(c) 2023 am|dev

(A) :: Amostras de vírus com elevado nível de contaminação roubadas de laboratório de universidade

Amostras de vírus com elevado nível de contaminação roubadas de laboratório de universidade

Casal é suspeito de roubar amostras biológicas de nível 3 de biossegurança para a sua empresa de biotecnologia. Entre os 24 tipos de vírus retirados estão coronavírus, dengue, zika e herpes.

Larissa Faria
text

O furto foi comunicado pela Universidade Estadual de Campinas, no Brasil, à Polícia Federal a 16 de março: várias amostras de vírus tinham desaparecido do laboratório da instituição de ensino e, entre os materiais biológicos, estavam 24 tipos de vírus, como coronavírus humano, dengue, chikungunya, zika, herpes e Epstein-Barr, avançou a TV Globo. O roubo incluía também 13 tipos de vírus que infetam animais e outros patógenos menos conhecidos.

A falta do material, que estava no Laboratório de Virologia e Biotecnologia Aplicada, foi notada pela primeira vez a 13 de fevereiro por uma investigadora. Mais tarde, a 24 de fevereiro, uma aluna da pós-graduação terá visto o veterinário e doutorando Michael Edward Miller a deixar um dos laboratórios sozinho durante a noite, desconfiando da atitude. No dia a seguir, uma investigadora deu também falta de vários materiais no espaço.

A análise interna das câmaras de vigilância da universidade revelou que, desde novembro, Miller frequentava o laboratório em horários em que este estava vazio e, na maioria das vezes, acabava a levar caixas do espaço. Em alguns momentos, estava acompanhado pela sua mulher, Soledad Palameta, que é professora na Faculdade de Engenharia de Alimentos. A 13 de março, a reitoria tomou conhecimento do caso, acionando de imediato a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, devido ao material ser considerado de nível de biossegurança 3 — o mais elevado daquela escala no Brasil, que classifica desta forma os materiais biológicos que têm elevado potencial de causar infeções transmissíveis.

A partir das denúncias, foi iniciada em 20 de março uma investigação da Polícia Federal, com a busca e apreensão de dados na casa de Soledad e Michael, onde nada foi encontrado. Parte das amostras foi entretanto descoberta na Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde Palameta leciona, o que aumentou as suspeitas de que ela e o marido sejam os responsáveis pelo furto. Para que não houvesse interferência nas investigações, o acesso ao espaço foi encerrado temporariamente.

A mesma polícia apurou, no entanto, que nos dias 21, 22 e 23 de março, mesmo após o início das investigações, Soledad terá ido a outro laboratório da universidade, onde estavam escondidas mais amostras. Numa tentativa de destruir as provas, a professora terá retirado os rótulos dos materiais, que foram descartados sem identificação.

O material foi encontrado pela polícia, que prendeu Soledad Palameta em flagrante no dia 23 pela suspeita do furto de materiais dos dois laboratórios. Após uma noite detida, foi liberada provisoriamente com o pagamento de fiança. Tanto a mulher como o marido podem ter de responder em tribunal pelos crimes de furto qualificado e fraude processual, segundo a Agência Brasil. Ambos estão proibidos de aceder aos laboratórios.

Soledad e Michael são donos da empresa de biotecnologia AgroTRIX, que desenvolve “produtos e soluções para a saúde animal e vegetal” por meio da manipulação de vírus. Ainda não se sabe se o roubo foi realizado para beneficiar trabalhos da empresa, sem autorização prévia dos laboratórios da universidade para a manipulação e retirada das amostras. A AgroTRIX integra a Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp, chamada de Incamp, que apoia empreendedores e startups. Num comunicado divulgado no seu site, a Unicamp afirmou que “permanece colaborando integralmente com as investigações” da Polícia Federal e que “colaborará para que todos os envolvidos sejam responsabilizados de acordo com a legislação vigente”.