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"Há no gesto de colecionar um motivo generoso": há 10 anos que a Quinta do Quetzal junta a arte ao vinho

É no Alentejo que a família De Bruin – Heijn recebe quem quer visitar uma importante coleção de arte contemporânea, ao mesmo tempo que o trabalho na quinta continua. Como e porquê?

Ricardo Ramos Gonçalves
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Há precisamente dez anos, os cabeçalhos de vários artigos na comunicação social portuguesa davam conta da abertura de um centro de arte na já existente Quinta do Quetzal, situada em Vila de Frades, concelho da Vidigueira, no Alentejo, voltada para a produção de vinho. O surgir de um espaço dedicado à arte contemporânea, visto sob um ângulo quase meramente economicista, parecia desvendar pouco sobre a coleção que ali se iria apresentar, propriedade do casal Cees (falecido em 2020) e Inge De Bruin-Heijn, responsáveis da quinta de vinhos e reconhecidos mecenas das artes na Europa. A não ser que se tratava de uma importante coleção de arte privada, composta por milhares de obras incluindo vídeo, pintura, fotografia e escultura, construída ao longo de décadas.

Sempre reconhecidos pelo perfil de colecionadores discretos, o casal Cees e Inge De Bruin-Heijn fora apontado em 2010, pela revista ArtNews, como estando entre os 200 maiores colecionadores de arte do mundo. Pouco era, de resto, notório. A história com Portugal começara, no entanto, cerca de 40 anos antes, quando a família comprou uma casa de férias em Silves, no Algarve. A história da coleção, da família De Bruin e da sua relação com Portugal são, no entanto, ponto de partida para, volvidos dez anos, melhor se entender o que representa este centro de arte, ainda assim particularmente desconhecido em Portugal. Mas é também esse paradigma que esperam continuar a mudar.

"Embora não seja uma colecionadora como os meus pais, acredito na importância de mostrar as obras e que há no gesto de colecionar um motivo generoso, sobretudo quando adquiriam obras que não eram de fácil exibição, como instalações ou vídeo ou trabalhos de artistas que ainda não eram devidamente reconhecidos", diz Aveline De Bruin-Heijn.

No ano em que celebram os dez anos de abertura e os 25 anos da quinta, fundada em 2001, os responsáveis querem trazer mais reconhecimento para a coleção, trabalhar de forma mais próxima com o contexto artístico português e ajudar a alavancar a produção de vinho e o seu enoturismo, que tem vindo a ganhar mais destaque. “O Alentejo está na moda e há orgulho entre as pessoas”, reconhece a diretora da Quinta do Quetzal, e filha do casal de colecionadores, Aveline de Bruin. Com Évora_27 – Capital Europeia da Cultura, há também um sentido renovado de oportunidade. Serão parceiros deste momento importante que, esperam, seja também de viragem para a região e para o país.

Uma coleção de décadas

Desde que abriu portas, o centro de arte da Quinta do Quetzal tanto foi um local de apresentação da coleção – composta maioritariamente por artistas internacionais – como um espaço aberto à colaboração com o panorama artístico português, embora sempre mantendo um tom ponderado. Começou, por exemplo, por chamar a si a colaboração de quatro curadoras portuguesas (Filipa Oliveira, Ana Cristina Cachola, Isabel Carlos e Ana Luiza Teixeira de Freitas), convidadas a pensar as muitas formas de mostrar esta coleção já de si heterodoxa. Nesse princípio, deu-se lugar também a um diálogo com artistas nacionais, como aconteceu com Igor Jesus, Mariana Silva, Rui Chafes ou Alexandre Estrela.

Nestes primeiros passos dados pelo centro de arte, nutria-se a preocupação de não alienar o espaço da quinta, para que não fosse visto como algo demasiado singular para se adaptar à realidade portuguesa. Era precisamente o contrário que se pretendia. Um restaurante aberto a todos os que por ali passam, as visitas guiadas à quinta tendo em conta a sua produção de vinho e o posicionamento como local de passagem nas rotas alentejanas do enoturismo sempre fizeram parte da direção tomada. O centro de arte, de entrada gratuita para qualquer visitante, seria apenas mais um cartão de visita. No eco que isso reverbera no campo artístico, seria também uma oportunidade para mostrar partes desta importante coleção e promover colaborações com o panorama contemporâneo.

Recuemos, porém, ao passado. A história da coleção do casal Cees e Inge De Bruin-Heijn começa a desenhar-se nas décadas de 1980 e 1990. “Os meus pais gostavam de arte e, ao longo das suas vidas, à medida que tiveram mais possibilidades, a coleção foi crescendo espontaneamente”, explica Aveline de Bruin, que não se assume como colecionadora, mas antes como administradora da coleção criada pelos pais. Esse período, reflete, foi particularmente marcado por um “sentido comunitário de colecionar arte, sobretudo junto de galerias”, num movimento “que hoje já não se vê tão frequentemente, com galeristas muito próximos dos colecionadores e que realmente lutavam pelos artistas representados”.

No caso de Aveline, essa ligação foi cedo compreendida. A mãe, Inge, esteve desde sempre ligada profissionalmente às artes: integrou a administração do MoMA – o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque –, integrou iniciativas ligadas à Art Basel, uma das maiores feiras internacionais de arte do mundo, e fez parte da direção do Centro de Arte Contemporânea, em Bruxelas. Cees, o marido, falecido em 2020, integrou também a administração do Stedelijk Museum, em Amesterdão. O casal é ainda patrono da Rijksakademie, uma escola de arte na mesma cidade. “Desde jovem, e pelo facto de nos Países Baixos ter tido várias disciplinas ligadas às artes, era até curioso ‘ensinar’ os meus professores sobre artistas de que nunca tinham ouvido falar, mas de quem os meus pais tinham adquirido obras. Era algo que estava presente desde tenra idade e, mesmo nas viagens que fazíamos à Bienal de Veneza ou nas visitas a museus, essa ligação esteve sempre lá”, sublinha Aveline.

“É importante cuidar e promover estas terras que nos dão tudo o que temos, mas é preciso fixar as pessoas, dar mais condições para os vários projetos que aqui podem nascer. Não é fácil trabalhar com vinho em Portugal e espero que, da nossa parte, possamos contribuir para dar a conhecer melhor este lugar e esta região, com a ligação entre arte e vinho que queremos continuar, se possível, por muitas mais décadas.”

Embora não se veja como colecionadora, Aveline sempre compreendeu o significado desse gesto de colecionar, bem como a ideia dos pais de “apoiar jovens artistas e instituições”, como fizeram com a Rijksakademie ou a Artangel, uma organização artística do Reino Unido que produz obras contemporâneas, muitas vezes em lugares inesperados fora de museus e galerias. “Colecionar e apoiar este tipo de projetos foi sempre algo que surgiu naturalmente no curso das suas vidas”, sintetiza. “Em perspetiva, embora não seja uma colecionadora como os meus pais, acredito na importância de mostrar as obras e que há no gesto de colecionar um motivo generoso, sobretudo quando adquiriam obras que não eram de fácil exibição, como instalações ou vídeo ou trabalhos de artistas que ainda não eram devidamente reconhecidos.”

A coleção, explica, embora sem núcleos rígidos, é por isso composta em muitos casos por obras de artistas com os quais os pais estabeleceram relações pessoais e até de amizade. “É uma coleção intuitiva, emocional. A minha mãe diz sempre que coleciona pelo storytelling. Quando mostramos algumas obras, torna-se mais difícil entender todas estas ideias, porque não é uma coleção de um tipo único. Não é só conceptual, ou um conjunto de pinturas ou de desenhos. Há, ainda assim, casos mais específicos e afinidades com outras coleções que podem ser analisadas”, sublinha.

Onde o vinho se cruza com a arte

A história que dá origem à Quinta do Quetzal é fruto de mera coincidência. Um acaso que deu lugar à semente onde viria a nascer todo o projeto. “A minha irmã mais velha casou e ficou com uma porção de região vinícola no Alentejo. O meu pai adorou a ideia de ter esse terreno na família e criar uma adega. Daí começou a produção de vinho. O edifício foi desenhado por Filipe Nogueira Alves, Margarida Direitinho e Nuno Ramos, construído em 2006 e tudo se desenrolou a partir desse momento”, conta Aveline.

Uma figura importante nesta história foi Reto Jörg, holandês de origem suíça, a viver em Portugal desde 1986 e ligado à agricultura e produção de vinha, que incentivou a família a ir mais longe no projeto. “Foi ele que nos motivou a integrar algo ligado à arte, uma vez que os meus pais eram colecionadores. Comecei a envolver-me assim que vi os desenhos do projeto e fiquei impressionada com tudo o que se podia fazer.” Assim começaram as primeiras exposições.

“Quis, desde logo, fazer algo que não fosse óbvio, mostrando obras de grandes nomes. A combinação era única no contexto português, embora existam referências internacionais, como o Château La Coste, que também cruza vinho e arte contemporânea, mas neste caso queríamos fazer algo que não fosse apenas para chamar atenção. Foi por isso que trouxemos algo de fora, começando com um conjunto de filmes de Pat O’Neill”, conta. De forma inusitada, o espaço foi visitado por galeristas e curadores portugueses, e isso ajudou a criar sinergias. “Foram sempre generosos com o nosso projeto e ajudaram a criar um diálogo”, acrescenta.

Seguiram-se outras exposições e várias colaborações com artistas, com obras comissariadas para o espaço da quinta, que hoje se podem vislumbrar. Entre elas, destacam-se Goddess of Harvest, de Müge Yilmaz, uma escultura vermelha vibrante que simboliza fertilidade e renovação; o mural Under the Mountain, de Kasper Bosmans, que sobrepõe narrativas lúdicas inspiradas na história e nos mitos locais; e Tomorrow’s Sky, de Susan Philipsz, uma instalação sonora que transforma a vinha num espaço acústico ao ar livre. “Estas obras, juntamente com contribuições de outros artistas, refletem a visão em expansão da Quinta do Quetzal”, realça a responsável.

Sob o signo de Espinosa

Chegados a 2026, a coleção continua a crescer, mas a perceção da família mudou. “São tempos diferentes e foram dez anos muito especiais. Muitas destas colaborações com artistas que se podem ver hoje no espaço da quinta surgiram por pura relação de amizade. Vejo tudo isto como o reconhecimento do que foi a dedicação dos meus pais”, sustenta.

Em 2027, no contexto de Évora como Capital Europeia da Cultura, o Quetzal Art Center apresentará uma nova mostra, com curadoria de Aveline de Bruin e Filipa Oliveira. Reunindo artistas como Giorgio Andreotta Calò, Joana Escoval, Germaine Kruip, Diana Policarpo, Tatiana Rosa e Maja Escher, a exposição propõe uma reflexão sobre a relação entre o ser humano e a terra — do passado ancestral ao presente em disputa e aos futuros em risco.

Toda a história por detrás desta coleção é sobre “apoiar artistas, mostrar arte e torná-la acessível, e sobre compromisso”, diz Aveline. Não é possível pensar hoje na Quinta do Quetzal sem arte, algo que tem, de forma inusitada, contaminado outras dimensões do projeto, envolvendo artistas na própria produção de vinho, como se pode ver em Trembling Times, de Yael Bartana, um néon colocado na sala de barricas, onde se cruza uma ideia de inquietação e identidade, ou ainda no rótulo desenhado pelo artista belga Kasper Bosmans para a colheita de 2022. “Não é uma coleção infinita, por isso temos de encontrar novas formas de acender essa relação entre as várias dimensões do projeto que é a Quinta do Quetzal. É por isso que queremos criar mais obras site-specific que traduzam e reflitam essa ligação”, destaca.

No centro de arte, estão para já planeadas duas exposições. A primeira, Truvadors, de Pedro Barateiro, com abertura a 5 de setembro de 2026 e patente até fevereiro de 2027, propõe um ambiente imersivo que cruza filme de animação, escultura, desenho, performance, música e leitura. A obra parte da figura simbólica do trovador e inspira-se em Vicente Lusitano (c. 1520 – c. 1561), compositor e teórico da música nascido em Olivença, então território português, considerado o primeiro compositor negro europeu publicado. Durante a exposição, esse universo será ativado através de momentos especiais que ligam a instalação à tradição gastronómica e cultural da região, em colaboração com artistas convidados.

Já em 2027, no contexto de Évora como Capital Europeia da Cultura, o Quetzal Art Center apresentará uma nova mostra, com curadoria de Aveline de Bruin e Filipa Oliveira. Reunindo artistas como Giorgio Andreotta Calò, Joana Escoval, Germaine Kruip, Diana Policarpo, Tatiana Rosa e Maja Escher, a exposição propõe uma reflexão sobre a relação entre o ser humano e a terra — do passado ancestral ao presente em disputa e aos futuros em risco. Em sintonia com a filosofia de “Vagar”, tema da Capital Europeia da Cultura, que valoriza a lentidão e a observação profunda, o projeto encontra no Alentejo, com a sua geologia que atravessa todas as eras da história da Terra, um arquivo vivo e um ponto de partida privilegiado.

Retomando o mote destes dez anos, voltamos à ideia de contar histórias que são maiores do que os lugares. Aveline de Bruin recorda a história da família de Bento de Espinosa, cujos pais fugiram por motivos religiosos para os Países Baixos, partindo justamente da Vidigueira, bem próxima da Quinta do Quetzal. “Os holandeses têm bastante orgulho na figura de Espinosa como parte da cultura, mas a sua história é muito maior. Faz parte da história de ser migrante, daqueles que partem para outros lugares, e isso também diz muito sobre a história do Alentejo.”

A Quinta do Quetzal, bem como a história deste centro de arte e da sua coleção, são inspiradas por todas estas ligações. “São estas histórias que explicam as tradições desta região e é isso que queremos continuar a destacar, numa visão contemporânea”, completa. O momento atual é especialmente significativo, sobretudo pelo desígnio de Capital Europeia da Cultura, que já ecoa em toda a região. “É importante cuidar e promover estas terras que nos dão tudo o que temos, mas é preciso fixar as pessoas, dar mais condições para os vários projetos que aqui podem nascer. Não é fácil trabalhar com vinho em Portugal e espero que, da nossa parte, possamos contribuir para dar a conhecer melhor este lugar e esta região, com a ligação entre arte e vinho que queremos continuar, se possível, por muitas mais décadas.”