(c) 2023 am|dev

(A) :: A esquerda portuguesa e o pluralismo: um teste (rápido) de avaliação

A esquerda portuguesa e o pluralismo: um teste (rápido) de avaliação

Se eu, em vez de jurista, fosse psiquiatra, talvez pudesse ter contribuído para a saúde mental da coletividade – a psiquiatria é uma ciência com largo futuro e já hoje uma necessidade dos intolerantes

Paulo Otero
text

1 O relacionamento da esquerda política portuguesa com o pluralismo e um modelo de sociedade livre e aberta às diferentes mundividências individuais não se mostra uniforme, permitindo diferenciar duas distintas esquerdas:

Há uma esquerda que aceita, promove e respeita a diferença de opiniões, de valores, de pontos de vista e tem como salutar o dissenso, num clima de tolerância, diálogo e liberdade – é a esquerda adepta de uma sociedade aberta, correspondendo à esquerda democrática que teve como principal líder, desde o verão de 1975, o Dr. Mário Soares e hoje se encontra representada pelo Dr. António José Seguro;

Há uma outra esquerda que desconfia da diferença, prefere a unicidade de valores e de opiniões, revela-se intolerante à discordância, qualifica de “fascista” todos os que dela divergem, possuindo um entendimento da liberdade de expressão circunscrito às coordenadas dos dogmas por si definidos e o diálogo faz-se dentro de uma sociedade fechada – esta é a esquerda antidemocrática, intrinsecamente totalitária e repressiva.

2 A distinção entre estas duas esquerdas pode fazer-se através de um simples teste de três questões que, envolvendo uma resposta de “sim” ou “não”, cada pessoa que se considera de esquerda poderá rapidamente realizar:

Acha que quem é contra a ideologia de género, a cultura woke e não tem simpatias pelo 25 de abril é, por isso, “fascista”? – se responder sim, não se integra na esquerda democrática;

Considera que quem defende os valores judaico-cristãos da família, insurgindo-se contra o aborto, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adoção de crianças por casais gays é “fascista”? – se responder que sim, pertence à esquerda antidemocrática;

Concorda que quem tenha tais ideias “fascistas” deva ser “cancelado” do espaço público comunicacional, inibido de exercer funções públicas ou até mesmo disciplinarmente sancionado, sendo-lhe interdito o acesso à titularidade de órgãos de soberania? – se responder afirmativamente, então será herdeiro de Xenofonte, Tomás de Torquemada ou Enver Hoxha.

Este é o teste que não deixa quaisquer dúvidas sobre aquilo que cada um representa dentro da atual esquerda portuguesa.

3 O rigor científico exige, porém, que, dentro da esquerda antidemocrática ou totalitária se faça ainda uma diferenciação entre três diferentes categorias:

Os intolerantes que, recorrendo a um discurso de ódio e/ou à violência física contra quem exerce a liberdade de expressão, representam a esquerda radical com perfil criminal;

Os intolerantes que, nunca tendo ouvido falar em Xenofonte, Tomás de Torquemada ou Enver Hoxha, integram a esquerda totalitária e ignorante;

Todos os restantes intolerantes que, sem se incluírem nas duas anteriores categorias, fazem parte de uma extrema-esquerda urbana, elitista e aburguesada.

4 Não se ignora que, em espelho, também a direita tem as suas variantes, expressando a evidência de que não existem famílias (políticas…) perfeitas. É essa imperfeição que me suscita uma reflexão pessoal: se, em vez de jurista, fosse psiquiatra, talvez pudesse ter contribuído para a felicidade de alguns e uma melhor saúde mental da coletividade – a psiquiatria é uma ciência e uma profissão com largo futuro e já hoje uma necessidade urgente dos intolerantes.