de mais de 20 minutos, seis sociedades imobiliárias digladiaram-se pelo prédio das Avenidas Novas, que rapidamente valorizou em meio milhão de euros. “Este ainda é um valor extremamente simpático por um imóvel que tem certamente um valor de mercado muito superior. De certeza que a vossa carteira tem uma elasticidade bem maior. Não estou satisfeito, tenho um número na cabeça, quero chegar aos cinco milhões”. A vontade do leiloeiro foi cumprida. Ao 20.º lance, a sociedade imobiliária Almeida & Gramaxo ouviu o aguardado “arrematado”, após uma licitação de 5.163.754 euros, mais de um milhão de euros acima do valor base.
Mas o momento de maior suspense estava guardado para o fim. O edifício da Rua Filipe Folque tinha recebido uma proposta em carta fechada pelo preço base de alienação, 4.122.500 euros. Dentro do envelope, um cheque de 625 mil euros, 15% do valor proposto. Como quem apresenta propostas por escrito consideradas válidas não precisa de licitar durante o leilão, bastava ao interessado pronunciar se cobria ou não o valor. E a Timeless Wizard, sociedade de investimentos imobiliários que apresentou a proposta fechada, quis ir a jogo. “Vamos cobrir”. E com mais 50 mil euros em cima da mesa, comprou o n.º 44 da Rua Filipe Folque, por 5.213.754 euros. O imóvel já tem destino.




“Será transformado em habitação e colocado no mercado de arrendamento“, ao abrigo da recente lei que prevê uma taxa de IVA reduzida, de 6%, para projetos de construção e reabilitação para arrendamento até 2.300 euros, revelou ao Observador a representante da Timeless Wizard no leilão, que não quis ser identificada. “Vimos neste leilão uma boa oportunidade devido à localização do imóvel”, confessou a responsável, que vinha preparada para “cobrir os valores de licitação, até um determinado limite”. Agora, “o pior” serão as obras e a burocracia associada.
É a primeira vez que a Timeless Wizard participa num leilão, mas não deverá ser a última. Até ao final do ano há mais 12 imóveis do Estado para vender. E sete deles são prédios em Lisboa com potencial de transformação, como a antiga sede do Conselho de Ministros em Campo de Ourique, ou o edifício do Ministério da Educação na avenida 24 de Julho. “Espero que nos próximos haja alguma coisa aliciante, mas são valores superiores e nós não queremos para hotelaria, é mesmo para habitação”.
O leilão de imóveis do Estado foi decidido pelo Governo em setembro do ano passado. “Há património que não nos faz sentido ter na esfera do Estado, pela sua localização geográfica ou pelo seu potencial de maximização de receitas”, dizia então o ministro das Infraestruturas Miguel Pinto Luz. À partida para a primeira hasta pública, o objetivo do Governo era arrecadar no mínimo 18 milhões de euros. Acaba por conseguir 21 milhões, apesar de um dos quatro imóveis em hasta pública esta terça-feira não ter tido sequer um interessado. Trata-se de três parcelas de terreno para construção na Póvoa de Varzim, que foram a leilão por 337 mil euros e que ninguém quis. “A comissão declara a praça como deserta”, anunciou o leiloeiro. Em julho e outubro há mais.
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