(c) 2023 am|dev

(A) :: Comer, beber e visitar: construída para dar energia à Tapada da Ajuda, a Geradora vai acolher o Esporão

Comer, beber e visitar: construída para dar energia à Tapada da Ajuda, a Geradora vai acolher o Esporão

O projeto de mais de 5 milhões de euros abre portas no verão, uma parceria com o Instituto Superior de Agronomia. Com restaurante, beergarden e museu, a ideia é dar vida a um edifício com 100 anos.

Carolina Sobral
text
Diogo Ventura
photography

A geradora nunca existiu. Quando em 1755 a família real portuguesa viu a sua residência oficial, o Palácio da Ribeira, no Terreiro do Paço, ser destruída pelo terramoto, o Rei D. José I (1714-1777) decidiu que haveriam de se instalar na Ajuda, uma zona menos afetada pelo sismo. Com receio de um novo tremor de terra, mandou-se construir em madeira a Real Barraca, quase como um presságio da tragédia que viria a acontecer: em 1794, o deflagrar de um incêndio destruiu irremediavelmente a habitação, assim como grande parte do seu valioso espólio. Foi já durante o reinado de D. Maria I (1734-1816) que o desaparecimento do Paço de Madeira levou à construção de um novo palácio, desta vez em alvenaria de pedra, desenhado para ser um dos maiores palácios reais europeus — mas não chegou a tanto. Como o único pedido era que esta nova casa tivesse eletricidade, foi mandada construir uma central de produção de energia para alimentar o Palácio da Ajuda. Quando foi concluída, já a rede elétrica pública tinha chegado à Tapada da Ajuda, levando à inutilidade da Geradora. Até agora.

Apesar de esta história remontar ao século XVIII, é bem mais recente do que isso. Foi já este século que aquele edifício industrial que durante mais de 100 anos esteve por ali perdido por entre a vegetação da Tapada da Ajuda, e que em 1910 passou para as mãos do Instituto Superior de Agronomia (ISA), ganhou, finalmente, utilidade. E tudo graças à expansão do Grupo Esporão e à necessidade por um novo escritório em Lisboa — mas que não fosse apenas um escritório. “Não queríamos ir para um escritório normal, porque achámos que íamos perder um bocadinho a oportunidade de mostrar a experiência do Esporão. Temos o enoturismo e estamos preparados para receber pessoas e pensámos que podíamos ter um sítio que também esteja aberto ao público, onde podemos ter uma interação e uma dinâmica maior com as pessoas que nos visitam”, começou por explicar ao Observador João Roquette, o presidente do Conselho de Administração do Esporão.

Quando uma proposta da Câmara Municipal de Lisboa para explorar “uma vinha ali ao pé do aeroporto” não correspondeu à procura, surgiu a ideia de ser feita uma proposta àquele que, à data, em 2019, era o novo presidente do Instituto Superior de Agronomia, o professor António Guerreiro de Brito. Esta foi recebida com entusiasmo, foi aberto um concurso público, uma vez que o edifício é património do Estado, e assinado um contrato para a concessão do edifício da Geradora por 30 anos, com um investimento do Esporão que, aos dias de hoje, já supera os cinco milhões de euros.

Se não serve apenas para escritório, que mais quer o Esporão fazer da Geradora? A partir do verão deste ano, o projeto abre portas enquanto um espaço aberto ao público com restaurante, uma cave de vinhos, uma loja da marca, um beergarden com assinatura da Musa e uma agenda cultural com mais de 70 atividades programadas para os primeiros 18 meses. “Isto é mais do que um museu, é mais do que um restaurante, ou uma sala de provas de vinho, ou um beergarden, quer dizer, é tudo isso. É uma experiência no meio da cidade, no meio da floresta, que com esta proposta eu não conheço”, afirma João Roquette, acrescentando: “É um sítio que está integrado numa Universidade, onde se pode ter acesso a esta parte mais científica, mais académica, mais de conhecimento, mas depois vamos ativar isto através dos eventos culturais que chamem as pessoas cá. É uma espécie de oásis, ou um break que se tem da vida da cidade, do trânsito. E poder estar no meio do campo quase no meio de Lisboa… é uma proposta muito diferente.”

A experiência de oásis que a Geradora oferece não começa apenas lá em baixo quando entramos pelas grandes portas industriais, recriadas a partir das antigas, mas sim cá em cima, ainda na entrada do ISA. Os carros ficam à porta, entre a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, e o passeio a pé, ou até de bicicleta, é privilegiado. Para se chegar até lá, é preciso percorrer um caminho onde a natureza é quem manda e onde a ideia de que alguma vez estivemos em Lisboa quase se desvanece, não fosse o ligeiro ruído trazido pelo vento desde a ponte 25 de Abril recordar-nos.

Chegados cá abaixo, somos recebidos pela tal Geradora que não existe. O edifício ocupa cerca dos dois mil dos sete mil metros quadrados que o projeto ocupa na Tapada da Ajuda e uma tamanha revolução que, vista de fora, não se sabe sequer que aconteceu: “Era irreconhecível se tivéssemos vindo cá em 2022”. Depois de nunca ter chegado a gerar eletricidade para o Palácio da Ajuda, a Geradora foi integrada no ISA em 1910, como uma das primeiras decisões da República, para albergar um museu agrícola. Também esse museu nunca chegou a existir e 116 anos passados vai agora ganhar vida — mas já lá chegamos. Antes disso, é preciso perceber: para que serviu este edifício ao longo deste século, senão para gerar eletricidade? Foi tendo vários usos, um deles receber as aulas de mecanização agrícola da faculdade, até passar a ser um espaço de armazenamento de equipamento agrícola e mobiliário universitário. Nos últimos 20 a 30 anos estava abandonado e em mau estado de conservação, com infiltrações de água, paredes descascadas, falta de pintura e com o teto a cair. “O edifício estava muito destruído e o teto começava a cair. Rapidamente, em 10 anos, isto atingia um estado ainda mais difícil de recuperar”, descreve o presidente do Instituto Superior de Agronomia.

Tudo isto até cá chegar o Esporão. Assinado pelo atelier Gorvell, com quem o grupo tem trabalhado, este é um projeto de recuperação no qual se procurou manter o mais fidedignas possíveis as características de um edifício com mais de 100 anos. A fachada ficou por cá, com as grandes janelas que a cobrem, “as caixilharias, os mecanismos de abrir a janela, o próprio acabamento, os vidros” a ser reproduzidos de forma igual às anteriores. De um quase armazém de pé direito altíssimo, e com um mezanino construído a posteriori, a Gorvell fez da Geradora um edifício de dois andares, mais a antiga cave, onde no andar de cima foram desenhados os escritórios para onde o Esporão se mudou no primeiro trimestre do ano — com um terraço que sugere que sejam atribuídas ainda mais razões para a Geradora ser considerada “um oásis” — e no andar de baixo onde se divide o open space entre o restaurante, o museu e a loja.

No meio de tudo isto, onde é que estaria, afinal, a geradora? “Quando aqui cheguei e vi este edifício percebi que se chamava a geradora e perguntei: ‘Onde é que está a geradora?’ E há umas fotografias aparentemente deste edifício com uma geradora. E até me mostraram. Mas não são daqui. É fake“, conta o professor António Guerreiro de Brito, recordando como chegou a ponderar ligar à EDP para perguntar onde estava, efetivamente, aquela que seria a geradora do Palácio da Ajuda. “Isso nunca existiu. Na verdade, essas caldeiras nunca existiram. Mas eu acho que há pessoas, colegas meus, que acreditam que elas existiram”, confessa.

Com ou sem geradora, o edifício já estava automaticamente batizado, quase como que um sinal daquilo que viria a promover: gerar ideias novas, criatividade, investigação e uma parceria que se vai manter por 30 anos. “Nós entramos aqui no ISA dentro daquilo que é a missão da própria universidade e muito enquadrados dentro de uma universidade que tem 116 anos. Isto representa também uma mudança naquilo que é a vida do ISA e a coragem e a visão do professor António para dar um passo, acho eu, importante de consolidação, afirmação e modernização da própria universidade, atraindo empresas que possam cumprir aquilo que é a própria missão da universidade”, afirmou João Roquette, sustentado pelo próprio presidente do ISA, que explica como a universidade considera importante utilizar o campus de 100 hectares para inovação e investigação, e como se “faz melhor com as empresas que estão àquilo que nós chamamos de distância de bicicleta”, afirmando que viram a vinda do Esporão para a Tapada da Ajuda como uma “enorme oportunidade para aproveitar as sinergias na área da inovação e, em simultâneo, recuperar algum património”.

De edifício abandonado a destino para os lisboetas

Com a data exata de abertura ainda por definir, o Esporão planeia dar a conhecer ao público este demorado projeto ainda este verão, com o início de julho a ser o momento mais apetecível. Quando assim for, os futuros clientes — sejam eles estudantes, enólogos, artistas ou simples amantes da natureza — vão poder aproveitar a Geradora para vir experimentar a oferta gastronómica do restaurante homónimo, que, numa fase inicial vai estar aberto apenas para almoços de quarta-feira a domingo. À frente da cozinha está o chef Manoel Libeau, que depois de ter trabalhado com nomes como o português Alexandre Silva, o dinamarquês René Redzepi e o espanhol Albert Adriá, integrou a equipa da Herdade do Esporão em 2025 onde tem absorvido a filosofia da casa para poder agora desenvolver uma proposta gastronómica alinhada com os pilares do sabor, sustentabilidade e sazonalidade.

A carta ainda está para ser revelada, mas o Observador já sabe que “pretende ser, de certa forma, eclética, mas diferente e original” através de uma oferta que vem recuperar a memória do princípio do século: “Queremos olhar para aquilo que era a oferta em Lisboa, o que é que se comia em Lisboa, que é uma coisa que já está muito apagada da memória, muito longe”, explica o presidente do Conselho de Administração do Esporão, acrescentando que o restaurante Geradora assume que “estamos em Lisboa, não estamos nem no Alentejo nem em Ponte de Lima, estamos em Lisboa”. “Quer ser eclético o suficiente para poder aproveitar [o facto de] estar no meio da Tapada e tudo aquilo que está aqui plantado e que ainda não se plantou e se calhar se vai poder plantar”, continua. Com uma proposta acessível, deixam de lado a alta gastronomia que já praticam na Herdade do Esporão. “Não é um restaurante que está acessível só a alguns, porque, de facto, queremos que este espaço traga cá pessoas e que as pessoas possam usufruir dele”, defende.

A parceria com o ISA é também marcada pelo restaurante. Além de poder vir a servir os produtos das hortas da universidade, terá um papel fundamental na gestão de resíduos e no trabalho que o ISA tem tido para vir ser um campus zero waste. “Nós temos um mestrado em gastronomia e, portanto, há aqui esta parte alimentar. Assim como a sustentabilidade ambiental, que é a gestão de resíduos, que é algo que nós também ensinamos. Portanto, também olhamos para o restaurante como um laboratório para os nossos alunos e professores poderem interagir com o Esporão e ver o que é que pode ser interessante”, explica o presidente do ISA, sustentado por João Roquette que avança com o objetivo de conseguir alargar a produção de energia e de água quente através do caroço de azeitona, como já fazem no Alentejo.

Com 30 lugares na esplanada e 50 no interior, o restaurante Geradora tem, como era de esperar, o vinho como peça central da experiência. Ao centro da grande sala está uma escadaria rodeada por bancos e mesas em madeira que leva até à cave dos vinhos do Esporão, onde vão ser planeadas as provas. O cliente é assim convidado a levantar-se da sua mesa e ir até lá abaixo espreitar a garrafeira e escolher qual o vinho que vai querer para acompanhar a sua refeição. “Uma pessoa pode vir aqui almoçar 20 vezes e não vai beber o mesmo vinho. Vai ter sempre uma experiência diferente”, garante João Roquette. Os vinhos do Esporão são assim os únicos servidos nesta casa, à exceção dos eventuais eventos que planeiam organizar, onde serão convidados diferentes enólogos de diferentes países: “Temos a vontade de trazer vinhos franceses, italianos, e enquadrá-los na nossa experiência. Mas o centro é obviamente o nosso vinho“.

Ainda na vertente gastronómica, ao lado do edifício da Geradora foi renovada uma antiga oficina que vai receber o beergarden: “Tivemos uma marca de cerveja, a Sovina, uma marca do Porto. Vendemos à Musa e comprámos uma participação. Como eles têm a experiência a gerir espaços, vão ter aqui o beergarden. Mas não vai ser um bar Musa, como os outros quatro que existem, mas sim um bar Sovina”, explica João Roquette. Assim, este beergarden vai ter uma oferta mais alargada onde os petiscos e a cerveja vão reinar, tudo numa vertente também ela mais acessível. “Mais uma vez há uma parceria que pode ser explorada, porque nós ensinamos engenharia alimentar, no qual se ensina a fazer cerveja, por exemplo, ou pão, ou todas essas matérias”, acrescenta ainda o professor.

De regresso ao edifício principal, é por lá que encontramos os produtos da marca Esporão assim como o museu que, 116 anos depois, vai finalmente existir. Uma vez que os tempos mudaram, este não pode mais ser um museu de tratores. Em vez disso, será um museu de agricultura, alimentação, biodiversidade e arte, ao mesmo tempo que conta um pouco da história da agricultura em Portugal. Para tal, o ISA abre portas ao seu acervo privado dando a conhecer as coleções que possui, desde os solos até às madeiras. João Roquette descreve-o como “um gabinete de curiosidades” que aponta tanto para o mundo natural como para o mundo artificial. “Podemos fazer uma exposição só sobre os solos e trazemos aqueles perfis incríveis que o ISA tem cá. Vamos fazer uma coisa só sobre os objetos de madeira que eram utilizados nas aulas há uns anos para mostrar aos alunos como é que eram as raízes das plantas, como é que eram as alfaias e os tratores”, exemplifica. “Existe isto tudo. Existe todo um mundo que está dentro de laboratórios na Universidade, e é ali que têm que estar, mas que podemos também trazer um bocadinho para a luz do dia”, sugere.

Para o professor António Guerreiro de Brito a criação do museu é vista pelo ISA como uma forma de captar alunos que estejam no ensino secundário e despertar-lhes curiosidade pelas ciências agrárias que, afirma, “em geral não é a área mais interessante para os alunos”, reconhecendo a dificuldade em atrair estudantes. “Nós esperamos que o museu da Geradora seja uma visita muito frequente dos alunos do ensino secundário e vamos querer que as escolas da região de Lisboa queiram inscrever no seu programa a ida ao ISA para ver a Geradora. E outras coisas que nós temos aí também”, afirma.

Uma última forma de atrair público até à Geradora é a vertente cultural na qual o Esporão e o ISA querem apostar. Desde concertos a cinema ao ar livre, passando por poesia, teatro e momentos infantis, a ideia é ter uma programação que seja eclética e que possa trazer diferentes tipos de público. Em parceria com a revista Gerador, a Geradora tem já 72 atividades culturais planeadas para os primeiros 18 meses de vida do projeto.

Como não há como não reparar na coincidência do nome, é preciso abordá-la. A mesma foi encarada como uma oportunidade para unir forças: “Quando fomos registar o nome percebemos que há uma revista que tem o mesmo nome, o Gerador, registado enquanto atividade cultural. E, basicamente, uma das pessoas que trabalha connosco explicou como eles fazem bons eventos e como podiam ser um bom parceiro para fazer a ativação cultural”, recorda João Roquette, clarificando que foi possível registar o nome para o restaurante.

“Vamos estar aqui durante 30 anos, portanto, a possibilidade de fazermos a mesma coisa durante 30 anos é quase impossível”, acrescenta ainda o presidente do Conselho de Administração do Esporão reconhecendo a importância de fazer da Geradora um projeto variado e que seja um motivo suficiente para que o lisboeta saia do seu percurso habitual do centro da cidade e se desvie até à Tapada da Ajuda. “Não é um lugar de passagem. É um destino e tem que haver razões para as pessoas cá virem. Isso implica que este sítio seja trabalhado de uma maneira diferente”, reconhece, propondo uma oferta que tanto pode ser mais familiar durante o fim de semana como mais corporate durante a semana, com almoços de negócios, por exemplo. “Jantares românticos durante a semana, festas e eventos. Este espaço tem a dimensão para isso. É tudo isto combinado”, acrescenta. Tudo isto com o objetivo de “destapar a Tapada”. “O Esporão foi, para nós, muito bom porque nos permitiu abrir a Tapada. Porque, como diz a palavra, é tapado, não é? É morado. Portanto o nosso esforço foi abrir e gostávamos muito de destruir esses muros”, completa ainda o presidente do ISA. Até ao final da estadia do Esporão no ISA, uma coisa é certa: haverá de sair daqui um vinho. Seja com a ajuda dos enólogos que já passaram pelo ISA, ou com aqueles que ainda hão de passar, seja com as uvas de cada uma das partes, “vai ter de acontecer e vai ser sempre bom”.